Decisão sobre Lula reacende polarização e reduz espaço de ‘frente ampla’

Representar o antipetismo foi o que ajudou a eleger o então deputado Jair Bolsonaro ao cargo mais cobiçado da República

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva Foto: Amanda Perobelli/Reuters

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Na tarde de segunda-feira (8), a pandemia que ceifou mais de 266 mil vidas desde março passado deu lugar a outro tema que todo brasileiro conhece desde outro mês de março. A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin que anulou as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva recoloca como vetor fundamental da política brasileira a polarização entre apoiadores e opositores do petismo, temporariamente deixada de lado após o pífio desempenho eleitoral do PT nas eleições municipais e afetada pelas consequências da Operação Lava Jato, iniciada em março de 2014.

Representar o antipetismo foi o que ajudou a eleger o então deputado Jair Bolsonaro ao cargo mais cobiçado da República. Um gráfico postado pelo cientista político Jairo Nicolau explica esse movimento: o hoje presidente recebeu no segundo turno de 2018 o voto de 80% dos eleitores que em 2014 preferiam Aécio Neves (PSDB) a Dilma Rousseff (PT). Mais simbólico ainda: 40% dos eleitores do PT em 2014, desencantados com o partido, optaram por Bolsonaro em detrimento de Fernando Haddad.

De lá para cá, consolidou-se um eleitorado bolsonarista, em volume inferior aos áureos tempos do lulismo, mas superior e mais coeso que quaisquer outras forças partidárias atuais isoladas – como se viu na associação ao Centrão e nas eleições para o comando das Casas Legislativas. A possibilidade de ser o nome mais competitivo nas urnas de 2022 contra o petismo, a despeito dos arroubos autoritários, da gestão errática e dos atrasos na aquisição de vacinas contra a Covid, é um fator positivo para as pretensões de Bolsonaro de seguir morando no Palácio da Alvorada.

No espectro oposto, o poder gravitacional de Lula no campo da esquerda lhe permite se colocar como peça-chave para impedir a reeleição do presidente, seja ele próprio o candidato, conforme indicam pesquisas de opinião pública, seja como cabo eleitoral sem o peso de duas condenações penais. A repercussão vista nas redes sociais e no mundo político após a divulgação da anulação das condenações – mais forte, por exemplo, que a saída do ex-ministro e ex-juiz Sergio Moro do governo Bolsonaro, 11 meses atrás – é outro indicativo da capacidade de mobilização do petista. Esse feito, nenhum pretendente a desafiar a reeleição de Bolsonaro conseguiu até agora.

Com os dois polos reativados pela retomada dos direitos políticos de Lula, fica espremido o espaço que uma idealizada “frente ampla” ou “centro democrático” tenta preencher. Em resposta a essa dupla pressão, os pretendentes a desafiar a reeleição de Bolsonaro tentaram rechaçar a polarização.

“Muito improvável que a sociedade brasileira queira repetir em 2022 a confrontação radicalizada”, disse Ciro Gomes (PDT) em entrevista à CNN. “O Brasil é muito maior do que Lula e Bolsonaro”, tuitou o tucano João Doria. Para Eduardo Leite (PSDB), “deste fosso em que estamos hoje, só sairemos com novas alternativas e, especialmente, com um olhar de responsabilidade e temperança”.

“Os extremos comemoram, pois se nutrem um do outro”, sintetizou o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM). Luciano Huck, cobiçado por partidos em busca de uma novidade para 2022, escreveu que “figurinha repetida não completa álbum”.

Nas oito eleições presidenciais do Brasil redemocratizado, dois fatos contestam a frase do apresentador e mostram que não é fácil transformar tantas vozes distintas em coro: sempre houve um candidato do PT quando se disputou segundo turno e todos os presidentes que buscaram a reeleição foram vencedores. A polarização, até agora, tem falado mais alto.

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