CPI convoca advogada de Bolsonaro e mostra imagens de pagamentos a Roberto Dias

Imagens de pagamentos da VTCLog a Roberto Dias, acusado de pedir propina por vacinas, estimularam reconvocação do motoboy ausente no depoimento de hoje

Beatriz GurgelGiovanna Galvanida CNN*

em Brasília e São Paulo

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A sessão da CPI da Pandemia desta terça-feira (31) ocorreu sem depoente presente, mas focou em aprovar requerimentos que visam apurar o papel da empresa VTCLog junto ao Ministério da Saúde, além de esclarecer como aconteceram reuniões entre supostos “lobistas” que atuaram em favor da Precisa Medicamentos na casa da advogada Karina Kufa.

Foram aprovadas a convocação de Kufa, que defende membros da família Bolsonaro, a reconvocação do motoboy Ivanildo Gonçalves, e quebras de sigilo da empresa VTCLog.

Houve uma tentativa frustrada de mudanças de última hora envolvendo os depoentes. Isso porque porque o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou na noite de segunda-feira (30) que o motoboy da empresa, Ivanildo Gonçalves, não fosse obrigado a depor.

O motoboy Ivanildo teria sacado cerca de R$ 5,8 milhões em espécie a pedido da empresa. Os senadores queriam questioná-lo sobre o destino do dinheiro.

A reconvocação teve novos ares após os senadores exibirem imagens nas quais o motoboy aparece fazendo pagamentos de boletos em favor de Roberto Dias, ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde.

O senador indicou ainda que a captura da imagem de Ivanildo na agência bancária, o pagamento e o extrato de Roberto Dias batem perfeitamente. Os boletos mostrados somam R$ 25.550.

Roberto Dias é o ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde que chegou a ser preso por mentir em seu depoimento à comissão. Ele é acusado de pedir propina na negociação de doses da vacina AstraZeneca.

“Se isso não for prova suficiente para que vossa excelência [Nunes Marques] reconsidere a decisão [de permitir que Ivanildo não fosse à CPI], nada mais será”.

Tentativa de nova depoente foi frustrada

Ainda na madrugada, a CPI recorreu da decisão e pediu para que a não-obrigatoriedade do comparecimento fosse revista pelo Supremo.

No lugar do motoboy, a CPI tentou chamar Andreia Lopes, CEO da VTCLog, que alegou outros compromissos na justificativa de sua ausência.

Em nota enviada à CNN, a empresa afirma que a CEO “está à disposição para contribuir com os trabalhos da CPI, mas devido à agenda prévia de viagem relacionada a logística de distribuição das vacinas, não poderá comparecer à Comissão”.

A VTCLog é responsável por fazer transporte de insumos como medicamentos e vacinas, incluindo as contra a Covid-19, para o Ministério da Saúde. Durante a pandemia de coronavírus, já transportou mais de 150 milhões de doses de vacina e entrou na mira da CPI por suspeita de irregularidades em um aditivo de R$ 18 milhões em um contrato atual com a pasta.

Em suas justificativas diante dos pedidos da comissão, a VTCLog rechaça as acusações de irregularidades ou de “tráfico de influência” envolvendo dois nomes já ouvidos na CPI: o do deputado Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara, e o do ex-diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias.

Os senadores Omar Aziz (PSD-AM), Renan Calheiros (MDB-AL) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), membros da cúpula da CPI da Pandemia / Jefferson Rudy/Agência Senado

Convocação de Kufa não tem relação com Bolsonaro, diz Randolfe

Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI e autor do requerimento que convocou Karina Kufa, destacou que a convocação não se dava pelo trabalho dela junto a Jair Bolsonaro (sem partido) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), dois membros da família com quem ela já atuou.

“Não estamos convocando Karina Kufa por ser advogada do presidente, e sim pelos diálogos que ela teve com vários lobistas que estão sendo investigados nessa CPI”, declarou.

“O depoimento da advogada Karina Kufa é de extrema importância para os trabalhos desta CPI, uma vez que pode esclarecer sua participação e de outros personagens do seu círculo de amizades nas negociações envolvendo contratos com o Ministério da Saúde”, acrescentou o senador no pedido.

Acompanhe os destaques da CPI

  • CPI aprova convocação de Karina Kufa, reconvocação de motoboy e quebra de sigilo da VTCLog

Os senadores aprovaram três requerimentos na sessão desta terça (31): a convocação da advogada Karina Kufa, que defende membros da família Bolsonaro; a reconvocação do motoboy Ivanildo Gonçalves; e quebras de sigilo da empresa VTCLog.

No caso de Kufa, o requerimento considera serem necessárias explicações sobre “um jantar em sua residência onde Marconny Faria foi apresentado a [José] Ricardo Santana, depoente que se revelou como uma espécie de consultor informal do Ministério da Saúde”.

“O depoimento da advogada Karina Kufa é de extrema importância para os trabalhos desta CPI, uma vez que pode esclarecer sua participação e de outros personagens do seu círculo de amizades nas negociações envolvendo contratos com o Ministério da Saúde”, acrescentou o senador Randolfe Rodrigues, autor do texto.

  • CPI exibe suposta prova de que motoboy pagou boleto de Roberto Dias

Imagem exibida na CPI da Pandemia com o motoboy Ivanildo entrando em agência bancária / Reprodução/TV Senado

O senador Randolfe Rodrigues exibiu imagens que provariam que o motoboy Ivanildo Gonçalves pagou boletos direcionados a Roberto Dias.

Os boletos tinham como emissor o Voetur, grupo empresarial da qual a VTCLog faz parte. Segundo Randolfe, foram três boletos: um no dia 31/05/2021, no valor de R$ 6 mil; o segundo era do dia 22/06/2021, no valor de R$ 6 mil; o último, pago no dia 24/06/2021, de R$ 13.550.

Haveria indícios de mais pagamentos direcionados ao ex-diretor do Departamento de Logística.

O senador indicou ainda que a captura da imagem de Ivanildo na agência bancária, o pagamento e o extrato de Roberto Dias batem perfeitamente. “Se isso não for prova suficiente para que vossa excelência [Nunes Marques] reconsidere a decisão [de permitir que Ivanildo não fosse à CPI], nada mais será”.

Renan Calheiros, por sua vez, destacou que as imagens não incriminavam o motoboy. “Ele não cometeu nenhum crime, porque pagou cumprindo ordens de alguém”, disse.

  • Calheiros diz ter imagens de motoboy pagando boletos de Roberto Dias

O senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Pandemia / Pedro França/Agência Senado

Ao discutir a necessidade da presença do motoboy Ivanildo Gonçalves, o relator Renan Calheiros afirmou, ao rebater um senador, que a CPI tinha acabado de receber “imagens dele fazendo pagamento dos boletos de Roberto Dias”.

As imagens não foram mostradas neste momento. Omar Aziz afirmou que a comissão deve pedir imagens aos bancos nos quais teriam ocorrido os saques.

Roberto Dias é o ex-diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde que chegou a ser preso por mentir em seu depoimento à comissão. Ele é acusado de pedir propina na negociação de doses da vacina AstraZeneca.

Anteriormente, o vice-presidente da comissão, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), afirmou desejar convocar também outros funcionários da VTCLog.

São eles Raimundo Nonato Brasil, operador financeiro da empresa; Roberto e Teresa Sá, sócios majoritários da empresa; e Flávio Loureiro de Souza, que teria ‘muita influencia’ no fechamento de contratos em relação a VTCLog.

  • Aziz: iremos a fundo com a VTCLog até o fim da CPI

Na abertura da sessão, o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), afirmou que, apesar da ausência dos depoentes de hoje, a comissão irá investigar “até o fim” as suspeitas envolvendo a VTCLog sob os devidos parâmetros estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal.

“Respeitamos [a decisão], mas temos o direito de recorrer. Ontem entramos com um agravo pedindo ao ministro. Caso ele não julgue, que leve à Turma o agravo. A CPI não vai tomar nenhuma atitude, diferente de Bolsonaro, que entra com impeachment contra ministros. Aqui, nós respeitamos as decisões”, declarou Aziz.

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), criticou a decisão do ministro Nunes Marques e afirmou que ela vai na contramão da jurisprudência existente no Supremo. “A decisão acaba colaborando, de uma forma ou de outra, para que a impunidade se mantenha”.

*Com informações de Neila Guimarães, da CNN

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