MP pede suspensão de salário de ministro suspeito de importunação sexual

Marco Buzzi foi afastado do STJ após denúncias de duas mulheres diferentes

Leticia Martins, da CNN Brasil, Laura Molfese, da CNN Brasil*, São Paulo
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O subprocurador-geral do MPTCU (Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União) Lucas Rocha Furtado solicitou que o Tribunal atue junto ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) para interromper imediatamente o pagamento de qualquer tipo de remuneração ao ministro Marco Buzzi — afastado do cargo após ser alvo de denúncias de importunação sexual.

Na petição encaminhada ao TCU, Furtado pede que a Corte adote uma medida cautelar e sustente, junto ao STJ, a interrupção de qualquer pagamento durante o período de afastamento preventivo, "considerando a gravidade das acusações e a necessidade de resguardar os princípios constitucionais da moralidade, eficiência e economicidade".

Furtado também argumenta que o TCU tome providências destinadas a verificar os valores já repassados a Buzzi desde o início do afastamento, mencionando inclusive a possibilidade de eventual devolução dos recursos aos cofres públicos.

"Apurar os valores já pagos ao Ministro Marco Buzzi desde o início de seu afastamento, com vistas à eventual restituição ao erário, caso seja constatada irregularidade", diz a petição.

O subprocurador-geral diz ainda que o comportamento de Buzzi fere a dignidade das vítimas e abala a imagem e a confiança no Poder Judiciário.

"Permitir que um magistrado acusado de tais condutas continue a receber remuneração integral, custeada pelos contribuintes, é um verdadeiro escárnio com a sociedade brasileira. Trata-se de um desrespeito às mulheres vítimas de violência, às famílias que dependem de serviços públicos de qualidade e a todos os cidadãos que esperam que os recursos públicos sejam utilizados de forma responsável e ética", afirma Furtado.

Em nota, a defesa do ministro Marco Buzzi diz que a representação "afronta todas as normas legais e regulamentares que regem a medida de afastamento cautelar para fins investigativos".

"Ademais, justamente pelo caráter cautelar e provisório da medida é que não se permite a cessação dos vencimentos do cargo", afirmam os advogados.

Na última terça-feira (10), o STJ determinou o afastamento cautelar do ministro Marco Buzzi após denúncias de importunação sexual contra duas mulheres virem à tona nos últimos dias. O ministro responde a uma sindicância interna aberta na última semana.

Durante o período em que o ministro ficar afastado, ele ficará impedido de acessar o gabinete, usar carro oficial e exercer as prerrogativas do cargo. O salário, no entanto, continuaria sendo recebido, já que não houve exoneração nem condenação definitiva.

Remuneração em 2025

Marco Buzzi recebeu R$ 616.998,93 nos últimos quatro meses de 2025. No total, o magistrado embolsou R$ 1.197.241,36 somente no ano passado.

Em setembro, ele recebeu R$ 260,1 mil; R$ 100,3 mil em outubro; R$ 112,8 mil em novembro e R$ 143,6 mil em dezembro, segundo as informações do Portal da Transparência.

No detalhamento da folha de pagamento do ministro, aparece o crédito de "vantagens pessoais", que fica entre R$ 16 mil e R$ 23 mil. A verba está atrelada a situações individuais, tempo de serviço ou condições de trabalho específicas, segundo a legislação.

Em novembro, a folha do ministro ainda registra R$ 30,9 mil em "gratificações" e, em dezembro, R$ 23,1 mil do mesmo crédito.

O salário atual de Marco Buzzi, como magistrado, é de R$ 44.047,88.

Denúncias

Buzzi é acusado de importunação sexual contra duas mulheres diferentes. A primeira denúncia foi feita por uma mulher de 18 anos em janeiro deste ano. O episódio teria ocorrido durante as férias em Balneário Camboriú (SC), quando a jovem, filha de um casal de amigos do ministro, decidiu tomar um banho de mar. De acordo com o relato, o ministro tentou agarrá-la três vezes.

A segunda denúncia foi divulgada na última segunda-feira (9) pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça). A suposta vítima era uma servidora terceirizada do tribunal e ocupava uma função subordinada ao ministro. Ela prestou depoimento à Corregedoria Nacional de Justiça e foi ouvida pelo corregedor, ministro Mauro Campbell.

O caso passou a ser tratado como assédio pela relação de hierarquia. A informação foi inicialmente publicada pela "Folha de S.Paulo" e confirmada pela CNN.

*Sob supervisão de Renata Souza