Populismo e estatismo marcam falas de pré-candidatos sobre Petrobras, dizem especialistas

Lula diz que alta do preço dos combustíveis é consequência da privatização da BR Distribuidora; Bolsonaro foca críticas no comando da estatal e tenta se isentar de responsabilidade, segundo cientistas políticos

Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro
Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro Foto: José Cruz/Agência Brasil e Mateus Bonomi/Agif - Agência de Fotografia/Estadão Conteúdo

Raquel Landimda CNN

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Com a guerra na Ucrânia, o aumento do preço dos combustíveis e o papel da Petrobras voltaram ao centro do debate da corrida eleitoral. Para cientistas políticos ouvidos pela CNN, o discurso dos pré-candidatos ao Planalto é “populista” e “estatista”.

“O debate social e econômico sobre essa questão tem sido paupérrimo”, diz Carlos Mello, professor do Insper, referindo-se a expressões utilizadas pelos políticos sobre “o papel social da Petrobras” ou dizer que “estatal não é feita para dar lucro”.

Mello destaca que o diagnóstico de boa parte dos pré-candidatos parece ser uma intervenção na Petrobras ou até um congelamento de preços, o que poderia ter consequências de médio e longo prazos importantes para a capacidade de investimento e para o nível de endividamento da companhia, como já aconteceu no passado.
Líder nas pesquisas de intenção de voto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que a responsabilidade pela alta dos combustíveis é da privatização da BR Distribuidora.

“Você sabe por que a gasolina tá cara? É porque esse Brasil tinha uma grande distribuidora chamada BR que foi privatizada e agora você tem mais de 400 empresas importando gasolina dos Estados Unidos”, postou o pré-candidato do PT nas redes sociais.

Hoje chamada de Vibra Energia, a antiga BR Distribuidora teve seu capital pulverizado na bolsa, mas, ao contrário do que diz Lula, a empresa não produz gasolina, mas revende e distribui para os postos. O setor de distribuição é um dos poucos na cadeia de petróleo no país com alta concorrência.

Já o presidente Jair Bolsonaro, que é pré-candidato à reeleição pelo PL, criticou a Petrobras pelo reajuste de preços praticado na semana passada para compensar a subida do petróleo no mercado internacional provocada pela guerra no Leste Europeu.

“A Petrobras demonstra que não tem qualquer sensibilidade com a população. É a Petrobras Futebol Clube, o resto que se exploda”, disse Bolsonaro à imprensa.

Para Antonio Lavareda, professor da Universidade Federal de Pernambuco, Lula distorce o papel da BR Distribuidora com o objetivo de empurrar o problema da alta dos preços dos combustíveis sobre o atual governo, já que a privatização da empresa, que era uma subsidiária da Petrobras, foi concluída em 2019, primeiro ano da atual gestão.

Lavareda afirma também que Bolsonaro, por sua vez, foca suas críticas no comando da Petrobras para tentar se isentar de responsabilidade pela inflação da gasolina, a despeito do atual presidente da empresa, o general Joaquim Silva e Luna, ter sido indicado pela União.

“Se o presidente acredita que vai terceirizar a responsabilidade pela inflação, é uma aposta vã”, diz.

Os especialistas ressaltam que ainda é cedo para dizer se os combustíveis vão continuar no centro das preocupações da população até outubro, já que isso depende da evolução dos preços do petróleo no mercado externo e do desenrolar da guerra na Ucrânia.

Mas acreditam que o conflito já reascendeu a preocupação com a inflação no próximo pleito. As projeções para o IPCA neste ano, que estavam ao redor de 5%, aproximam-se de 7%.

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