Análise: Coração de Milei bate por Flávio Bolsonaro, cabeça apoia Lula

Apesar do alinhamento ideológico, Casa Rosada teme que vitória da direita no Brasil faça Argentina perder status de parceiro preferencial dos EUA na América do Sul

Daniel Rittner, da CNN Brasil, Brasília
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"Vas a ganar", sentenciou em março o presidente da Argentina, Javier Milei, ao encontrar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e abraçá-lo na posse do líder chileno, José Antonio Kast, em Santiago.

O coração de Milei certamente bate por Flávio nas eleições presidenciais brasileiras, mas é praticamente consensual entre pessoas com acesso à Casa Rosada: quando a administração pública argentina projeta cenários e mapeia riscos, a torcida fria é pela reeleição de Lula (PT).

Reservadamente, uma fonte do país vizinho explica o aparente paradoxo: a perda do status de parceiro preferencial de Donald Trump na América do Sul, com uma eventual vitória de Flávio, faz grande parte do governo ver na continuidade de Lula o cenário ideal.

Não dá para desprezar o raciocínio. Basta resgatar o que ocorreu menos de um ano atrás. Em setembro de 2025, em um revés para Milei, o peronismo obteve uma ampla vitória nas eleições da Província de Buenos Aires (que equivale sozinha a São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro juntos como proporção do eleitorado nacional).

Houve uma corrida cambial e temores de nova crise econômica. Analistas políticos apontavam a possibilidade de Milei tornar-se precocemente um "pato manco" com uma iminente derrota também nas eleições legislativas (com renovação de boa parte da Câmara e do Senado) de meio de mandato.

A Casa Rosada buscou desesperadamente o governo de Donald Trump e o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, empenhou-se pessoalmente em um resgate de US$ 20 bilhões à Argentina. Deixou claro que o socorro financeiro estava condicionado à vitória de Milei.

O dinheiro estabilizou a situação macroeconômica, tirou pressão do peso e deu fôlego renovado ao presidente libertário. O governo virou o jogo e Milei saiu fortalecido das eleições legislativas, com ganhos expressivos da bancada de seu partido, La Libertad Avanza.

Uma fonte ouvida pela CNN em Buenos Aires enfatiza: essa prioridade dada hoje pela gestão Trump à Argentina, para além de qualquer alinhamento ideológico, tem um objetivo bastante pragmático.

Trata-se de manter, sob sua influência, um parceiro preferencial numa região que vinha tendo predomínio da esquerda: Gustavo Petro (Colômbia), Gabriel Boric (Chile), Lula (Brasil).

Kast tomou o lugar de Boric, Petro tem imensa dificuldade de fazer um sucessor, Nicolás Maduro foi capturado e abriu caminho para interesses americanos na Venezuela. A direita avança no mapa político sul-americano.

Diante do tamanho do mercado brasileiro e de diversos fatores de atração para os Estados Unidos, como minerais críticos e petróleo farto, a percepção em parte expressiva do governo Milei é de que uma vitória de Flávio Bolsonaro faria a Casa Branca desviar sua parceria preferencial para Brasília, deixando a Buenos Aires um papel menor.

Por isso, segundo pessoas bem posicionadas em Buenos Aires, não se pode confundir sentimento com racionalidade. O coração de Milei bate por Flávio, a cabeça apoia Lula.