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    Eleições 2022

    Brasil vai eleger 9ª mulher para comandar um estado; sete vices também assumiram governos

    Em Pernambuco, Marília Arraes (Solidariedade) e Raquel Lyra (PSDB) se enfrentam no segundo turno; leia depoimentos de ex-governadoras

    Pedro Duranda CNN

    O segundo turno das eleições de 2022 é rodeado de incertezas. Há, no entanto, algo que já está posto. No dia 30 de outubro o estado de Pernambuco elegerá a primeira governadora de sua história. Isso porque Raquel Lyra (PSDB) e Marília Arraes (Solidariedade) são as adversárias em disputa. A vencedora será a 16ª mulher a comandar um estado brasileiro (até agora, oito foram eleitas, e sete assumiram após renúncia do titular). Além de Pernambuco, 14 estados nunca tiveram uma governadora.

    Na contramão, dois exemplos emblemáticos. O primeiro, o estado do Rio Grande do Norte, onde três mulheres já foram eleitas para o cargo. A primeira foi Wilma de Faria, pelo PSB, que assumiu em 2003. Depois, Rosalba Ciarlini, que assumiu pelo DEM em 2011 e, por último, Fátima Bezerra, do PT, já reeleita em 1º turno para continuar comandando o estado.

    Fátima, aliás, é a segunda mulher a se reeleger governadora. Antes dela, apenas Roseana Sarney tinha conseguido o feito no estado do Maranhão. Eleita em 2022 deputada federal pelo MDB, Roseana é a mulher que mais tempo ficou na cadeira de governadora: 12 anos e 11 meses acumulados em quatro mandatos.

    Três dos quatro maiores colégios eleitorais nunca tiveram uma governadora: São Paulo, Minas Gerais e Bahia. No Centro-Oeste, o único lugar que teve uma governadora mulher foi o Distrito Federal, com Maria de Lourdes Abadia, do PSDB, no ano de 2006.

    No Nordeste, Sergipe, Alagoas e a Paraíba também nunca tiveram uma governadora. Santa Catarina, Espírito Santo, Amazonas, Rondônia e Tocantins são outros estados que jamais viram uma mulher no comando.

    Dentre as mulheres que administraram estados, oito foram eleitas para exercer o cargo, e sete eram vice-governadoras e acabaram assumindo no lugar do titular ― na maioria dos casos, por apenas nove meses em fim de mandato. Ao todo, 12 estados empossaram mulheres para comandar o governo.

    Embora Pernambuco se prepare para escolher sua primeira governadora, a partir do ano que vem o número de mulheres à frente dos estados vai cair de três para dois.

    Atualmente, além de Fátima Bezerra, no Rio Grande do Norte, os estados do Piauí e do Ceará são comandados por mulheres eleitas para vice e que assumiram depois da saída do titular.

    Regina Souza (PT), governadora do Piauí, não se candidatou nestas eleições. Izolda Cela, governadora do Ceará, depois de suceder Camilo Santana (PT), pretendia tentar a reeleição. O então partido dela, o PDT, no entanto, acabou rachando, e a maioria votou pela candidatura do ex-prefeito de Recife Roberto Cláudio, o que inclusive quebrou a aliança com o PT no estado.

    Cláudio ficou em terceiro lugar. A vitória em primeiro turno foi de Elmano de Freitas, do PT, que teve o apoio de Izolda.

    A reportagem da CNN conversou com algumas das principais personagens dessa história de luta contra a predominância dos homens na política. Leia abaixo alguns deles.

    “Mulher era pra casar e cozinhar”

    “Quando eu entrei na faculdade me consideravam prostituta.” A frase é da primeira mulher que comandou um estado brasileiro: Iolanda Fleming. Então filiada ao PMDB, ela assumiu o governo do Acre em 14 de maio de 1986, com a renúncia do então titular, Nabor Júnior.

    “Havia aquela coisa ‘mulher é pra casar e pra cozinha’, eu fui muitas vezes pra roça. Quando chegou a indicação de uma mulher para vice, houve uma reação muito grande dos convencionais. Era reunião em cima de reunião”, conta Iolanda.

    “No penúltimo dia da convenção, resolveram que eu iria concorrer, mas eu não fui com a certeza de que iria passar pelos convencionais. Passei, e durante três anos acompanhei o trabalho do titular de perto e os projetos. E fui aprendendo porque ele já havia dito que queria concorrer ao Senado e eu procurei me inteirar em administração.”

    Iolanda assumiu o cargo e passou a ser alvo de resistência velada ou assumida. Ela conta que houve ataques de cunho sexual. “Pegaram uma boneca inflável e acrescentaram algumas coisas, como se fosse eu. Fizeram um filme em lugar fechado e passaram o filme. Até a Polícia Federal foi lá. Eu nem quis saber da história direito. Ninguém sabe quem foi. Eles queriam me destruir”, diz.

    “Falavam da minha vida privada”

    Mãe de dois filhos e solteira, Dalva Figueiredo também viu sua vida privada e amorosa se tornar alvo das críticas dos adversários. Governadora do Amapá de abril a dezembro de 2002 pelo PT, a pedagoga substituiu João Capiberibe (PSB), que se licenciou para ser candidato ao Senado.

    “Sempre tive uma vida muito independente. Tive dois filhos frutos de dois relacionamentos que eu optei por criar sozinha. Uma negra e um branco, começa por aí. Então as pessoas já ficavam perguntando se eu tinha marido, quem era o ‘primeiro-damo’, essas coisas assim, se eu tinha envolvimento com os seguranças. Falavam da minha vida privada”, diz ela.

    Dalva afirma ainda ter sido alvo de uma violência institucionalizada. “Eu lembro que tinha um procurador da República aqui que parecia o ‘vice’ do meu adversário. Eu disse isso em 2002 para ele, porque todo dia ele dava uma entrevista coletiva contra mim. E aí ele fez um documento interno e eu tive acesso. Ele me chamava de uma ‘professorinha descerebrada’. Ele achava que eu, como mulher, era descerebrada e não tinha condições de governar e nem dialogar. Ele deixava isso claro”, diz ela.

    Mulheres como “escudo”

    Eleita a primeira mulher governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius (PSDB) sabia que as coisas seriam diferentes e que, por isso, precisaria ter pulso firme. “Eu sou uma pessoa que não choro. Eu não sou uma pessoa que possa ser atacada porque eu vivo chorando, me lamentando, me vitimizando. Não. Mas eu fui atacada em posições de mulher, isso eu fui”, conta.

    A ex-governadora lembra que certa vez seus oponentes políticos resolveram fazer uma manifestação por melhores salários para os professores da rede estadual. Em vez da sede do governo, o Palácio Piratini, escolheram sua casa. Na linha de frente ficaram mulheres como “escudo”, segundo ela.

    “Elas não xingavam, mas usavam palavras de ordem. Não respeitavam a minha posição de avó e de mãe, exigiam para si um comportamento privilegiado de mãe”, conta.

    “Às 7h da manhã, de surpresa, meus netos estavam saindo para o colégio e se depararam com aquilo. Foi traumático para eles. Foi a primeira vez que isso aconteceu. Eu só escrevi um bilhete que foi capa de tudo que é jornal do país, dizendo ‘vocês não são professoras, vocês torturam crianças’. [Elas] Recuaram um pouquinho e eu pude deixar meus netos saírem pelo portão”, conta Yeda.

    “Eu tinha que ser melhor do que os homens para ser ouvida e para ser acreditada. […] A cobrança foi muito maior para mim e a partir dos ataques que eu sofri no cabo de guerra eles queriam que eu reagisse como um homem. E eu não reagi como um homem. Mulher não mede força, mulher tem que ter ferramentas mais de inteligência e não de força”, diz.

    “Aí eles foram minando, usando, meus competidores usaram a minha figura de mulher para me fragilizar perante a sociedade. Foi uma guerra contra uma mulher governadora, inclusive por ser mulher”, acrescenta a ex-governadora do Rio Grande do Sul.

    “Jogavam os boatos para agredir”

    Depois de comemorar as bodas de ouro com seu marido, a pediatra Rosalba Ciarlini lembra que um dos mais fortes ataques que sofreu teve como alvo exatamente o casamento com o também político Carlos Alberto Rosado.

    Rosalba comandou o Rio Grande do Norte entre 2011 e 2015, mas também foi senadora e prefeita quatro vezes de Mossoró, no interior do estado. Ela foi eleita pelo Democratas.

    “Tentaram, na época, desestabilizar o meu casamento, querendo criar uma figura diferente de que eu era uma mulher submissa e que o marido inclusive me maltratava. Isso nunca existiu na vida. Nunca, nunca, nunca, nunca! Mas jogavam os boatos, sabe? Era uma forma de agredir”, conta ela.

    O caso se assemelha a ataques sofridos por outras mulheres na política, não só pelos contornos das mentiras, mas também pela forma como elas surgem: sem nenhuma evidência, no meio da internet e de um jeito que é quase impossível rastrear onde começou.

    “Do nada, de repente, saiu essa conversa. Postaram em rede social que tinha que ‘chamar’ a Lei Maria da Penha. Não tinha nada disso. Eu sou muito bem casada e muito bem cuidada por ele há 50 anos, graças a Deus. Era uma fake news. Eu fui vítima de fake news”, conta.

    Rosalba precisou se mostrar capaz e competente, porque não partiu dela a iniciativa de entrar para a política, virando prefeita.

    “Fizeram uma pesquisa para lançar candidato a prefeito. Nem partido eu tinha. De repente apareceu meu nome sem nenhuma rejeição e, espontaneamente, bem colocado”, diz.

    “Eu dizia muito que a mulher, para se impor, tinha que gritar, porque os homens sempre queriam falar mais grosso, falar mais alto.”

    Para Rosalba, “foi uma sabotagem”. “Eu era, naturalmente, candidata à reeleição, porque era do DEM, mas o partido fez um acordo com o PMDB. Henrique Eduardo Alves era presidente da Câmara e ia apoiá-lo. Veio me propor para que eu não fosse candidata”, conta.

    “Essa trama já vinha se montando um pouco antes, os meios de comunicação que pertenciam a políticos de certa forma estavam fazendo trabalho para me desgastar e muito”, diz.

    Rosalba se refere à eleição de 2014. Como ocupante da cadeira de governadora, ela esperava ter o direito de disputar a reeleição e avalia que o fato de ser mulher pode ter pesado.

    “Fui à convenção, houve uma disputa. Saí do partido e não fui candidata. Não duvido que isso também tenha influenciado, porque alguns homens ainda pensam que a mulher é para seguir o que eles dizem. Eles não aceitam que a mulher possa ter opinião. Eu não aceitei e fui apoiar exatamente o adversário de Henrique, que ganhou na minha cidade”, conta.

    Procurado pela CNN, Henrique Eduardo Alves, então no MDB, afirmou que, quando foi candidato a governador do Rio Grande do Norte, em 2014, construiu uma coligação com 14 partidos. “Cada um discutia internamente, no seu tempo, e decidia. O senador José Agripino conduziu o debate com o DEM, brigou com a governadora Rosalba e seu partido veio se somar conosco, e vencemos no primeiro turno, faltando 3,5% para ganhar”, disse.

    Ele diz ter “muito respeito sempre pela ex-governadora Rosalba Ciarlini, até hoje liderança respeitada na cidade de Mossoró”.

    “Antes dela, a ex-governadora Wilma de Faria também honrou nosso estado como mulher guerreira. Discurso de ser a favor ou contra mulher no Rio Grande do Norte não existiu e não existe. [Temos a] Tradição aqui da primeira mulher eleitora do Brasil, Celina Guimarães Viana, e a ex-governadora Wilma, a primeira mulher eleita governadora do estado. Agora, foi reeleita governadora a ex-senadora Fátima Bezerra. Vivam as mulheres, sempre”, afirmou o ex-deputado.

    Boicote às mulheres

    Iolanda argumenta que existe um boicote no comando das legendas. “Os caciques de partido fazem tudo para que elas não cheguem lá, porque a mulher pensa mais. […] Mulher é muito ativa e criativa. Eu torço muito para que um dia a gente alcance isso, porque a primeira presidente que nós tivemos aconteceu o que aconteceu”, diz ela se referindo ao impeachment da ex-presidente Dilma Roussef (PT), em 2016.

    Yeda lembra de conversas que teve com a ex-primeira-dama Ruth Cardoso, que era casada com Fernando Henrique Cardoso (PSDB). “A Ruth Cardoso me dizia: ‘Yeda, eu não conheço nada tão machista quanto sindicato e partido político. Pega a fotografia que você vai ver’. Na direção você tem uma mulher aqui e outra ali. Porque é poder. E o poder tá muito vinculado a dinheiro e não à educação”, diz.

    Quando assumiu, Yeda escolheu um homem como porta-voz de seu governo ― o jornalista Paulo Fona ― porque reconhecia que poderia sofrer resistências à fala dela em anúncios oficiais e comunicados importantes do governo.

    Dalva também se sentiu deixada de lado em alguns momentos de sua trajetória. Uma dessas passagens foi a decisão do antecessor, João Capiberibe (PSB), que deixou o governo para competir ao Senado sobre quem ele apoiaria na eleição.

    “Nós conversamos uma vez, e ele me disse que tinha dois ou três nomes, mas o meu nome não estava entre os três. E eu naquela época era muito inexperiente mesmo, porque hoje essa que fala com você seria mais incisiva”, diz. Procurado pela CNN, Capiberibe afirmou que não irá comentar o caso.

    A ex-governadora do Amapá viu a quantidade de votos despencar em 2022. Ela foi candidata à deputada federal nesta eleição e reconhece que a campanha teve erros de estratégia e mobilização. Foram 2.414 votos.

    “Eu tive um fundo de R$ 500 mil, a maioria dos que foram eleitos tiveram R$ 3 milhões, R$ 4 milhões. Na minha federação, a companheira que teve mais votos do que eu acho que teve R$ 2,3 milhões. Então, esse fundo eleitoral que faz essa divisão para quem tem mandato e para quem não tem mandato faz muita diferença”, diz.