Ex-diretor do BC alertou Vorcaro sobre repercussão de "emenda Master"

Proposta apresentada pelo senador Ciro Nogueira beneficiaria ex-banqueiro e foi tema de conversa entre Paulo Sérgio Neves e Daniel Vorcaro apreendida pela PF

Gabriela Boechat
Compartilhar matéria

Mensagens apreendidas pela PF (Polícia Federal) no celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro indicam que o ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza alertou o dono do Banco Master sobre a reação negativa do mercado à chamada “emenda Master”.

Apresentada pelo senador Ciro Nogueira, a proposta previa elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), medida que favoreceria o modelo de negócios do Banco Master.

Segundo o relatório da PF, em agosto de 2024, um dia após a apresentação da emenda, Paulo Sérgio encaminhou o texto a Vorcaro e escreveu: “Mercado colocando a conta dessa MP em você”. O ex-banqueiro respondeu: “Não é mp, é uma emenda de levar fgc pra debaixo bacen. Exceção grandes bancos, muita gente achando positivo.”

Na sequência, Paulo Sérgio questiona: “Vc não acha que virá uma reação ainda maior agora?”. Ao que Vorcaro responde: “Mais do que ta vindo acho difícil. Campanha aberta contra. Folha solta semana que vem. Pra ser sincero eu nao queria isso agora. Nao fui eu quem pedi. Tinha pedido lá atrás algo do tipo. Mas a turma vendo o movimento dos grandes decidiu fazer. Eu não teria entrado nessa briga agora. Só no ano que vem”.

O diálogo faz parte dos elementos que levaram a PF a concluir que a emenda apresentada por Ciro Nogueira teria sido elaborada dentro do próprio Banco Master. De acordo com a investigação, o texto teria sido produzido pela assessoria da instituição, enviado a Vorcaro, impresso e posteriormente entregue em um envelope identificado para “Ciro” no endereço residencial do senador.

Para os investigadores, a conversa também sugere que Vorcaro já havia defendido anteriormente uma emenda semelhante de ampliação da cobertura do FGC. Nas mensagens, ele afirma ter solicitado “algo do tipo” no passado, mas diz que a iniciativa foi levada adiante naquele momento por terceiros, possivelmente aliados políticos, em razão da movimentação dos grandes bancos.

A proposta acabou não avançando no Congresso. A emenda vinha sendo chamada de “pró-Master”, uma vez que o Master teria utilizado o FGC como parte de seu modelo de negócio. A instituição supostamente oferecia investimentos com rendimentos acima da média e destacava a garantia do fundo para atrair investidores.

Como mostrou a CNN, Vorcaro celebrou a emenda no momento da apresentação. “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica mercado financeiro [sic]! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes! Está todo mundo louco”, escreveu o banqueiro a um interlocutor.

O ex-diretor do BC Paulo Sérgio foi um dos alvos da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em março deste ano. Segundo a investigação, ele atuava como uma espécie de consultor informal de Vorcaro em assuntos relacionados ao Banco Central e, em troca, teria recebido vantagens indevidas.

De acordo com a PF, o ex-diretor revisava minutas de documentos e comunicações institucionais elaboradas pelo Banco Master antes de seu envio ao próprio Banco Central, sugerindo alterações e ajustes.

Os investigadores afirmam ainda que parte dos pagamentos teria sido feita por meio de contratos simulados de prestação de serviços, firmados por intermédio de uma empresa de consultoria, com o objetivo de justificar transferências destinadas a Paulo Sérgio e a Bellini Santana.

Também alvo da operação, Bellini Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, é investigado por suposta atuação em favor dos interesses de Vorcaro. Os dois utilizam tornozeleira eletrônica por determinação da Justiça.