‘Bolsonaro confunde ações de estado com sua vontade’, diz professor Carlos Melo

Carlos Melo analisa reforma ministerial feita pelo governo e guerra com governadores na maneira de enfrentar a pandemia

Produzido por Layane Serrano, da CNN, em São Paulo

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A mudança em seis ministérios do governo feita pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) reflete mais suas vontades que ações pelo Estado, avaliou o professor do Insper Carlos Melo, em entrevista à CNN nesta terça-feira (30).

“O impacto ainda teremos ao longo do tempo. Ficou claro que ele não tinha sobre a Defesa a ascendência que pretendia ter e busca tê-la agora, de forma equivocada, sem compreender que as Forças Armadas são de estado, não de governo. Ele mexeu uma peça, o ministro Azevedo mexeu outra ao sair, e os comandantes entregaram seus cargos. Para medir o impacto, teremos de ver quem serão os substitutos”, afirmou.

Conforme noticiou o analista da CNN Caio Junqueira nesta terça-feira, Bolsonaro pediu ao novo ministro da Defesa, Braga Netto, apoio explícito à narrativa sobre a pandemia. O presidente quer que o chefe das Forças Armadas manifeste que a população tem o direito constitucional de ir e vir e que determinadas situações nos estados são inaceitáveis.

Na avaliação de Melo, o posicionamento do presidente contra as medidas restritivas no combate à pandemia – como, por exemplo, a ação contra os governadores que moveu no Supremo Tribunal Federal (STF) – servem para “fazer valer sua visão de política de estado personalista”.

“A política de distanciamento social é de saúde pública. Estado de sítio é uma medida político-militar onde a ordem do estado está em profundo risco. Confundir essas duas coisas é de um equívoco enorme, atroz. O presidente criou essa confusão artificialmente para de alguma forma fazer valer sua visão de política de estado personalista”, avalia.

Presidente Jair Bolsonaro
Para professor, mudanças em ministros demonstram vontades do presidente
Foto: Mateus Bonomi/Agif – Agência De Fotografia/Estadão Conteúdo

O Ministério da Defesa informou hoje que os três comandantes das Forças Armadas serão substituídos: Edson Pujol, do Exército, Ilques Barbosa Junior, da Marinha, e Antonio Carlos Moretti Bermudez, da Aeronáutica. A decisão foi anunciada em nota após uma reunião nesta manhã com o novo ministro da pasta e o ex-ocupante do cargo, Fernando Azevedo e Silva. 

O analista da CNN Igor Gadelha apurou com generais e auxiliares do governo que as substituições ocorreram a pedido do presidente Jair Bolsonaro.

Até a noite de ontem, os comandantes avaliavam que não seria correto entregar os cargos antes de ouvir o novo ministro. 

Eles queriam avaliar como se dará o estreitamento da relação entre as Forças Armadas e o Palácio do Planalto, o que teria motivado a demissão de Fernando Azevedo. Segundo fontes ouvidas pelo analista da CNN Caio Junqueira, o presidente estava incomodado com a postura das Forças em relação ao governo.

Na análise do professor do Insper, “o presidente confunde as ações de estado com sua vontade, vem forçando a mão para que as instituições sigam seus ditames, sua vontade, e tem encontrado resistência. Caso contrário, não teria promovido essas mudanças. Há nitidamente uma tentativa de tomar para si o controle das instituições.”

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