Vorcaro afirma não ter se preocupado com a origem de crédito vendido ao BRB
O banqueiro disse que a Tirreno atuava como intermediária e que não tinha conhecimento sobre as operações

O banqueiro Daniel Vorcaro afirmou à Polícia Federal que não “se preocupou” com a origem das carteiras de crédito supostamente fraudulentas e sem lastro vendidas ao BRB (Banco de Brasília) no valor de R$ 12,2 bilhões.
A declaração foi dada em dezembro, durante depoimento prestado no inquérito que investiga fraudes relacionadas ao Banco Master. A CNN teve acesso à oitiva.
As carteiras teriam sido geradas pela empresa Tirreno e repassadas pelo Banco Master ao BRB. Durante o depoimento, Vorcaro foi questionado se havia verificado o capital social da Tirreno, que alegava possuir R$ 30 milhões, valor que, segundo o Banco Central, nunca foi identificado em movimentações financeiras.
“Acredito que não. Na prática, o banco não tinha ingerência nem se preocupava com isso”, respondeu. Segundo ele, foi realizada apenas uma análise de compliance.
“Considerando que a Cartos nega ter vendido carteiras à Tirreno, a Tirreno nunca movimentou dinheiro, portanto nunca pagou à Cartos, e o Master nunca pagou efetivamente à Tirreno, de onde vieram as carteiras de crédito que o Banco Master vendeu ao BRB por R$ 12,2 bilhões?”, questionou a delegada responsável pela investigação.
Em resposta, Vorcaro afirmou que a Tirreno atuava como intermediária e que ele não tinha conhecimento específico sobre as operações.
“Eu não tenho informação, pelo que vi nos autos, de que existiam 18 parceiros originadores. Mas o que eu sei é que a transação não foi efetivada. Então, a gente não se preocupou em aprofundar ainda mais nessas carteiras”, disse.
Diante da ausência de pagamentos ao longo da cadeia — Cartos, Tirreno e Banco Master —, a delegada ponderou que a “única explicação lógica” seria a criação artificial das carteiras, caracterizando créditos falsos, e perguntou se o banqueiro concordava com essa conclusão.
Vorcaro afirmou não ser possível confirmar se as carteiras eram fraudulentas.
“Não concordo. Volto a dizer que eu não sei dessas operações. A gente não aprofundou as operações na ponta, quantas eram boas ou quantas estavam com documentação incompleta, porque a transação final não foi realizada. Ela acabou sendo feita com outros ativos junto ao BRB, não com essas carteiras. Então, não posso afirmar que as carteiras eram falsas. O que posso afirmar é que a transação não existiu, nem no pagamento à Tirreno nem na venda ao BRB”, declarou.
O banqueiro informou ainda que identificou a saída de um dos sócios da Cartos, empresa que, segundo ele, “sempre trabalhou com agente” com experiência no ramo de crédito. De acordo com Vorcaro, o sócio estaria criando uma empresa voltada à originação de crédito.
“[Ele] está criando empresa justamente para isso, para focar na originação e nesse novo negócio, nova possibilidade que seria para ele também de originar crédito para o BRB na conta final”, afirmou.
Vorcaro recordou que foi apresentado à Tirreno por Henrique Peretto, dono da Cartos. Disse ainda que tinha conhecimento de que se tratava de uma empresa recém-criada, mas que reconhecia a “expertise de vendas” do sócio.
“Foi mais pela pessoa do que pela empresa”, afirmou.
A delegada relembrou que a Tirreno foi constituída em 4 de novembro de 2024 e que o Banco Master celebrou o contrato de parceria apenas três dias depois. Ela questionou por que o banco firmou a parceria, uma vez que a empresa não possuía histórico operacional nem movimentação financeira.
Em resposta, Vorcaro disse que o objetivo era “fazer parceria com as pessoas, independentemente de qual veículo utilizassem”, e que a empresa teria sido criada especificamente para essa finalidade.


