CPI da Pandemia ouve o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, nesta quinta

De acordo com o presidente da CPI, depoimento do médico ajudará a esclarecer o episódio da compra da Coronavac por parte do Ministério da Saúde

Renato Barcellos, da CNN, em São Paulo

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A CPI da Pandemia ouve nesta quinta-feira (27) o diretor do Instituto Butantan, o médico hematologista Dimas Covas, às 9h. O requerimento de convocação foi assinado pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE).

De acordo com presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD-AM), o depoimento de Dimas Covas ajudará a esclarecer o episódio da compra da Coronavac por parte do Ministério da Saúde. A reconstituição, do ponto de vista do diretor do Instituto Butantan, das negociações entre a entidade e o governo federal por vacinas contra a Covid-19.

A expectativa é que Dimas Covas reforce a tese de que o Butantan, órgão ligado ao governo de São Paulo, buscou viabilizar antecipadamente as vacinas ao Brasil, mas que essa negociação não teria encontrado respaldo no governo federal até o final de 2020. 

Um dos episódios a serem discutidos é o que trata dos dias 20 e 21 de outubro de 2020. No dia 20, em conversa com governadores, o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou que a União fecharia o contrato pela Coronavac. No dia seguinte, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) desautorizou o ministro, dizendo que o país não compraria a “vacina chinesa de João Doria”.

Uma das linhas dos discursos da oposição na CPI é o de que o governo federal teria sido omisso em comprar vacinas contra a Covid-19. Além da Coronavac, a negociação pela vacina da Pfizer também está no foco dessa investigação.

Documentos do Butantan

Na última semana, o Instituto Butantan entregou à CPI documentos sobre três ofertas de fornecimento de doses da Coronavac supostamente ignoradas pelo Ministério da Saúde. Na quinta-feira (20), o Butantan enviou à Comissão Parlamentar de Inquérito 18 ofícios das negociações do Butantan com o governo federal para a compra do imunizante. Eles devem ser apresentados por Dimas Covas durante o depoimento aos senadores.

Segundo esses documentos, a primeira proposta do Butantan ao Ministério da Saúde foi feita em 30 de julho de 2020, com a oferta de 60 milhões de doses a serem entregues até o fim do ano passado. Nesse ofício, Covas dizia que, “o desenvolvimento de uma vacina segura e eficaz contra a Covid-19” era “a estratégia mais promissora para combater a pandemia do coronavírus”. 

Naquele momento, ainda de acordo com o documento, a vacina do laboratório chinês, encontrava-se “em estágio avançado de desenvolvimento” e que a parceria entre o Instituto Butantan e a Sinovac previa o fornecimento de 60 milhões de doses prontas do imunizante ao Brasil para o uso emergencial em “grupos de risco e profissionais de saúde, a partir da aprovação do registro do produto pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)”. 

Nesse mesmo documento, o diretor do Butantan também informou ao ministério que o instituto teria capacidade de produzir 100 milhões de doses por ano a partir de 2021. 

No dia 18 de agosto de 2020, segundo informações apresentadas pelo Butantan à CPI, o instituto reiterou a oferta de 60 milhões de doses ao Ministério da Saúde, mas com novas previsões de entrega: 45 milhões de doses até dezembro de 2020 e 15 milhões no primeiro trimestre de 2021. 

Um mês e meio depois, em 7 de outubro do ano passado, Dimas Covas enviou novo ofício ao então ministro Eduardo Pazuello sobre a oferta de 100 milhões de doses da Coronavac, sendo 45 milhões entregues até dezembro de 2020, 15 milhões até fevereiro de 2021 e “40 milhões de doses adicionais poderão ser produzidas até maio de 2021 mediante manifestação imediata deste ministério”. 

O diretor do Butantan informou, ainda, sobre “uma grande demanda do mercado mundial” pela vacina do laboratório chinês. “Esta é a vacina em estágio mais avançado para a administração na população e com cronograma de entrega de grandes volumes já a partir de janeiro de 2021. Este fato, amplamente reconhecido e bastante divulgado em todo o mundo desencadeou pedidos de fornecimento da vacina por vários países e no Brasil por Estados e municípios”, escreveu.  

“O Instituto Butantan reforça sua posição de Instituição Pública de Saúde cujo único compromisso é o desenvolvimento e a fabricação de produtos imunobiológicos e vacinas para abastecer o Sistema Único de Saúde do Brasil com exclusividade. Não é diferente com a vacina para coronavírus. A vacina produzida pela parceria Butantan-Sinovac destina-se ao Ministério da Saúde do Brasil ao povo brasileiro. Esta é a vacina que pode assistir e proteger de forma mais imediata o povo brasileiro no enfrentamento da pandemia”, seguiu Dimas Covas. 

Pouco tempo depois dessa carta, em 20 de outubro, Pazuello anunciou em reunião com governadores a compra de 46 milhões de doses da Coronavac. No dia seguinte, no entanto, o então ministro foi desautorizado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que mandou cancelar o protocolo de intenção de compra do imunizante. 

Na última quarta-feira (19), no primeiro dia de depoimentos de Pauzello, o militar foi questionado diversas vezes sobre as falas de Bolsonaro contrárias à aquisição da Coronavac. O ex-ministro, porém, negou que o chefe do Executivo tenha pressionado a pasta para não garantir os imunizantes.

A fala de Pazuello foi refutada por pelos menos três senadores: Fabiano Contarato (Rede-ES), Zenaide Maia (Pros-RN) e Humberto Costa (PT-PE). Este último, inclusive, apresentou uma gravação com o presidente Bolsonaro dizendo que havia dado ordens para que não houvesse compra da Coronavac.

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