Testemunha: se tivessem seguido protocolo à risca, 8/1 não teria acontecido

Cintia Queiroz de Castro, ex-subsecretaria de Operações Integradas da Secretaria de Segurança Pública do DF, depôs como testemunha de defesa do ex-ministro Anderson Torres

Gabriela Boechat e Manoela Carlucci, da CNN, Brasília e São Paulo
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Em depoimento à Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), a ex-subsecretária de Operações Integradas da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal Cintia Queiroz afirmou que, se o Protocolo de Ações Integradas elaborado dias antes dos atos tivesse sido seguido à risca em 8 de janeiro de 2023, “com certeza” a invasão à sede dos Três Poderes não teria ocorrido.

A declaração foi feita durante oitiva nesta terça-feira (27) como testemunha de defesa do ex-ministro da Justiça Anderson Torres, no âmbito da investigação acerca de uma tentativa de golpe de Estado para após a derrota de Jair Bolsonaro (PL) em 2022.

Segundo Cíntia, que era subordinada a Torres na Secretaria de Segurança Pública do DF, ela soube que caravanas viriam de diferentes estados a Brasília por meio do WhatsApp e, apesar de não ter mais informações, convocou uma reunião para o dia 6, uma sexta-feira, para definir um plano de ação.

No encontro, foi elaborado um Protocolo de Ações Integradas, procedimento usual de segurança para grandes manifestações.

Ainda de acordo com Cíntia, o documento previa a proibição de que os manifestantes entrassem na Praça dos Três Poderes. Ela afirmou ainda que o protocolo foi aprovado por Torres.

Com base na declaração, o advogado Torres questionou a testemunha se, caso o protocolo tivesse sido seguido à risca, o 8 de Janeiro teria acontecido. “Com certeza não”, respondeu Cíntia.

 

 

Audiências

A Suprema Corte ouviu nesta tarde mais seis testemunhas arroladas por Anderson Torres. Conforme mostrou a CNN, o ex-ministro indicou mais de 30 testemunhas e a maioria será ouvida nesta semana. A lista inclui ex-ministros, delegados da Polícia Federal e ex-colegas na Secretaria de Segurança Pública do DF.

Na sessão que começou às 14h desta terça, depoentes confirmaram que uma das diretrizes para as eleições de 2022 era a atuação ostensiva da PF no maior número possível de municípios.

Uma das testemunhas afirmou ainda que Torres, ainda como ministro, pediu às polícias responsáveis pela segurança das eleições que não “esmorecessem” e continuassem a atuar com “o mesmo ímpeto”. A declaração teria sido feita em reunião entre o primeiro e segundo turno das eleições presidenciais.

Outros depoentes negaram ter ouvido qualquer ordem de "policiamento direcionado", orientação para beneficiar candidatos ou menções de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por parte de Torres nas reuniões que tratavam do policiamento das eleições.

Durante a sessão da manhã, o ex-diretor-adjunto da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Saulo Moura afirmou que o órgão alertou o governo federal, antes dos atos de 8 de janeiro de 2023, sobre o risco de invasão ao Congresso Nacional e a outros prédios da Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Já o ex-diretor de operações da Polícia Rodoviária Federal (PRF) Djairlon Henrique Moura confirmou que recebeu ordens do Ministério da Justiça para fazer blitz em ônibus que tinham o Nordeste como destino em dias próximos às eleições.

Anderson Torres

Torres é réu na Suprema Corte pelos crimes de golpe de Estado, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa.

Durante as investigações, a chamada “minuta do golpe”, que descrevia o plano golpista, foi encontrada na casa do ex-ministro, que, por sua vez, diz que o “papel não foi para o lixo por mero descuido”.

Ele chegou a ser preso durante operação da Polícia Federal, mas foi solto logo depois por determinação do ministro Alexandre de Moraes.