O difícil caminho para a chamada terceira via

Pré-candidatos da terceira via insistem no discurso do nem-nem e acabam fortalecendo o poder de duas candidaturas poderosas e marcantes

O ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro
O ex-presidente Lula e o presidente Bolsonaro Ricardo Stuckert/PR; Anderson Riedel/PR

Fernando Molicada CNN

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A última pesquisa Ipespe reforça as más notícias para aqueles políticos que tentam encarnar a tal da terceira via. De acordo com os dados, 62% dos eleitores já decidiram votar no ex-presidente Lula (PT) ou no atual mandatário, Jair Bolsonaro (PL).

O percentual é a soma das intenções de voto espontâneas para os dois candidatos — responsáveis por institutos de pesquisas tendem a considerar consolidadas as escolhas apresentadas pelos eleitores antes que lhes sejam apresentadas cartelas com os nomes dos concorrentes.

Diante da pergunta sobre em quem votariam caso a eleição fosse no dia da pesquisa, 36% dos entrevistados citaram o nome de Lula; 26%, o de Bolsonaro. Esses percentuais vêm se mantendo mais ou menos estáveis desde janeiro, o que confirma a tendência rascunhada desde outubro do ano passado.

É evidente que pesquisa não substitui urna e que os percentuais podem e devem variar até outubro, e 38% do eleitorado não mandou juras de amor para os dois líderes da disputa.

Há muito voto a ser conquistado e, mesmo, mudado. O problema, pelo menos até agora, é que a grande maioria dos brasileiros ainda não se identificou com outros candidatos e suas propostas ― apenas 10% dos entrevistados cravaram, espontaneamente, o nome de outro pré-candidato.

A turma do “nem Lula nem Bolsonaro” ajuda a aprofundar a crise ao insistir em forjar candidaturas “do contra”, projetos baseados na negação — querem ser eleitos para derrotar os favoritos. OK, em 2018, o atual presidente também moldou sua campanha na negação ao petismo e aos políticos em geral. Mas isso foi há quatro anos, quando o bolsonarismo ainda podia cantarolar o “Se gritar pega centrão/Não fica um, mermão”.

O voto numa eleição para o Poder Executivo — principalmente no caso de escolha do presidente — tem a ver com esperança e expectativa. De 1989 para cá, o brasileiro meio que alternou seus votos. Ora votou na mudança e num rompimento (Collor, Lula 1, Bolsonaro), ora optou pela continuidade, estabilidade e conservação (Lula 2, Dilma Rousseff, FHC). Votou com raiva ou carinho, mas votou achando que sabia o que fazia — conservar o que vinha dando mais ou menos certo ou mudar tudo o que estava errado.

Lula e Bolsonaro são personagens fortes demais. Amados e detestados, não podem ser ignorados nem ser substituídos apenas com base numa carta de boas intenções, com bom-mocismo.

A eleição não é para presidente de associação beneficente, não é escolha de genro ou nora — trata-se de buscar aquele que, apesar dos pesares, demonstra ter condições políticas e pessoais para conduzir o país na melhor direção possível. O eleitor é pragmático, releva pecados em nome de um bem maior.

Lula e Bolsonaro sabem disso. O primeiro, formado na lógica do embate e da conciliação que marca a vida sindical, acena com a memória de seus dois mandatos e propõe uma espécie de pacificação — tanto que escala Geraldo Alckmin para ser seu mestre-sala.

O atual presidente mantém o radicalismo que caracteriza seus mais de 30 anos de vida pública. Ele vive e precisa da briga, sabe que, em condições mais ou menos normais de temperatura e pressão, dificilmente conquistaria um cargo majoritário.

É como se tivesse como lema a frase do ex-zagueiro Moisés, conhecido pelo jogo duro: “Zagueiro que se preza não pode ganhar o Belfort Duarte” (prêmio concedido a jogadores disciplinados).

Os dois líderes querem se enfrentar num eventual segundo turno. O petista vai adorar ter como adversário alguém que fala cada vez mais para seus fiéis seguidores, que insiste em focar seu discurso; já o ex-capitão sonha em poder desfraldar a bandeira antipetista, em reeditar o “fuzilar a petralhada”.

Enquanto isso, seus adversários insistem no nem-nem, não vendem sonhos ou promessas de dias melhores, tratam apenas de negar os favoritos — ao fazê-lo, reforçam a presença de ambos. Como na música de Chico Buarque, adoram Lula e Bolsonaro pelo avesso.

A polarização é um dado comum à política. No Brasil, da redemocratização para cá, foram poucas as vezes em que a disputa o presidencial não ficou restrita a dois políticos (em 1989, Lula foi ao segundo turno depois de uma acirrada luta com Brizola; em 2002, Garotinho teve 18% dos votos contra 23% de Serra, que acabaria em segundo; em 2014, Aécio Neves chegou a ficar em terceiro nas pesquisas, mas ganhou de Marina Silva o direito de participar da final).

Ou seja, os “terceiráveis” têm um caminho duro pela frente, precisam mostrar o que querem, o que pretendem, por que são merecedores do voto popular. Por enquanto, estão atolados no nem-nem. O resultado é que nenhum deles consegue chegar nem aos 10% de intenções de voto.

(As opiniões emitidas pelos nossos comentaristas não refletem necessariamente a posição da CNN)

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