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    Kit de joias recebido por Bolsonaro estava à venda em site de leilão nos EUA, diz PF

    Lance inicial era equivalente a R$ 245 mil; valor esperado poderia chegar a quase R$ 700 mil, apontam investigações

    Fernanda Pinottida CNN

    em São Paulo

    O kit de joias masculinas recebido pelo então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, após viagem à Arábia Saudita em 2021, estava à venda em um site de leilões dos Estados Unidos em fevereiro deste ano.

    De acordo com o site onde o material foi anunciado, o lance inicial era de US$ 50 mil, o que equivale a cerca de R$ 245 mil na cotação atual do dólar. O valor estimado variava entre US$ 120 mil e US$ 140 mil – entre R$ 588 mil a R$ 686 mil, aproximadamente.

    A PF constatou que “o número de série do relógio anunciado no site https://www.liveauctioneers.com/ é o mesmo número registrado no acervo privado do ex-Presidente da República JAIR BOLSONARO, recebido em 29 de novembro de 2022, por meio do processo SEI 08500.018470/2023-03”, concluindo, assim, que o conjunto de joias recebido pelo então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, após viagem à Arábia Saudita, em outubro de 2021, foi submetido à venda, mediante leilão nos Estados Unidos da América.

    Segundo a investigação da Polícia federal (PF), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) só pôde devolver as joias ao Estado brasileiro no fim de março, após determinação do Tribunal de Contas da União (TCU), pois elas não haviam sido arrematadas.

    “No dia 8 de fevereiro de 2023, o kit foi submetido a leilão, mas não foi arrematado, não sendo vendido por circunstâncias alheias à vontade dos investigados. Posteriormente, após a tentativa frustrada de venda, e com a divulgação na imprensa da existência das referidas joias, MAURO CID, MARCELO CAMARA e OSMAR CRIVELATTI organizaram uma ‘operação de resgate’ dos bens, que foram encaminhados para a cidade de Orlando/FL, local onde residia o ex-Presidente da República JAIR BOLSONARO. Após decisão do TCU para que o kit fosse devolvido ao Estado brasileiro, os investigados internalizaram os bens, devolvendo-os na data de 24 de março de 2023 na agência da Caixa Econômica Federal, na cidade de Brasília/DF”, diz trecho da investigação.

    Operação

    A operação iniciada pela PF nesta sexta-feira (11), que teve como alvo o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro Mauro Cid, seu pai, Mauro Lourena Cid, e outros aliados de Jair Bolsonaro, investiga a “utilização da estrutura do Estado brasileiro para desviar e vender bens de alto valor patrimonial entregues de presente por autoridades estrangeiras em missões oficiais”.

    A PF aponta que o kit de joias masculinas, composto por uma caneta, um anel, um par de abotoaduras, um rosário árabe (masbaha) e um relógio, e chamado de “kit ouro rosé”, foi levado por Cid no mesmo avião em que viajou para Orlando o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em 30 de dezembro do ano passado, na véspera do fim de seu mandato.

    Veja também: Mauro Cid teria levado mala com presentes para o pai, segundo PF

    Nos Estados Unidos, Mauro Cid teria entrado em contato com Nicholas Luna, associado à empresa Fortuna Auction, estabelecimento localizado em Nova York e especializado em leilões de joias e relógios de luxo, para vender o kit de joias.

    No celular de Mauro Cid, foram encontradas fotos das joias e de um documento que apresenta dados com suas especificações, com carimbo da “Chopard Boutique – Attar United Co. Ltd.” e que registra também o número de série do conjunto e número de edição limitada.

    Fotos encontradas no celular de Mauro Cid mostram em detalhes kit de joias masculinas recebido pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL) como presente da Arábia Saudita em 2021. / Reprodução

    A Polícia Federal encontrou, a partir de pesquisas na internet, um site de leilões no qual é possível ver a imagem do kit de joias e o valor esperado de arrecadação, de US$ 120 mil (mais de R$ 580 mil).

    Segundo a PF, “o número de série do relógio anunciado no site é o mesmo número registrado no acervo privado do ex-presidente da República Jair Bolsonaro”.

    A Polícia Federal encontrou na internet o kit de joias masculinas recebido por Jair Bolsonaro à venda em um site de leilão. / Reprodução

    “Após ser desviado, de forma ilegal, do acervo privado do ex-presidente da República JAIR BOLSONARO, em novembro de 2022, foi evadido do país, possivelmente, por meio do avião presidencial, no final do mês de dezembro de 2022, para os Estados Unidos da América. Em seguida, MAURO CESAR CID e outras pessoas ainda não identificadas, encaminharam o material para a empresa Fortuna Auction em Nova York. No dia 8 de fevereiro de 2023, o kit foi submetido a leilão, mas não foi arrematado, não sendo vendido por circunstâncias alheias à vontade dos investigados”, conclui a PF.

    “Operação de resgate do kit”

    A primeira matéria que denunciou a existência dos presentes da Arábia Saudita ao governo de Jair Bolsonaro foi publicada pela imprensa no dia 3 de março, conforme ressalta o ministro do Supremo Tribunal federal (STF) Alexandre de Moraes em sua decisão que autorizou a ação da PF.

    Conforme investigação da PF, no dia seguinte, em 4 de março, Mauro Cid enviou um código para rastreio de entrega da empresa UPS por mensagem para Osmar Crivelatti, tenente do Exército e também ex-ajudante de ordens de Bolsonaro.

    Quando Crivelatti confirma a entrega e envia fotos do kit com o relógio, as joias e o certificado da marca Chopard, Cid responde demonstrando alívio: “Ufa”.

    Troca de mensagens entre Mauro Cid e Osmar Crivelatti sobre a chegada do kit de joias masculinas após a tentativa frustrada de venda. / Reprodução

    Segundo a PF, Mauro Cid, junto com Osmar Crivelatti e um assessor do ex-presidente Marcelo Camara, organizaram uma “operação de resgate” para que as joias fossem encaminhadas para a cidade de Orlando, na Flórida, onde Bolsonaro residia no momento.

    Após a decisão do Tribunal de Contas da União, que definiu que o kit de joias sauditas deveria ser entregue em uma agência da Caixa Econômica Federal, os itens foram enviados ao Brasil e devolvidos em 24 de março deste ano.

    O que diz a defesa de Bolsonaro

    O advogado Fábio Wajngarten, que atua na defesa de Jair Bolsonaro, disse à CNN que ele e seus colegas do time jurídico do ex-presidente não sabiam da operação de recompra de um relógio Rolex nos Estados Unidos.

    De acordo com Wajngarten, que foi secretário de comunicação do governo Bolsonaro, ele estava dando uma orientação jurídica a Cid sobre como proceder, mas desconhecia o paradeiro das joias.

    “A defesa não sabia. Eu estava ali para orientá-los a se antecipar a uma decisão que o TCU tomaria, pegar as joias e entregar. Só isso. Eu não sabia onde elas estavam”, afirmou à CNN.

    Questionado o motivo de não ter perguntado o paradeiro das joias, Wajngarten afirmou que não cabia a ele essa pergunta naquele momento.

    A CNN aguarda posicionamentos dos demais envolvidos.