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    Presentes recebidos por Bolsonaro desviados para venda ilegal podem somar mais de R$ 1 milhão, diz PF

    Operação deflagrada pela Polícia Federal nesta sexta (11) investiga o destino de itens recebidos durante o governo de Bolsonaro

    Relógio da marca Patek Philippe, possivelmente recebido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante viagem oficial ao Bahrein, em novembro de 2021
    Relógio da marca Patek Philippe, possivelmente recebido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante viagem oficial ao Bahrein, em novembro de 2021 Reprodução

    Léo Lopesda CNN

    em São Paulo

    Os presentes oficiais dados por autoridades estrangeiras à Presidência da República – centro da operação da Polícia Federal (PF) desta sexta-feira (11) envolvendo o ex-ajudante de ordens Mauro Cid e outros nomes ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) – somam em conjunto um valor estimado de mais de R$ 1 milhão.

    Nesta sexta-feira (11), a PF iniciou uma operação para cumprir mandados de busca e apreensão em uma investigação sobre “utilização da estrutura do Estado brasileiro para desviar e vender bens de alto valor patrimonial entregues de presente por autoridades estrangeiras em missões oficiais”.

    VÍDEO: Mauro Cid teria levado mala com presentes para o pai, segundo PF

    Entre os alvos, além de Mauro Cid, estão seu pai, o general Mauro César Cid; o ex-advogado de Bolsonaro Frederick Wassef; e o ex-assessor especial da Presidência, Osmar Crivelatti. A operação foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

    De acordo com a decisão de Moraes, a investigação da PF trata de quatro conjunto de itens presenteados ao governo brasileiro.

    Quais são os presentes do acervo da Presidência investigados pela PF?

    1) Kit “Ouro Rose”

    Presente recebido pelo então ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, após viagem à Arábia Saudita, em outubro de 2021. Contém um conjunto de itens masculinos da marca Chopard com uma caneta, um anel, um par de abotoaduras, um rosário árabe (“masbaha”) e um relógio.

    Fotos encontradas no celular de Mauro Cid mostram em detalhes kit de joias masculinas recebido pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL) como presente da Arábia Saudita em 2021. / Reprodução

    2) Kit “Ouro Branco”

    Presente entregue a Bolsonaro durante visita à Arábia Saudita em outubro de 2019. Contém um kit de joias, com um anel, caneta, abotoaduras, um rosário islâmico (“masbaha”) e um relógio da marca Rolex, de ouro branco.

    Cronologia do Rolex
    Cronologia do Rolex / CNN/Reprodução

    3) Palmeira e barco dourado

    Escultura de barco dourado, cuja procedência não foi identificada pela PF. E uma escultura dourada de uma palmeira, que foi entregue ao ex-presidente em novembro de 2021 durante participação em evento da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, no Bahrein.

    Escultura de palmeira e de barco presenteados ao Brasil. Mauro Cid tentou vendê-los nos EUA, mas não conseguiu porque não eram de ouro, apontou PF.
    Escultura de palmeira e de barco presenteados ao Brasil. Mauro Cid tentou vendê-los nos EUA, mas não conseguiu porque não eram de ouro, apontou PF. / Reprodução

    4) Patek Philippe

    Relógio da marca Patek Philippe, possivelmente recebido por Bolsonaro durante viagem oficial ao Bahrein, em novembro de 2021.

    Relógio da marca Patek Philippe, possivelmente recebido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante viagem oficial ao Bahrein, em novembro de 2021.
    Relógio da marca Patek Philippe, possivelmente recebido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) durante viagem oficial ao Bahrein, em novembro de 2021. / Reprodução

    Esquema de venda

    O relatório da Polícia Federal (PF) que embasou a operação desta sexta-feira apontou que Bolsonaro “determinou” que as joias do acervo da Presidência da República recebidas de autoridades árabes fossem direcionadas para o seu acervo privado.

    Além disso, a investigação indica que o material deveria ser vendido e o dinheiro repassado em espécie para o ex-presidente.

    Segundo a investigação da PF, Mauro Cid levou para os Estados Unidos presentes recebidos pelo Estado brasileiro com a intenção de vendê-los.

    Ele teria transportado os objetos no mesmo avião presidencial em que Jair Bolsonaro viajou para Orlandoem 30 de dezembro do ano passado, na véspera do fim de seu mandato.

    Valores ultrapassam R$ 1 milhão

    Os investigadores apontaram que o chamado “Kit Ouro Rose” foi listado à venda em um site de leilões dos Estados Unidos em fevereiro deste ano. O número de série no anúncio era o mesmo registrado no acervo privado da Presidência.

    De acordo com o site de leilões Live Auctioneers, o conjunto tinha valor estimado entre US$ 120 mil e US$ 140 mil – equivalentes a R$ 624 mil a R$ 728 mil, aproximadamente, na cotação do dólar na época. Os policiais destacaram que, apesar de submetido a leilão em 8 de fevereiro de 2023, o kit não foi arrematado “por circunstâncias alheias à vontade dos investigados”.

    “Após decisão do TCU para que o kit fosse devolvido ao Estado brasileiro, os investigados internalizaram os bens, devolvendo-os na data de 24 de março de 2023 na agência da Caixa Econômica Federal, na cidade de Brasilia/DF”, diz o relatório.

    Já o “Kit Ouro Branco” foi desmembrado. O relógio da marca Rolex que compunha o conjunto foi vendido com o relógio da marca Patek Phillipe, provavelmente recebido por Bolsonaro no Bahrein, segundo a PF. Os dois relógios foram vendidos por US$ 68 mil – valor que correspondia, na data do pagamento a R$ 346.983,60, em junho de 2022, disse a PF.

    Considerando apenas os relógios e os itens do “Kit Ouro Rose”, excluindo o restante do “Kit Ouro Branco” e as esculturas, os valores são estimados em até R$ 1.074.983.

    Após a repercussão das notícias envolvendo os presentes recebidos pelo governo e a decisão do TCU determinando a inserção dos presentes ao governo brasileiro para a União, a PF apontou que foi lançada uma operação de resgate para recuperar o Rolex, que foi recomprado pelo então advogado de Bolsonaro, Frederick Wassef.

    A investigação aponta que, diferentemente dos itens do “Kit Ouro Branco”, que inclui o Rolex, o relógio Patek Phillipe sequer chegou a passar pelo trâmite burocrático do Gabinete Adjunto de Documentação Histórica. “Tal fato explicaria não ter existido, ao contrário dos demais itens desviados, uma “operação” para recuperar o referido bem, pois, até o presente momento, o Estado brasileiro não tinha ciência de sua existência”, disseram os policiais.

    Os demais itens do “Kit Ouro Branco” – anel, abotoaduras e rosário islâmico – foram “vendidos (ou expostos à venda)” – em uma joalheria de Miami. Sem indicar quanto valeriam os itens do kit sem o Rolex, os policiais afirmam que Mauro Cid os recuperou em 27 de março de 2023.

    Por fim, as esculturas douradas e uma palmeira e de um barco foram encaminhados por Mauro Cid para vários estabelecimentos especializados nos Estados Unidos, para avaliação e tentativa de venda, mas, como aponta a PF, “os bens não possuíam o valor patrimonial esperado pelos investigados”.

    Apesar de a PF indicar o valor histórico-cultural dos itens “considerando o contexto diplomático e respeito aos países que presentearam o Brasil”, os itens tinham baixo valor em dinheiro. Cid inclusive disse que o ex-presidente desistiu de ficar com as duas esculturas porque elas eram de latão.

    O que diz a defesa de Bolsonaro

    O advogado Fábio Wajngarten, que atua na defesa de Jair Bolsonaro, disse à CNN que ele e seus colegas do time jurídico do ex-presidente não sabiam da operação de recompra de um relógio Rolex nos Estados Unidos.

    De acordo com Wajngarten, que foi secretário de comunicação do governo Bolsonaro, ele estava dando uma orientação jurídica a Cid sobre como proceder, mas desconhecia o paradeiro das joias.

    “A defesa não sabia. Eu estava ali para orientá-los a se antecipar a uma decisão que o TCU tomaria, pegar as joias e entregar. Só isso. Eu não sabia onde elas estavam”, afirmou à CNN.

    Questionado o motivo de não ter perguntado o paradeiro das joias, Wajngarten afirmou que não cabia a ele essa pergunta naquele momento.

    A CNN aguarda posicionamentos dos demais envolvidos.