Mendonça proíbe Jaques de atuar com empresas ligadas ao Master
Ministro do STF vê indícios de relação imprópria entre senador e grupo investigado e determina restrição durante apuração da Operação Compliance Zero

O ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinou que o senador Jaques Wagner (PT-BA) se abstenha de manter interlocução ou atuar em favor de empresas e pessoas ligadas ao antigo Banco Master enquanto prosseguem as investigações da Operação Compliance Zero, que apura supostos crimes financeiros, lavagem de dinheiro, corrupção e organização criminosa envolvendo executivos e operadores do grupo.
Na decisão, Mendonça autorizou buscas e apreensões contra diversos investigados, nesta quinta-feira (18), entre eles pessoas físicas e jurídicas apontadas pela PF (Polícia Federal) como integrantes de uma estrutura que teria beneficiado o senador por meio de repasses financeiros, aquisição de imóvel de alto padrão e outras vantagens econômicas.
Segundo a PF, as investigações identificaram indícios de uma relação próxima entre Jaques e o empresário Augusto Ferreira Lima, apontado como operador ligado ao Banco Master. Os investigadores sustentam que o parlamentar teria recebido benefícios direta ou indiretamente por intermédio de familiares, pessoas de confiança e empresas vinculadas ao seu núcleo familiar.
A apuração se concentra em três frentes principais:
- a suposta compra de um apartamento de luxo no empreendimento Poème Horto, em Salvador;
- pagamentos destinados à BN Financeira Ltda, empresa associada ao entorno familiar do senador;
- a atuação parlamentar em pautas consideradas estratégicas para os interesses do Banco Master.
De acordo com a decisão, mensagens extraídas de celulares apreendidos indicam que Jaques encaminhou a Augusto Ferreira Lima informações sobre uma unidade imobiliária avaliada em cerca de R$ 2,45 milhões.
A Polícia Federal afirma que, posteriormente, operadores financeiros ligados ao grupo teriam sido acionados para viabilizar a aquisição do imóvel por meio de estruturas societárias interpostas, o que poderia caracterizar ocultação do verdadeiro beneficiário.
Outro ponto destacado pelos investigadores envolve transferências financeiras para a BN Financeira. A PF aponta que a empresa recebeu R$ 3,5 milhões da PKL One Participações S.A., sociedade vinculada ao núcleo de Augusto Ferreira Lima. Além disso, planilhas apreendidas registrariam pagamentos superiores a R$ 2,3 milhões a Eduardo Mendonça Sodré Martins, enteado de Jaques Wagner e ligado à empresa.
A investigação também atribui ao senador atuação em temas de interesse do Banco Master no Congresso Nacional. Entre os episódios citados estão a defesa de mudanças nas regras do crédito consignado, discussões sobre o limite de cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) e movimentações relacionadas à tentativa de aquisição do Banco Master pelo BRB (Banco de Brasília).
Ao analisar o caso, Mendonça afirmou que os elementos reunidos pela Polícia Federal revelam uma dinâmica marcada por comunicações privadas, estruturas empresariais interpostas e movimentações financeiras que justificam o aprofundamento das investigações. O ministro autorizou a apreensão de documentos, equipamentos eletrônicos, registros bancários e contábeis dos investigados.
Apesar de ter autorizado as diligências, o ministro negou pedidos de busca e apreensão no gabinete de Jaques Wagner no Senado Federal e em seu escritório de apoio político. Segundo ele, não há, neste momento, demonstração concreta de que esses locais abriguem provas indispensáveis para a investigação.
A decisão também rejeitou medidas de busca e apreensão contra Bonnie Toaldo Bonilha e Patrich Toaldo Bonilha, por entender que os elementos apresentados pela Polícia Federal ainda não demonstram participação relevante dos dois investigados nos fatos apurados.
À CNN, o senador Jaques Wagner (PT-BA) disse que nunca atuou em favor do Banco Master e que o dinheiro apreendido pela Polícia Federal é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais.
Leia a nota completa abaixo:
"O senador Jaques Wagner (PT-BA) esclarece que não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados. O parlamentar acompanha com tranquilidade o andamento das investigações e mantém a confiança na condução delas.
Cabe esclarecer que o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar. O senador também nega atuação em favor do Banco Master ou qualquer outra instituição financeira.
Sobre os valores em espécie apreendidos, a assessoria informa que o montante é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais. Por fim, o senador Jaques Wagner reitera que permanece à inteira disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos, com a certeza de que a verdade prevalecerá".


