Decisão: Grupos ligados a Vorcaro teriam apoio de milicianos e bicheiros

Autos revelam quadro indiciário robusto "no sentido de que a organização criminosa investigada se valeu de dois braços operacionais especializados para satisfazer os interesses do núcleo central"

Gabriela Piva, Jussara Soares e Matheus Teixeira, Teo Cury, da CNN Brasil, São Paulo e Brasília
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A sexta fase da operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (14), avançou sobre integrantes da Polícia Federal que teriam atuado para beneficiar o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A investigação apontou que membros dos núcleos centrais contavam com a participação de agentes federais e operadores do jogo do bicho — de apostas online — para benefício próprio.

Segundo a decisão do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), os autos revelam que "dois braços operacionais", que seriam os núcleos "A Turma" e "Os Meninos", trabalhavam para satisfazer os interesses dos núcleos centrais.

O grupo "A Turma" era voltado para a prática de ameaças, intimidações presenciais, coerções, levantamentos clandestinos, obtenção de dados sigilosos e acessos indevidos a sistemas governamentais. Policiais federais em atividade e aposentados, além de operadores do jogo do bicho, estavam envolvidos nas atividades.

Já o núcleo "Os Meninos" ficava responsável pela atuação on-line, como: ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis e monitoramento telefônico e telemático ilegal. Agentes com perfil hacker seriam pagos para realizar essas atividades.

"Ambos eram gerenciados por FELIPE MOURÃO e predispostos a atender comandos emanados de DANIEL VORCARO e, segundo os novos elementos, também de HENRIQUE MOURA VORCARO", diz trecho do documento assinado por Mendonça.

As investigações apontam que Manoel Mendes Rodrigues seria o "operador do jogo do bicho" e integrante do núcleo "A Turma". A mando de Vorcaro, ele teria o papel " de liderança de um braço local da organização no Estado do Rio de Janeiro, composto por outras pessoas ainda não identificadas, aptas a acompanhá-lo na prática de ameaças presenciais".

"A representação menciona, em reconstrução cronológica, a participação desse braço em ações intimidatórias em Angra dos Reis/RJ, além de situar MANOEL nas tratativas internas envolvendo MARILSON, FELIPE MOURÃO,HENRIQUE VORCARO e SEBASTIÃO MONTEIRO", relata trecho da decisão.

Já no grupo "Os Meninos", Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos teria desempenhado "papel de colaborador técnico e logístico", segundo as investigações. A participação dele teria ocorrido por meio de:

  • Integração formalmente identificada ao braço hacker da organização;
  • Prestação de serviços em favor de David Henrique Alves;
  • Execução de tarefas concretas, como pagamentos de boletos e aquisição de domínios na internet;
  • Atuação conjunta com Victor Lima no "deslocamento até a residência de David, em contexto de desmobilização do imóvel após a deflagração da operação";
  • Inserção em cadeia hierárquica para realizar "monitoramento telemático ilegal e à proteção digital dos interesses do núcleo central".

Na decisão, o ministro também diz que "foram reunidos indícios de apoio patrimonial, contábil e logístico por meio de interpostas pessoas, além do repasse de informações sigilosas a partir de consultas indevidas ao sistema e-Pol".

Entenda o caso

sexta fase da operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (14), avançou sobre integrantes da Polícia Federal que teriam atuado para beneficiar o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O ministro André Mendonça determinou o afastamento de uma delegada da PF, que foi alvo de busca e apreensão, e a prisão de um agente da ativa da corporação suspeitos de vazar informações ao grupo de Vorcaro.

Outros dois agentes aposentados da PF foram alvos de busca e apreensão nesta quinta-feira.

As investigações revelaram no início do ano que o grupo contratado pelo banqueiro para influenciar as apurações, realizar atividades de vigilância, coleta de informações e monitoramento de adversários acessava dados do MPF, da Polícia Federal e até de organismos internacionais, como o FBI e a Interpol. 

Vorcaro teve acesso antecipado a diligências da investigação, de acordo com registros localizados pela própria PF. O empresário teria inclusive feito anotações sobre autoridades e procedimentos policiais em curso.

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário, apontado como o coordenador operacional do grupo denominado "A Turma", realizava consultas e extrações de dados em sistemas restritos, incluindo bases utilizadas por instituições de segurança pública e investigação policial.

O acesso, segundo a investigação, era feito por Mourão por meio da utilização de credenciais funcionais de outras pessoas, o que permitia obter informações protegidas por sigilo institucional.