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    Eleições 2022

    Fernando Molica: Caso de coronel suspeito de mentir sobre urnas reforça politização dos militares 

    Sucessão de episódios reforça alerta de Mourão feito há quase dois anos 

    Jair Bolsonaro e o general Hamilton Mourão,vice-presidente
    Jair Bolsonaro e o general Hamilton Mourão,vice-presidente Reuters

    Fernando Molica

    A suspeita de que um coronel designado para fiscalizar o processo eleitoral divulgava em redes sociais fake news sobre as urnas eletrônicas reforça o tamanho do erro do Ministério da Defesa ao forjar uma aliança incondicional com o presidente Jair Bolsonaro (PL) e dá status de profecia a uma frase do vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos). 

    Em novembro de 2020, o general da reserva afirmou: “Política não pode entrar dentro do quartel. Se entra política pela porta da frente, a disciplina e a hierarquia saem pelos fundos”. 

    Mourão evitou dizer que descumprira o próprio conselho quando estava no serviço ativo — chegou a ser punido pela então presidente Dilma Rousseff por falar demais –, mas teve o mérito de, há quase dois anos, alertar para um desastre institucional já então delineado, o risco de transformação das Forças Armadas em uma espécie de guarda pessoal do presidente da República. 

    Inconformados com a criação, por Dilma, da Comissão da Verdade, incapazes de admitir torturas e violações de direitos humanos ocorridos durante a ditadura que não aceitam chamar de ditadura, comandantes militares encontraram na corrupção revelada pela Lava Jato uma justificativa para sua intolerância ao PT e para seu o retorno cada vez mais evidente à atividade política. 

    Militância que ficou explícita quando, em 2018, o então comandante do Exército, Eduardo Villas Boas, foi ao Twitter demonstrar seu inconformismo com a possibilidade de concessão de habeas corpus ao ex-presidente Lula. A ameaça do general estendeu tapete verde para que a política atravessasse os portais dos quartéis. 

    Naquele mesmo ano, militares entraram de cabeça na campanha de Bolsonaro, um ex-capitão que, na ativa, ficou célebre por suas transgressões. No poder, o presidente tratou de retribuir o apoio. Servidores fardados tiveram direito a regras de aposentadoria muito mais generosas que as dos civis e receberam milhares de cargos no governo. 

    À vontade na caserna, a política não deixa de apontar a direção da porta dos fundos para a disciplina e para a hierarquia. Ainda na ativa, o general Eduardo Pazuello participou de ato ao lado de Bolsonaro, infração que não seria punida. O comandante da Aeronáutica, Carlos de Almeida Baptista Junior, curtiu posts no Twitter. Um pregava a reeleição do presidente, outro pedia voto “auditável”, um terceiro solicitava uma “faxina no Brasil”. 

    Baptista Junior e os comandantes do Exército e da Marinha ainda subscreveram nota que protestava contra declarações do presidente da CPI da Pandemia, senador Omar Aziz (PSD-AM). A primeira assinatura do documento era do então ministro da Defesa, general Braga Netto, hoje candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro. 

    Reveladas pelo portal “Metrópoles”, as postagens contra as urnas eletrônicas atribuídas ao coronel Ricardo Sant’Anna não devem ser consideradas um caso isolado. Caso confirmadas, refletirão seu sentimento de impunidade e atestarão um desrespeito à sua condição de oficial do Exército. 

    Chega a ser impensável admitir a possibilidade que seus superiores tenham autorizado ou admitido sua militância em redes sociais, mas é razoável pressupor que o coronel só agiria daquele jeito por se sentir autorizado pelo comportamento de seus comandantes, em especial, do ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, que se transformou em aliado de Bolsonaro no questionamento infundado feito às urnas eletrônicas. 

    É também assustador que o Exército, tão preocupado com o processo eleitoral — algo que não faz parte de suas funções constitucionais –, não tenha percebido a atividade irregular de um de seus oficiais. principalmente de um dos indicados para ter acesso direto a equipamento que consideraria falho e corrompido. 

    A subordinação das Forças Armadas ao presidente da República não pode transformá-las em instrumento de exercício de poder político-partidário. Comandantes militares têm o dever de preservar suas instituições e seus comandados, são obrigados a cumprir as determinações da Constituição e garantir que seus subordinados estejam a serviço do Estado e não de um governo. 

    Não basta investigar e punir o coronel que teria feito as postagens contra as urnas eletrônicas, ele é apenas um exemplo de uma situação grave, que ameaça as próprias Forças Armadas. A tentativa de Bolsonaro de transformar em ato de campanha eleitoral o desfile de Sete de Setembro é uma boa oportunidade para que o ministro da Defesa e os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica ponham um freio no processo de politização dos militares. 

    Barrar a iniciativa do presidente é fundamental para preservar as instituições militares, garantir tranquilidade institucional e evitar que a profecia de Mourão seja cumprida de forma integral. 

    Este texto não representa, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.