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    Eleições 2022

    Perda de identidade e rachas explicam declínio do PSDB, segundo especialistas

    Partido sofreu derrota em SP depois de 27 anos e elegeu menor bancada da sua história na Câmara; ex-governador João Doria se desfiliou nesta quarta-feira (19)

    Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e Afonso Arinos, durante criação do PSDB, em 1988
    Fernando Henrique Cardoso, Mário Covas e Afonso Arinos, durante criação do PSDB, em 1988 Célio Azevedo

    Daniel Reisda CNN

    São Paulo

    Protagonista na política nacional há três décadas, o PSDB ocupou a Presidência com Fernando Henrique Cardoso entre 1995 e 2002, comandou o estado de São Paulo por 27 anos e elegeu bancadas com quase 100 deputados federais, como em 1998. Neste ano, porém, o partido amargou o pior desempenho de sua história nas eleições.

    Os tucanos elegeram 13 deputados federais, uma queda de 55% em relação às eleições anteriores. Não garantiu nenhuma cadeira no Senado e não conquistou nenhum governo estadual no primeiro turno. Também perdeu a hegemonia em São Paulo, com a derrota de Rodrigo Garcia. No segundo turno, concorre aos governos do Rio Grande do Sul, Paraíba, Pernambuco e Mato Grosso do Sul.

    Segundo cientistas políticos ouvidos pela CNN, o resultado da legenda nas urnas em 2022 representa não apenas um encolhimento, mas um processo “irreversível” de perda de relevância nacional que se assemelha ao de partidos tradicionais no resto do mundo.

    A dificuldade de se posicionar no espectro ideológico, sobretudo frente ao cenário de polarização representado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), ajuda a entender o declínio do PSDB, de acordo com os especialistas.

    Esse processo deriva da “perda de identidade” dos tucanos, com o reposicionamento do partido à direita, e do racha entre os quadros históricos e os mais novos, como explica o cientista político e professor Cláudio Couto, da Fundação Getulio Vargas (FGV).

    Quando criada, em 1988, a legenda representava uma dissidência à esquerda do PMDB (atual MDB). De 1994 a 2014, ao longo de seis eleições, polarizou com o PT na corrida presidencial. Em 2018, perdeu espaço para a onda bolsonarista, da qual se aproximou ― como na eleição de João Doria para o governo de São Paulo.

    “Ao fazer esse movimento para ganhar o voto do eleitorado mais à direita, o PSDB também vai absorvendo políticos mais de direita, inclusive nas suas alas mais jovens, que vão gerar essa divisão entre os ‘cabeças brancas’ e os ‘cabeças pretas’”, diz Couto.

    Ele cita como exemplo desses novos quadros o atual presidente do partido, Bruno Araújo, e o próprio Doria, que depois de uma conturbada tentativa de se candidatar à Presidência, decidiu se desfiliar do partido em 19 de outubro.

    O cientista político diz haver um processo de envelhecimento e de perda de quadros importantes, como o ex-governador Mário Covas (1930-2001) e o ex-deputado e ex-ministro Euclides Scalco (1932-2021). “Vai tendo uma perda de massa crítica dos velhos fundadores”, diz.

    Em 2021, o ex-governador Geraldo Alckmin se desfiliou do partido após 33 anos de PSDB. Ele acabou migrando para o PSB e se tornou vice na chapa de um ex-adversário: Luiz Inácio Lula da Silva.

    Essa perda de identidade fragiliza o partido e faz com que ele perca eleitores em meio ao surgimento de Bolsonaro, segundo o professor. “O PSDB sempre conseguiu ser antipetista e, por isso, beneficiou-se eleitoralmente em alguns momentos disso, mas o Bolsonaro consegue ser muito mais”, aponta.

    A cientista política Bertha Maakaroun, diretora técnica da Pólis Pesquisa, menciona a falta de lideranças e a disputa interna ocorrida entre Aécio Neves, ex-governador de Minas Gerais, e João Doria como fatores que prejudicaram o partido.

    “Sem uma liderança nacional ― um porta-voz que evoque os ideais de sua fundação, já que Aécio Neves ficou muito desgastado pelos processos que enfrentou ―, o PSDB não conseguiu se reposicionar com sucesso no debate nacional”, afirma Bertha.

    A derrota em São Paulo

    Após governar São Paulo por 27 anos, o PSDB deixará o Palácio dos Bandeirantes em 2023. O segundo turno da eleição estadual, marcado para 30 de outubro, será entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT).

    O governador Rodrigo Garcia, que se filiou ao PSDB em 2021 depois de 27 anos no DEM (ex-PFL), ficou na terceira posição, com 18,40% dos votos válidos.

    A hegemonia do partido no estado começou com Mário Covas, que governou São Paulo entre 1995 e 2001. Depois, foram eleitos Geraldo Alckmin, que governou de 2001 a 2006; e 2011 a 2018); José Serra (2007 a 2010); e João Doria (2019 a 2022).

    Após a derrota nas eleições deste ano, Rodrigo Garcia declarou apoio a Tarcísio de Freitas e ao presidente Jair Bolsonaro no segundo turno. Sua decisão foi seguida pelo PSDB de São Paulo, mas destoa da posição de integrantes antigos da sigla. Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Aloysio Nunes, José Aníbal e João Pimenta da Veiga Filho, por exemplo, declararam voto em Lula.

    O declínio em Minas Gerais

    Em Minas Gerais, onde o PSDB conquistou a Prefeitura de Belo Horizonte em seu primeiro ano, em 1989, com Pimenta da Veiga, o partido também encolheu.

    Após governar com Eduardo Azeredo (1995 a 1999), Aécio Neves (2003 a 2010) e Antonio Anastasia (2010 a 2014), o candidato ao governo do estado pela legenda, Marcus Pestana, recebeu 0,56% dos votos válidos.

    Além disso, o partido perdeu a sua bancada de deputados federais. Em 2014, o partido elegeu sete para Câmara. Em 2018, cinco. Em 2022, foram apenas dois. Para a cientista política Bertha Maakaroun, o processo reflete o cenário nacional.

    “Houve um esvaziamento [em Minas] de partidos tradicionais da direita e centro direita, como o PSDB”, diz ela, pontuando que o PL, de Bolsonaro, e o PT, de Lula, foram os que mais elegeram à Câmara no estado.

    A perda de influência dos partidos

    Cláudio Couto, da FGV, explica que o processo de perda de centralidade de partidos importantes, diante das circunstâncias históricas, não é incomum.

    No começo do século 20, o Partido Liberal britânico ― atualmente Liberais Democratas ― quase desapareceu com a emergência dos trabalhistas, como lembra o professor.

    Os socialistas franceses, segundo ele, também perderam espaço com a emergência do atual presidente Emmanuel Macron e o surgimento de uma esquerda mais radical representada por Jean-Luc Mélenchon (França Insubmissa). Houve também o “desaparecimento” do Partido Socialista Italiano e da Democracia Cristã, legendas históricas que foram atingidas pela Operação Mãos Limpas.

    Bertha Maakaroun pontua que o Brasil possui um sistema partidário extremamente fragmentado que, em decorrência de novas regras eleitorais, como a proibição das coligações e cláusulas de barreira, iniciou neste pleito de 2022 um “processo de enxugamento com a redução do número de legendas representadas”.

    Ameaçado pela cláusula, o PSDB se federou neste ano com o Cidadania. O partido, no entanto, elegeu deputados suficientes para ultrapassar o mínimo exigido de 11 deputados em nove estados.

    Fotos: Momentos marcantes da história das eleições no Brasil