Moraes: Ministro que recebe minuta não leva para casa, decreta prisão
Ministro do STF citou documento encontrado na casa de Anderson Torres, que chefiava Ministério da Justiça no governo Bolsonaro; segundo magistrado, minuta deveria ter sido "rasgada" no momento em que foi apresentada

O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), afirmou, nesta terça-feira (9), durante julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e mais sete réus no âmbito da investigação que apura uma tentativa de golpe de Estado em 2022, que o ministro da Justiça que recebe uma minuta de golpe, deve decretar a prisão de quem apresentou o documento, e não levar o rascunho para casa.
"O ministro da Justiça que recebe a minuta de golpe, rasga e decreta prisão de quem apresentou, não leva pra casa", disse Moraes.
O documento foi encontrado na casa do ex-ministro da Justiça e ex-secretário de Segurança Pública do Distrito Federal Anderson Torres, em janeiro de 2023.
Segundo a PGR (Procuradoria-Geral da República), Torres ofereceu suporte jurídico para decretos de medida de exceção.
Segundo a defesa do ex-ministro, a PGR atribuiu "peso descomunal de prova" à minuta de decreto de estado de defesa encontrada pela PF (Polícia Federal) na casa de Torres.
"Essa minuta, a qual foi dado um peso descomunal de prova, não tem valor algum. É uma minuta apócrifa, que não fazia qualquer sentido. Uma minuta que nunca circulou e que nunca foi discutida", disse o advogado, que destacou também que o documento estava "circulando pela internet" desde dezembro de 2022 e que ainda pode ser encontrado em páginas virtuais.
Ao longo da semana, os ministros do STF votam para condenar, ou absolver, os oito réus do núcleo crucial da suposta trama golpista. Alexandre de Moraes, relator do caso, já votou pela condenação do grupo.
Minuta golpista
Em depoimento à PF (Polícia Federal), o general Marco Antônio Freire Gomes, ex-comandante do Exército, afirmou que foram apresentadas por Bolsonaro hipóteses de utilização de instrumentos jurídicos como Garantia da Lei e da Ordem (GLO), Estado de Defesa e Estado de Sítio.
Ainda conforme o general, ele foi convocado por Bolsonaro, por meio do então ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, para comparecer no dia 7 de dezembro de 2022 para uma reunião no Palácio da Alvorada.
Na ocasião, foi apresentada a Freire Gomes a minuta golpista -- que posteriormente foi apreendida com o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro -- em que era decretado Estado de Sítio e a GLO.
Segundo o depoimento, na reunião estavam presentes Paulo Sérgio, o então comandante da Marinha, almirante Almir Garnier, o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, Filipe Martins, e o próprio Bolsonaro.
Martins foi o responsável por realizar a leitura do que seriam os "fundamentos jurídicos" da minuta golpista.
O conteúdo do depoimento foi veiculado em primeira mão pela CNN.
Quem são os réus do núcleo 1?
Além do ex-presidente Jair Bolsonaro, o núcleo crucial do plano de golpe, segundo a PGR, seria composto por:
- Alexandre Ramagem, deputado federal e ex-presidente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência);
- Almir Garnier, almirante de esquadra que comandou a Marinha no governo de Bolsonaro;
- Anderson Torres, ex-ministro da Justiça de Bolsonaro;
- Augusto Heleno, ex-ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional) de Bolsonaro;
- Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro;
- Paulo Sérgio Nogueira, general e ex-ministro da Defesa de Bolsonaro; e
- Walter Souza Braga Netto, ex-ministro da Defesa e da Casa Civil no governo de Bolsonaro, candidato a vice-presidente em 2022.
Por quais crimes os réus estão sendo acusados?
Bolsonaro e outros réus respondem na Suprema Corte a cinco crimes. São eles:
- Organização criminosa armada;
- Tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito;
- Golpe de Estado;
- Dano qualificado pela violência e ameaça grave;
- Deterioração de patrimônio tombado.
A exceção fica por conta de Ramagem. No início de maio, a Câmara dos Deputados aprovou um pedido de suspensão a ação penal contra o parlamentar. Com isso, ele responde somente aos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado.
Cronograma do julgamento
Nesta semana foram reservadas quatro datas para as sessões do julgamento, veja:
- 9 de setembro, terça-feira, 9h às 12h e 14h às 19h;
- 10 de setembro, quarta-feira, 9h às 12h;
- 11 de setembro, quinta-feira, 9h às 12h e 14h às 19h; e
- 12 de setembro, sexta-feira, 9h às 12h e 14h às 19h.


