No CE, Bolsonaro diz que governo está há mais de 3 anos sem denúncia de corrupção

Sem citar a polêmica envolvendo o ministro da Educação, presidente voltou a fazer críticas ao PT

Fábio Munhoz, da CNN, Em São Paulo
Compartilhar matéria

Na mesma semana em que áudios vazados pelo jornal "Folha de S.Paulo" revelaram um suposto favorecimento na distribuição de verbas do Ministério da Educação para prefeitos indicados por líderes evangélicos, o presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou que seu governo está há "três anos e três meses sem qualquer denúncia".

A afirmação foi dada nesta quarta-feira (23) durante evento no Ceará, no qual Bolsonaro esteve acompanhado dos ministros João Roma (Cidadania), Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) e Ciro Nogueira (Casa Civil). Durante seu discurso, o presidente não citou o caso envolvendo o ministro da Educação, Milton Ribeiro.

"Quando se fala em corrupção, nós temos o que falar: são três anos e três meses sem qualquer denúncia em nossos ministérios. Tentam de toda maneira nos igualar a quem nos antecedeu, mas não conseguirão. Porque é um governo que, acima de tudo, tem respeito pela sua população", afirmou.

Bolsonaro citou diretamente o PT ao falar sobre as obras de transposição do rio São Francisco, que foram iniciadas durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

"Vim mostrar para vocês que não era difícil a transposição do São Francisco. Se vocês lembram quem administrou o Brasil entre 2003 e 2015, vocês sabem quem esteve na presidência da República nessa época". "O endividamento da Petrobras e do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] por desvios, roubalheira, por projetos malfeitos e por empréstimos a outros países que não pagaram essa conta representa o montante dessa conta. Representa R$ 1,4 trilhão. Isso dá para fazer cem transposições do rio São Francisco", acrescentou.

Ainda na esteira da polêmica envolvendo pastores evangélicos, Bolsonaro finalizou seu discurso com citações religiosas. "O Brasil hoje não é mais um país do futuro, é um país do presente. A satisfação de estar aqui, a crença do nosso Deus, a luta da defesa pela família e a lealdade que temos para com vocês justifica para onde estamos indo e conduzindo a política do nosso país."

Entenda o caso

Nos áudios obtidos pelo jornal "Folha de S.Paulo", Ribeiro diz que recebeu um pedido do presidente Jair Bolsonaro para que a liberação de verbas da pasta seja direcionada para prefeituras específicas a partir da negociação feita por dois pastores evangélicos que não possuem cargos no governo federal.

Na gravação, Ribeiro diz que se trata de “um pedido especial do presidente da República”. “Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do [pastor] Gilmar”, diz o ministro na conversa com prefeitos e outros dois pastores, segundo o jornal.

Ribeiro continua: “Porque a minha prioridade é atender primeiro os municípios que mais precisam e, em segundo, atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar.”

Os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura são os citados nos áudios. Segundo o jornal, os dois religiosos têm negociado com prefeituras a liberação de recursos federais para obras em creches, escolas e compra de equipamentos de tecnologia.

Na conversa vazada, o ministro de Bolsonaro indica que, com a liberação de recursos, pode haver uma contrapartida. “O apoio que a gente pede não é segredo, isso pode ser [inaudível] é apoio sobre construção de igrejas”. Nos áudios, não fica claro a forma como esse apoio se daria.

Ministro nega favorecimentos

Na última terça-feira (22), o ministro divulgou uma nota na qual negou que favoreceu pastores na distribuição de verbas da pasta.

“Diferentemente do que foi veiculado, a alocação de recursos federais ocorre seguindo a legislação orçamentária, bem como os critérios técnicos do Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação [FNDE]. Não há nenhuma possibilidade de o ministro determinar alocação de recursos para favorecer ou desfavorecer qualquer município ou estado”, diz trecho da nota obtida em primeira mão pela analista da CNN Thais Arbex.

Na nota, o ministro diz ainda que o presidente “não pediu atendimento preferencial a ninguém, solicitou apenas que pudesse receber todos que nos procurassem”.

Ribeiro, que é presbiteriano, ressaltou que não há “qualquer hipótese e nenhuma previsão orçamentária que possibilite a alocação de recursos para igrejas de qualquer denominação religiosa.”