Após ataques a Maia, Congresso se divide sobre resposta a Bolsonaro
Parlamentares estão divididos entre trabalhar por uma reconciliação pública e os que creem em rompimento mais profundo

O Congresso está dividido sobre como deve reagir às críticas do presidente Jair Bolsonaro ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, feitas em entrevista à CNN na noite de quinta-feira (17).
O tom dos ataques surpreendeu até aliados do governo no Congresso. A avaliação consensual de parlamentares da Casa é a de o novo desdobramento da crise entre os poderes chega num momento em que os responsáveis pela articulação entre Congresso e Planalto, como o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, tentavam melhorar o diálogo e trazer para perto do governo partidos de centro.
Dentro dessas siglas, os parlamentares estão divididos entre trabalhar por uma reconciliação pública entre Maia e Bolsonaro, e os que avaliam que o episódio pode simbolizar um rompimento mais profundo, que deve se refletir em derrotas para o governo na Câmara.
Essa ala argumenta que, horas após a entrevista de Bolsonaro à CNN, Maia decidiu incluir como primeiro item da pauta da próxima sessão, dia 22, a urgência de um projeto que o governo não pretende que seja aprovado: o do líder do PL, Wellington Roberto, que autoriza o governo tomar empréstimos compulsórios de empresas com faturamento bilionário por causa da pandemia do novo coronavírus.
Outro sintoma da divisão entre os partidos sobre a reação também vista foram duas reuniões que ocorreram nesta sexta-feira (17) em locais e grupos distintos da capital. Uma na residência oficial de Maia e outra com lideranças do PP, PL e Republicanos — siglas que, na semana passada, foram recebidas pelo presidente Bolsonaro.
Para esse grupo, uma resposta contundente ao presidente Jair Bolsonaro deve ser bem avaliada para evitar que a crise do coronavírus seja acompanhada de uma guerra institucional. Há a leitura de que Bolsonaro subiu o tom por dois motivos principalmente: as diárias entrevistas de Rodrigo Maia com críticas ao governo e para movimentar sua base eleitoral nas redes sociais, que tem Maia como alvo preferencial.
A postura mais amena do Centrão envolve um cálculo político. O grupo pretende suceder Rodrigo Maia nas eleições para a presidência da Câmara em fevereiro de 2021 e avalia que confrontar o Planalto em um momento em que o próprio presidente busca diálogo com eles não é uma boa estratégia.
Ruído com equipe econômica
Uma avaliação consensual dos partidos de centro é que tom da críticas de Bolsonaro a Maia era apaziguado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes - que sinalizou ter rompido com o presidente da Câmara na discussão do projeto de socorro aos estados e municípios.
À revelia da equipe econômica, o político do DEM conduziu a aprovação de um projeto classificado como “irresponsabilidade fiscal” por Guedes, com impacto de R$ 80 bilhões só na recomposição do ICMS e ISS para governadores e prefeitos.
Em reunião de líderes na quarta (15), o líder do governo na Câmara, Major Vitor Hugo, foi pressionado a tentar um gesto de conciliação por parte do ministro Paulo Guedes - que não só mostrou resistência como, na condução da pauta aos estados e municípios, tem procurado o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para discutir soluções.