Análise: Cerco a emendas ganha força em ano eleitoral
Segundo análise de Clarissa Oliveira, ao Live CNN, a operação da Polícia Federal investiga esquema de desvio de recursos públicos, com foco em deputado federal, enquanto governo libera valor recorde de R$ 61 bilhões em emendas
A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (13) uma nova fase da operação Overclean, que investiga uma organização criminosa suspeita de desvio de emendas parlamentares, corrupção e lavagem de dinheiro. Esta ação marca um avanço significativo no cerco às irregularidades envolvendo recursos públicos, especialmente em um momento crítico do calendário político brasileiro. A análise é de Clarissa Oliveira, ao Live CNN.
"A operação da Polícia Federal deflagrada hoje, que é mais uma fase de uma operação que já está em andamento há muito tempo, chega coroando esse cerco da PF aos desvios de emendas parlamentares, em um ano crucial, já que é um ano de eleição", apontou Clarissa.
A operação tem como alvo direto o deputado federal Félix Mendonça Júnior, que está em seu quarto mandato e é filiado ao PDT desde 2011. O Supremo Tribunal Federal, por meio do ministro Cássio Nunes Marques, autorizou nove mandados de busca e apreensão e determinou o bloqueio de R$ 24 milhões em contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas investigadas.
Recorde histórico de emendas
O avanço das investigações ocorre em um cenário de liberação recorde de emendas parlamentares. Em 2026, o governo liberou aproximadamente R$ 61 bilhões para este fim, um valor sem precedentes na história brasileira. "Um recorde histórico que reflete a dificuldade do governo do presidente Lula de garantir o avanço de sua pauta estratégica sem que haja essa composição com o Legislativo", explicou a analista.
A pressão por parte dos parlamentares para aumentar a liberação de emendas tem sido cada vez mais intensa, sem necessariamente garantir a transparência no processo. Apesar das sucessivas decisões do ministro Flávio Dino exigindo rigor e transparência na execução desses recursos, o mecanismo de distribuição de emendas continua se reinventando para contornar as restrições impostas pelo Judiciário.
"As decisões do ministro Flávio Dino esgarçaram muito a relação entre o Judiciário e o Congresso Nacional, por conta dessa insistência do nosso Judiciário em demandar transparência e rigor no cumprimento do pagamento desses recursos na forma que eles são de fato executados", afirmou Clarissa Oliveira.
Histórico de problemas
O caso atual é apenas a ponta do iceberg de um problema estrutural na relação entre Executivo e Legislativo no Brasil. Ao longo dos diferentes governos, os mecanismos para garantir governabilidade foram se transformando: do mensalão no primeiro mandato do governo Lula, passando pelo Petrolão durante o governo Dilma Rousseff, até o orçamento secreto no governo de Jair Bolsonaro.
"Quando olhamos os históricos dos governos mais recentes, vemos que a forma de garantir a governabilidade, mesmo que por meios absolutamente escusos, vai sendo reinventada governo após governo", disse a analista: "A leitura que eu faria sobre a questão das emendas parlamentares é quase que um repasse da responsabilidade, porque o governo do presidente Lula parece ter tirado a mão de qualquer esquema e repassado a responsabilidade para os próprios parlamentares".
A atual gestão parece ter adotado uma estratégia diferente, liberando valores recordes em emendas parlamentares, mas aparentemente transferindo a responsabilidade pela execução legal desses recursos para os próprios parlamentares. Essa dinâmica tem gerado tensão entre os poderes, especialmente com o Judiciário, que tem demandado maior transparência no uso do dinheiro público.


