Haddad defende reposição do salário mínimo estadual pela inflação e diz ser contra privatização da Sabesp

Tarcísio não comparece a debate e candidato do PT é entrevistado pela CNN e pool de veículos

Carolina Cerqueira, Danilo Moliterno, Marcello Sapio e Tiago Tortella, da CNN, em São Paulo
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O candidato do PT ao governo de São Paulo, Fernando Haddad, defendeu nesta sexta-feira (14), durante entrevista à CNN em parceria com o pool de veículos formado pelo SBT, Estadão/Eldorado, rádio Nova Brasil FM, Terra e Veja, o aumento do salário mínimo no estado para R$ 1.580.

Segundo ele, a medida não é “nenhum favor” mas a “reposição da inflação”. “O salário mínimo paulista sempre foi 20% acima do nacional e por uma razão. O custo de vida em São Paulo é mais caro. Isso vai ajudar a economia. Enquanto o mundo, durante a pandemia, cresceu 2% ao ano, o governo Bolsonaro cresceu 1%”, disse.

O petista também afirmou ser contrário à privatização da Sabesp, que tem sido citada por Tarcísio de Freitas. Segundo ele, a venda da empresa só “interessa à Faria Lima”.

"O meu adversário comete um grande erro de dizer que vai privatizar a Sabesp. Privatizar a Sabesp só interessa à Faria Lima e o que vai acontecer, daqui a 10 anos [se privatizar] vai mais do que dobrar a conta de água, que é um bem essencial. Nós não vamos privatizar a Sabesp, muito pelo contrário, vamos dinamizá-la para que ela também atue na despoluição dos rios", declarou Haddad.

O formato do encontro seria de debate, mas o candidato Tarcísio de Freitas (Republicanos) informou que não participaria. Como previsto nas regras, o debate, que duraria duas horas, foi substituído por uma entrevista de uma hora.

O segundo turno das eleições está marcado para 30 de outubro. Confira abaixo os destaques da entrevista.

Terras e lei

Haddad abriu a entrevista lamentando a ausência de seu adversário no segundo turno. “Acho que teríamos uma oportunidade de ouro de debatermos e conversarmos como na [TV] Bandeirantes. Ele teria a oportunidade de defender seus projetos, e eu, os meus. E o confronto de ideias daria ao cidadão a oportunidade de verificar o que é melhor para a sua família”, disse.

Ao responder a primeira pergunta, de Carlos Nascimento, que o questionou sobre como lidaria com invasões de terra, caso eleito, o petista defendeu o “cumprimento da lei para os dois lados”. Ele afirmou que o estado não deve contar com terras improdutivas e que aquelas que cumprem função social devem ser preservadas.

“Se a terra não cumpre função social não precisa de invasão, basta fazer chegar ao conhecimento do governador vai desapropriar para fins de reforma agrária.”

Pedágios

Haddad foi questionado pelo âncora da CNN Marcio Gomes sobre os valores dos pedágios e disse que as licitações das rodovias no estado de São Paulo foram renovadas sem uma “relicitação” por parte da atual gestão.

“O que acontece no mundo inteiro no final do contrato? Você relicita o contrato, você coloca aquele pedágio em concorrência e essa concorrência faz baixar o pedágio, e isso faz o preço baixar. Essa é a prática internacional. Mas o atual governo não fez isso. Ele prorrogou os contratos mantendo o mesmo valor e isso não é uma prática transparente e enseja suspeita”, afirmou.

O candidato também criticou uma licitação na Dutra feita por Tarcísio de Freitas como ministro da Infraestrutura do governo Bolsonaro.

“Meu adversário fez uma coisa errada também. Como ele é do Rio de Janeiro, ele fez uma licitação na Dutra em que o pedágio só caiu no trecho do Rio de Janeiro e no trecho de São Paulo, não”, afirmou.

Extrema pobreza

A jornalista Beatriz Bulla, do jornal O Estado de S. Paulo, questionou o candidato sobre suas propostas para o combate à extrema pobreza. Em resposta, Haddad disse que pretende trabalhar em conjunto com os governos municipais e que o programa Renda Básica de Cidadania deve ser implantado em caráter “emergencial”.

“Eu acho que esse é um drama que está afetando não só a região metropolitana de São Paulo, mas também cidades do interior. Eu visitei, de um ano para cá, 150 cidades do interior, grandes, pequenas e médias. Pude ver, conversando com os prefeitos dessas cidades, que o drama da população em situação de rua, para dar um exemplo, é um drama que se espalhou por todo o estado”, colocou.

Haddad prometeu aumentar o salário mínimo no estado para R$ 1.580. “Isso não é nenhum favor, é a reposição da inflação”, disse.

Outra promessa foi zerar o ICMS da carne e de outros produtos da cesta básica. “Com isso, vamos ampliar o poder de compra das famílias que hoje não chegam ao final do mês ― e mês após mês estão se endividando cada vez mais”, acrescentou.

Investimentos e relação com o governo federal

A jornalista Tatiana Farah, do portal Terra, questionou Haddad sobre como ele se relacionaria com o governo federal no caso de Jair Bolsonaro (PL) ser reeleito presidente.

O petista afirmou que, quando era prefeito da cidade de São Paulo (2013-2016), teve independência para defender os interesses do município durante o governo da então presidente Dilma Rousseff (PT). Ele ainda defendeu os investimentos feitos por sua gestão na capital.

“É óbvio que prefiro que o presidente Lula seja eleito e vou trabalhar muito para que isso aconteça. Mas eu vou defender os interesses de São Paulo, em primeiro lugar, porque serei eleito para defender os interesses do estado de São Paulo”, completou.


Salário mínimo paulista

A jornalista do SBT Simone Queiroz perguntou sobre quais seriam os planos para uma nova valorização do salário mínimo paulista. Para o candidato, o aumento do salário mínimo “não é nenhum favor” e criticou o governo Bolsonaro pelo baixo crescimento do país.

“Nós não podemos pensar em prejudicar ainda mais a população de baixa renda. Não é nenhum favor, nós estamos repondo os efeitos da inflação, que corroeram o salário mínimo paulista. O salário mínimo paulista sempre foi 20% acima do nacional e por uma razão. O custo de vida em São Paulo é mais caro. Isso vai ajudar a economia. Enquanto o mundo, durante a pandemia, cresceu 2% ao ano, o governo Bolsonaro cresceu 1%”, disse.

Ele ainda afirmou que o aumento do salário é “um ingrediente da retomada do crescimento econômico”. “Se as famílias mais pobres não ingressarem no mercado do consumo de massa, nós não vamos ter por que o empresário e o comerciante contratarem para produzir mais”, concluiu.


Impostos

Questionado pela jornalista Clarissa Oliveira, da revista Veja, se pretende aumentar ou criar tributos, Haddad disse que é preciso “cobrar mais de quem ganha mais e cobrar menos de quem ganha menos”.

O candidato disse que o sistema tributário brasileiro “é um dos mais regressivos do mundo” e defendeu que os impostos incidam mais sobre o patrimônio do que sobre o consumo e que haja cobrança progressiva para o Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU), por exemplo.

“Se eu tenho um imóvel até R$ 300 mil reais, eu não pago [IPTU], mas se eu tenho uma mansão nos Jardins de R$ 15 milhões, eu pago uma alíquota maior. Se eu consumo produtos de cesta básica, não faz sentido eu pagar ICMS”, disse.


Corrupção

Na última pergunta do primeiro bloco, a jornalista Michelle Trombelli, da Nova Brasil FM, questionou Haddad sobre ações de combate a desvios de dinheiro público que adotaria caso eleito.

O ex-prefeito de São Paulo afirmou inicialmente que os governos do PT à frente do país foram aqueles que mais fortaleceram os órgãos de combate à corrupção. Ele citou a Polícia Federal, a Controladoria-Geral da União e o Ministério Público como exemplos.

Na sequência, propôs a criação de uma Controladoria-Geral do Estado, que atuaria nos moldes da Controladoria-Geral da União dos governos Lula e da Controladoria-Geral do Município de sua gestão à frente da capital paulista.


Monotrilho e despoluição de rios

Na abertura do segundo bloco, o mediador Carlos Nascimento perguntou a Haddad sobre o monotrilho e a despoluição dos rios Tietê e Pinheiros. Ele respondeu que pretende reativar obras paradas na área de infraestrutura, inclusive para “gerar emprego rapidamente”.

“Eu diria que, na Infraestrutura, ela [retomada de obras] é fundamental. A gente precisa de recursos federais, sim, para tocar as obras contratadas e inclusive fazer novas. Tenho me comprometido com o trem intercidades, ligando Campinas a São Paulo, os projetos de São José dos Campos, Sorocaba e a Baixada Santista. E deixar pronto até o final do mandato tudo com o Bilhete único Metropolitano, que é algo que pode ser feito imediatamente”, disse.

Sobre os rios, Haddad disse que pretende continuar com a despoluição, mas cobrou mais eficiência das empresas contratadas.

“Já investimos mais de R$ 4 bilhões, e os resultados são muito pequenos perto do volume de recursos já investidos. Vamos sentar com as empresas, e a Sabesp é fundamental nisso”, concluiu.


Falta de policiais

A jornalista Michele Trombelli, da rádio Nova Brasil FM, perguntou ao candidato como ele faria para corrigir o déficit de policiais em São Paulo. Segundo ele, a solução seria ter uma Polícia Civil equivalente à Polícia Federal.

“Nós dependemos da investigação para desbaratar as quadrilhas. Enquanto a gente ficar só prendendo em flagrante e não der consequência e uma investigação que vai chegar na organização criminosa, que alicia e recepta os bens roubados, nós não vamos transmitir sensação de segurança”, colocou.

Haddad apresentou sua proposta para um policiamento ostensivo envolvendo três ciclos de segurança e ainda defendeu que policiais tenham um salário base “que atraia o jovem para a profissão”.

“O primeiro ciclo envolve as bases de segurança. O segundo ciclo é o patrulhamento a pé e de bicicleta e o terceiro ciclo é o patrulhamento motorizado. Isso é feito em várias cidades do mundo com grandes e bons resultados”, pontuou.


Educação e sistema tributário

A jornalista Clarissa Oliveira, da Veja, pediu mais detalhes a Haddad sobre suas propostas para o sistema tributário. Além disso, perguntou como ele transmitirá ao eleitor a “confiança” de que cumprirá propostas na área de educação. Ela mencionou obras de Centros Educacionais Unificados (CEUs) não concluídas em sua gestão na Prefeitura de São Paulo.

Haddad afirmou que o sistema tributário do estado “precisa ser corrigido” e defendeu a taxação de grandes fortunas.

Em seguida, defendeu seu legado à frente do Ministério da Educação (MEC) e da cidade de São Paulo. “Lamento o atraso no início das obras dos CEUs, mas quero reafirmar: quando eu terminei o mandato, havia fluxo de caixa para terminar as obras, e todas estão terminadas”, disse.


Transição de governo

Questionado pela jornalista do SBT Simone Queiroz sobre como reocupar cargos no governo paulista, visto que há diversos partidos aliados e que o PSDB governou o estado nos últimos 28 anos, Haddad afirmou que o papel do chefe do Executivo é “preservar os bons técnicos para que não haja descontinuidade”.

“Você tem novas prioridades, mas esses técnicos podem acompanhar o chefe do Executivo nessas novas prioridades. Obviamente que, se a pessoa tem discordâncias com o plano de governo e as diretrizes, ela própria vai pedir para sair, e é muito natural que isso aconteça”, disse o candidato

O petista também pontuou que a primeira “providência que vai tomar” é “pedir para o centrão sair do governo”. “O centrão não está no governo por razões técnicas, é por outras razões. Não vou tolerar o toma lá dá cá”, alertou.

Haddad criticou Tarcísio, dizendo que fica “atônito” quando o adversário diz que a “turma do centrão virá para São Paulo, inclusive com o orçamento secreto”.


Déficit habitacional

A jornalista do portal Terra Joice Berth perguntou sobre a questão do déficit habitacional no estado de São Paulo. Haddad citou o programa Minha Casa, Minha Vida, criado no governo Lula para famílias de renda, como um fator para combater a questão.

"Acabaram com o Minha Casa, Minha Vida, e isso é um drama para as famílias paulistas e brasileiras. É um programa que garante não só a moradia, mas o acesso à moradia para quem não consegue comprar, justamente a faixa de 1 a 3 salários mínimos, que não tem renda para adquirir um imóvel”, disse.

Ele também afirmou que, se eleito, poderá retomar a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), além de duplicar o investimento do estado para a construção de moradias.

“Eu vou aguardar a retomada do programa pelo governo Lula. Dependendo do investimento federal, eu vou manter o investimento de 1% do ICMS ou aumentar para 2%, vou dobrar o investimento para moradia”, concluiu.


Continuidade ou mudança

Questionado pela jornalista Beatriz Bulla, do Estadão, se vai se mostrar como um governo de continuidade ou de mudança, Haddad respondeu que é preciso “fazer uma análise criteriosa dos programas”. “Aquilo que está dando certo você vai preservar e aquilo que você tem uma contribuição a fazer você vai fazer”, disse.

Haddad ainda prometeu rever impostos e o Passe Livre do Idoso. “Tem muita coisa errada. O aumento de impostos durante a pandemia eu já disse que vou rever. O passe livre do idoso eu vou rever”, acrescentou.

O candidato ainda citou políticas voltadas para a educação implementadas durante seu período como ministro da Educação. “A minha gestão no MEC foi de mudança, nunca se investiu tanto em universidade pública, nunca se ofereceu tantas bolsas de estudo”, colocou.


Segurança

O âncora da CNN Márcio Gomes questionou Haddad sobre quanto tempo sua gestão levaria para expandir as forças de segurança pública do estado. Além disso, pediu detalhes sobre como o petista pensa seu plano de metas.

Haddad defendeu a valorização da carreira dos profissionais da segurança pública como caminho para avanço do setor e afirmou que o estabelecimento de metas é essencial para que as políticas públicas sejam colocadas em prática.

“Nós temos que ter um compromisso com metas. E vamos estabelecer em comum acordo, porque não adianta fixar metas inatingíveis. Você tem que contar com os melhores profissionais para adequar as metas à realidade e pactuar o investimento do governo”, explicou.


Considerações finais

Haddad agradeceu ao pool de veículos de imprensa e lamentou, mais uma vez, a ausência de Tarcísio de Freitas. “Ao invés de estar junto comigo explicando para a sociedade o que queremos para o estado de São Paulo, num horário que ele deve estar em casa, ele poderia estar aqui comigo dando a melhor das oportunidades que a democracia permite”, afirmou.

Ele encerrou a entrevista abordando a economia. “Sei exatamente o que está passando com as pessoas do estado. As pessoas estão com um orçamento que não chega no final do mês. Estão subempregadas, com empregos precários. Estão preocupados com a educação dos seus filhos, evasão dos jovens da faculdade e ensino médio, estão preocupados com a fila do SUS. E onde está o Tarcísio de Freitas?”, questionou.


Debate

A CNN transmitirá o primeiro debate presidencial do segundo turno de 2022. O confronto entre os candidatos será realizado ao vivo em 16 de outubro, pela TV e por nossas plataformas digitais. O debate será promovido pelo pool que inclui também o Grupo Bandeirantes, UOL, Folha e TV Cultura.