Entenda em 5 pontos a operação da PF que prendeu pai de Vorcaro

Ação realizada nesta quinta-feira (14) faz parte da nova fase da Compliance Zero e tem o objetivo de avançar nas apurações sobre uma suposta organização criminosa

Gabriela Piva, Jussara Soares e Matheus Teixeira, Teo Cury, da CNN Brasil, São Paulo e Brasília
Compartilhar matéria

A PF (Polícia Federal) prendeu, na manhã desta quinta-feira (14), o pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro. A operação faz parte da nova fase da Compliance Zero e foi realizada após o ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizar a ação.

Coordenada pela Dicor (Diretoria de Combate ao Crime Organizado) da Polícia Federal em Brasília, a sexta etapa da Operação Compliance Zero foi deflagrada com o objetivo de avançar nas apurações sobre uma suposta organização criminosa investigada por atos de intimidação, coerção, acesso indevido a informações sigilosas e invasões de dispositivos eletrônicos.

As investigações podem ser divididas em cinco pontos:

  • A atuação do núcleo "A Turma";
  • A atuação do grupo "Os Meninos";
  • O papel de Henrique Vorcaro;
  • As ações de policiais federais no suposto esquema;
  • O papel da delegada da Polícia Federal Valéria Vieira Pereira da Silva.

A nova fase da operação da PF também têm como alvos membros da "Turma de Vorcaro", contratados por Daniel para influenciar nas investigações do Caso Master.

Foram cumpridos sete mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão. As ações ocorreram nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, onde Henrique foi detido.

"A Turma"

A PF dividiu o esquema comandado por Vorcaro em quatro núcleos de atuação. Um deles foi apontado como "núcleo de intimidação e obstrução de justiça, responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades".

Segundo as investigações, o grupo criminoso tinha uma estrutura de vigilância e coerção privada, que foi denominada de "A Turma".

Os documentos mostram que a organização seria destinada à obtenção ilegal de informações sigilosas e à intimidação de críticos do conglomerado financeiro.

O policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva é apontado pelas investigações como "integrante relevante da estrutura paralela de monitoramento e intimidação" de Vorcaro.

Ele é citado como líder da "Turma", segundo os investigadores, e seria "um dos principais operadores desse núcleo de coerção, utilizando sua experiência e contatos decorrentes da carreira policial para auxiliar na obtenção de dados sensíveis e na realização de atividades de vigilância e monitoramento de alvos definidos pela organização criminosa".

De acordo com as investigações, Luiz Phillippi Machado de Moraes Mourão, conhecido como "Felipe Mourão" e também chamado de "Sicário", seria responsável pela "coordenação de atividades voltadas à obtenção de informações, monitoramento de pessoas e levantamento de dados considerados relevantes para os interesses do grupo".

Após ser preso em março deste ano, Mourão teve morte encefálica depois de ter atentado contra a própria vida enquanto estava sob custódia da PF.

As investigações também apontam que o membro do grupo também atuava para intimidar antigos funcionários do Master e levantar dados sobre essas pessoas.

Também são apontados como membros do grupo:

  • Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro - financiamento e operacionalização dos pagamentos à "Turma"
  •  Ana Claudia Queiroz de Paiva - financiamento e operacionalização dos pagamentos à "Turma"
  • Paulo Sérgio Neves de Souza - medidas de monitoramento;
  • Belline Santana - medidas de monitoramento;
  • Leonardo Augusto Furtado Palhares - medidas de monitoramento.

"Os Meninos"

Segundo a PF, a organização "Os Meninos" seria um novo segmento operacional de Vorcaro e teria um perfil eminentemente tecnológico: era direcionada para a prática de ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis e monitoramento telefônico e telemático ilegal.

O gerenciamento do grupo era feito por Felipe Mourão e tinha como líder David Henrique Alves, preso cautelarmente pela PF nesta quinta-feira (14).

Segundo a investigação, Sicário remunerava David com valor mensal aproximado de R$ 35 mil, com “provável ingresso de recursos por intermédio da empresa BIPE SOFTWARE BRASIL LTDA”.

Na noite de quatro de março deste ano, data da terceira fase da operação Compliance Zero, David foi identificado dirigindo o carro de Sicário, e transportando computadores, notebooks, caixas e malas, em contexto interpretado como indicativo de fuga e de possível ocultação ou destruição de provas.

Na data, Sicário e Vorcaro foram presos preventivamente pela Polícia Federal.

Para a PF, o episódio demonstra que a atuação de Davi não se restringia à condição de colaborador periférico, mas assumia "feição central e diretiva no âmbito do núcleo denominado ‘Os Meninos’".

Davi, diz a corporação, era responsável por arregimentar operadores com perfil hacker, remunerados para execução de monitoramentos ilícitos, ataques digitais, invasões e derrubada de perfis.

A investigação aponta que, a mando de Vorcaro e sob gerência de Sicário, o núcleo teria conseguido derrubar perfis de rede social de pessoas críticas à Vorcaro.

Papel de Henrique Vorcaro

A decisão da Suprema Corte aponta Henrique Vorcaro como o financiador e um dos principais demandantes de um grupo voltado para intimidação e obtenção ilegal de dados.

Segundo a investigação da Polícia Federal, Henrique Vorcaro ocupava uma posição de relevo como operador financeiro dos pagamentos destinados ao núcleo "A Turma".

Ele é acusado de custear o núcleo denominado, voltado a ameaças e obtenção de dados sigilosos.

Relatórios da investigação, baseados em mensagens interceptadas, revelam que Henrique Vorcaro discutia diretamente o repasse de recursos para a manutenção das atividades ilícitas.

Em diálogos registrados no início de 2026, há menções ao envio imediato de R$ 400 mil, valor que a autoridade policial considera compatível com a quantia mensal destinada ao custeio do grupo criminoso.

A investigação situa Henrique não apenas como pai do ex-controlador do Banco Master, mas como um agente que atuava em colaboração direta na solicitação de serviços de monitoramento e pressão contra desafetos.

Ações de policiais federais no suposto esquema

As investigações entendem que agentes federais atuaram para conseguir e enviar informações sigilosas com antecedência sobre possíveis investigações, operações e o andamento das apurações da suposta organização criminosa.

Conforme a PF, essas consultas eram feitas por meio do sistema e-Pol (Sistema de Polícia Judiciária), destinado aos inquéritos do órgão de segurança.

A atuação dos agentes da PF indicaria que a organização criminosa conseguiu se infiltrar em áreas sensíveis da corporação e acessar dados protegidos por sigilo funcional, segundo aponta a decisão.

Papel da delegada da PF

Um dos alvos da operação desta quinta-feira era Valéria Vieira Pereira da Silva, delegada da Polícia Federal. Ela é apontada como uma fonte interna de informações sigilosas para o grupo investigado, que envolve o pai de Daniel Vorcaro, Henrique Moura Vorcaro.

Segundo a decisão do ministro André Mendonça, a atuação de Valéria ia "além de mera proximidade com investigados", com ela "assumindo papel relevante no fornecimento de informações sigilosas ao grupo criminoso denominado 'A Turma'".

A investigação aponta que ela acessou, "sem justificativa funcional, o Inquérito Policial nº 2023.0064343, conduzido pela Superintendência Regional da PF em São Paulo, embora estivesse lotada, desde 2006, na Delegacia de Polícia Fazendária em Minas Gerais, sem qualquer atribuição relacionada ao procedimento".

Com a ajuda do marido, o agente aposentado da PF Francisco José Pereira da Silva, Valéria teria realizado consultas indevidas no sistema e-Pol.

O conteúdo dessas consultas era repassado a Marilson Roseno da Silva, apontado como líder operacional do núcleo “A Turma”, e posteriormente compartilhado com os demais integrantes da organização ligada a Daniel Vorcaro.

De acordo com a decisão, o objetivo seria monitorar investigações em andamento e obter informações estratégicas de interesse do grupo.

A jornalistas, a defesa de Valéria Vieira Pereira da Silva e Francisco José Pereira da Silva negou a ocorrência de acessos indevidos ao sistema da Polícia Federal.

"A defesa ainda não teve acesso à decisão na íntegra do STF. Sobre esse possível vazamento, eu já afirmo de forma categórica que não procede, porque cada servidor da PF tem uma matrícula e um acesso restrito ao sistema da PF. Então, se esse servidor, por exemplo, não tiver cadastrado em determinada operação ou investigação, ele não consegue acessar com a matrícula dele o sistema e, por exemplo, proceder com o vazamento", disse o advogado Bruno Correia.

"Então, essa notícia de que foi feito um acesso indevido a uma investigação e a divulgação de fatos desta investigação para terceiros não prospera, porque não é possível um agente público que não esteja cadastrado em uma investigação sigilosa tenha acesso a essa investigação e retire dali informações sensíveis e passe a terceiros. A delegada e o policial federal não estão cadastrados nesta operação. Então, eles não conseguem com o token deles, com a matrícula deles, obter informações deste inquérito e divulgar a terceiros", completou.