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    O impasse de Lula entre um programa amplo ou mais ligado à esquerda

    O impeachment de Dilma, a eleição de Bolsonaro e a condenação e prisão do ex-presidente parecem ter afetado sua capacidade de se adaptar a algumas características dos novos tempos

    O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) 
    O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)  Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil (25.dez.2019)

    Fernando Molicada CNN

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    Lula e o PT têm o direito de criticar a reforma trabalhista aprovada no governo Michel Temer e de defender sua mudança ou revogação. Os petistas sempre foram contra as alterações que sequer constavam do programa da chapa vencedora da eleição de 2014.

    A nova legislação apresenta pontos questionáveis, como a autorização para que grávidas e lactantes trabalhem em locais insalubres e a prevalência do negociado sobre o legislado.

    A questão é saber se a proposta de revisão será incorporada à campanha eleitoral do ex-presidente, que tem emitido sinais contraditórios sobre pontos de um possível programa de governo.

    A escolha do ex-tucano Geraldo Alckmin para a disputa da vice-presidência aponta para uma campanha mais moderada, interessada em conquistar apoios de setores conservadores ― tudo para forjar a ideia de união nacional contra Jair Bolsonaro (PL), uma tentativa de fazer com que ele fique isolado no canto direito no ringue.

    Já as declarações sobre reforma trabalhista e descriminalização do aborto ― e mesmo as vaias de setores petistas ao deputado Paulinho da Força (Solidariedade) ― indicam que o PT e Lula tenderiam a manter propostas com a cara da esquerda.

    Ao criticar a reforma, o ex-presidente chegou a defender uma nova versão do imposto sindical, herança da estrutura criada por Getúlio Vargas e que procurava vincular os sindicatos ao Estado ― ao ser fundado, o PT era contra manter esta contribuição.

    Ao longo de décadas, o imposto permitiu o fortalecimento das entidades, mas, ao mesmo tempo, possibilitou a criação de um sem-número de sindicatos picaretas (patronais e de empregados), sem qualquer representatividade e que existiam apenas para enriquecer seus donos.

    A trajetória de Lula é marcada por posições dúbias ou, mesmo, contraditórias, característica relacionada à sua formação como dirigente sindical. Ele foi criado na escola da negociação, o que implica em admitir concessões. Há pouco mais de 20 anos, chegou a dizer que era uma “metamorfose ambulante”: “Não quero ser aquela coisa acabada, que sabe tudo, que pode tudo”, afirmou.

    A capacidade de adaptação permitiu a Lula navegar fora dos caminhos tradicionais da esquerda e asfaltou seu caminho para o Palácio do Planalto. Mas essas mesmas concessões geraram rachas no PT. O PSOL nasceu do inconformismo com posturas mais conservadoras de Lula na Presidência.

    O impeachment de Dilma Rousseff, a eleição de Bolsonaro e, mais do que tudo, a condenação e a prisão de Lula parecem ter afetado a capacidade do ex-presidente de se adaptar a algumas características dos novos tempos ― e fazem com que ele acabe cultuando modelos antigos, como o imposto sindical.

    O fim abrupto e não gradual do desconto compulsório do salário de trabalhadores teve o objetivo de quebrar a estrutura sindical, algo particularmente delicado no momento em que a mesma reforma trabalhista previa o fortalecimento das negociações.

    A mudança surpreendeu os sindicalistas e acabou de vez com as possibilidades de conversas minimamente equilibradas entre os dois polos. O time dos empregados passou a entrar em campo com as pernas quebradas.

    O problema seria agora ressuscitar um modelo sindical e convencer trabalhadores da importância de mais um desconto compulsório de seus salários. Ainda mais num momento de tantas mudanças nas relações trabalhistas e nas expectativas de muitos trabalhadores ― até por ter se tornado menos frequente, o emprego com carteira assinada não é mais o único objetivo dos que buscam uma atividade bem remunerada. A mesma tecnologia que acabou com tantos postos de trabalho criou novas possibilidades e alternativas.

    Mais do que buscar o retorno do imposto sindical, o PT e Lula deveriam pensar em formas de viabilizar sonhos de tantos e tantos jovens. Alguns querem, sim, empregos melhores; outros nutrem a esperança de ter o próprio negócio.

    Estes também têm direito de pensar grande e não podem ficar presos à ilusão de que trabalhar com entrega de comida, sem qualquer proteção ou garantia, representa uma forma de empreendedorismo.

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