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    Wajngarten confirma demora na aquisição de vacinas, mas exime Bolsonaro de culpa

    Durante a comissão, o relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), chegou a pedir a prisão do ex-secretário especial de Comunicação da Presidência

    Foto: Pedro França/Agência Senado

    Renato Barcellos, da CNN, em São Paulo

    No dia mais tenso de depoimentos, a Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia de Covid-19 ouviu o ex-secretário especial de Comunicação Social da Presidência da República, Fabio Wajngarten, nesta quarta-feira (12).

    Ele foi incluído no plano de trabalho da comissão após uma entrevista à revista Veja, em que responsabilizou o Ministério da Saúde, durante a gestão de Eduardo Pazuello, pela demora na compra das vacinas da Pfizer.

    Durante a oitiva, Wajngarten confirmou que o Palácio do Planalto demorou dois meses para responder uma carta em que a farmacêutica Pfizer prometia fornecer vacinas ao Brasil, mas eximiu a responsabilidade do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no caso.

    Ainda no decorrer da sessão, o relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), acusou o ex-secretário de mentir à comissão e pediu a prisão dele. O pedido, no entanto, foi negado pelo senador Omar Aziz (PSD-AM), presidente da CPI. 

    No depoimento, Fabio Wajngarten também afirmou que não partiu da Secom a decisão de suspender as entrevistas coletivas diárias do Ministério da Saúde com dados sobre a pandemia e ressaltou que não havia segurança jurídica para a assinatura, ainda em 2020, do contrato com a Pfizer para a compra de vacinas. Conforme o relato do ex-secretário, o número de imunizantes disponibilizado pela farmacêutica americana era “vexatório”.

    Veja a seguir os principais pontos do depoimento de Fabio Wajngarten à CPI nesta quarta-feira:

    Carta da Pfizer e tratativas com a farmacêutica

    Ao ser questionado sobre o envio da carta da farmacêutica Pfizer ao governo federal, o ex-secretário afirmou que teve conhecimento da carta no dia 9 de novembro por meio do CEO da farmacêutica.

    A carta da Pfizer, no entanto, foi enviada ao presidente Jair Bolsonaro e membros do governo federal em 12 de setembro. 

    “Eu recebi essa carta em 9 de novembro, e até esse dia ninguém havia respondido essa carta”, disse.

    Em janeiro, o analista da CNN Caio Junqueira teve acesso com exclusividade a carta encaminhada pelo CEO mundial da Pfizer, Abert Bourla, ao presidente Bolsonaro.

    Embora tenha demorado dois meses para responder à Pfizer, Wajngarten contou que o Brasil não assinou o contrato com a farmacêutica para obter vacinas contra a Covid-19 porque não havia segurança jurídica. Ele ressaltou que nunca participou diretamente das negociações e que, portanto, não sabia dizer se houve algum responsável por dificultar as negociações.

    Quando perguntado pelo senador Ciro Nigueira (PP-PI) sobre se a quantidade de doses ofertadas pela Pfizer seria o suficiente para imunizar a população brasileira neste primeiro semestre, o ex-secretário disse que o número de imunizantes disponibilizado pela farmacêutica americana era “vexatório”. 

    “A quantidade que a Pfizer ofereceria, em tese, para o Brasil eram vexatórias, indescritíveis. Quando a diretora jurídica disse a mim que ia conseguir 500 mil doses, eu disse que isso era menos que um bloco na Avenida Paulista em São Paulo, e que não iria continuar a conversa se não mudasse a postura”.

    Renan Calheiros pede a prisão do ex-secretário

    Por volta das 11h50, a sessão foi interrompida por cerca de 5 minutos por Aziz para que Wajngarten fosse aconselhado por seu advogado. A decisão foi tomada após o presidente da CPI e o relator acusarem o ex-secretário de mentir aos membros do colegiado em seu depoimento.

    Na retomada do depoimento, Renan Calheiros questionou quem teria instruído o presidente Bolsonaro sobre as decisões em relação às negociações com a Pfizer e Wajngarten disse desconhecer essa questão.

    Às 16h25, o senador alagoano voltou a subir o tom e pediu a prisão do ex-secretário. O pedido, endossado pelo senador Fabiano Contarato (Rede-ES), foi feito após Wajngarten negar que tenha autorizado a veiculação da campanha “O Brasil não pode parar”. Logo após a declaração, Renan mostrou as peças publicitárias divulgadas em perfis oficiais do governo.

    No entanto, o presidente da CPI afirmou que não daria voz de prisão a Wajngarten e disse que não é impondo o encarceramento de alguém que a “CPI vai dar resultado”. 

    “Ele foi chamado aqui como testemunha. Com Randolfe [Rodrigues] e Alessandro [Vieira], ele não mentiu nenhuma hora. Temos que ter muita cautela pra não sermos um tribunal que está condenando. […] Se depender de mim eu não vou mandar prender Wajngarten. Não quero ser injusto com alguém porque não quero fazer com os outros o que não gostaria que fizessem comigo”, declarou.

    Fim das entrevistas coletivas e omissão de dados

    O ex-secretário disse que não partiu da Secom a decisão de suspender as entrevistas coletivas diárias do Ministério da Saúde com dados sobre a pandemia. 

    “No período de [Nelson] Teich, eu o incentivava a falar. Desconheço essa orientação. Além das coletivas, tinham varias outras formas de passar informações para a população. Sempre incentivei as informações para a população”.

    Ele também afirmou desconhecer de onde teria partido a decisão de mudar a forma de divulgação de dados sobre a pandemia.

    “Não tive conhecimento disso e a Secom nunca foi consultada sobre. Eu soube que teve um consórcio que se formou e eu sou muito a favor disso”.

    Campanhas mensais de informação

    Wajngarten descreveu, mês a mês, as 11 campanhas de comunicação realizadas pela Secom e pelo Ministério da Saúde entre os meses de fevereiro de 2020 e maio de 2021 – apesar de ele ter deixado o governo em março de 2021.

    “As campanhas foram plurais, multimeios. Tivemos 19,5 mil inserções em TV, cobertura nacional, em 54 emissoras. Rádio, com 272 mil inserções em 2.123 emissoras.[…] Tivemos mídia exterior digital – painéis eletrônicos interativos – 152 milhões de inserções; mídia exterior estática, sem digital, mais de 3 mil pontos pelo país. Internet e banner: 1,1 bilhão de exibições; internet e vídeo: 375 milhões de visualizações das campanhas”, completou.

    Ele ressaltou ainda que há uma “impressão equivocada” ao dizer que o governo não comunicou durante a pandemia. “Por que passa a impressão que não comunicou? Porque a comunicação evoluiu, estamos na bolha de Brasília. Aqui estamos na guerra do Zap [em referência ao WhatsApp], na guerra da informação, quando a grande população longínqua nem sequer tem acesso à internet”.

    “Por que passa a impressão que não comunicou? Porque a comunicação evoluiu, estamos na bolha de Brasília. Aqui estamos na guerra do Zap [em referência ao WhatsApp], na guerra da informação, quando a grande população longínqua nem sequer tem acesso à internet”.

    Interferência na Secom

    Perguntado pelo relator se teve liberdade para estabelecer as estratégias de comunicação da presidência, Wajngarten relatou que teve “toda a liberdade possível” para comandar a secretaria especial de Comunicação, “sem absolutamente nenhuma interferência de ninguém”.

    Ele disse ainda que deixou a família em São Paulo para ir morar em um hotel de Brasília e que, portanto, “ao menor sinal de interferência teria ido embora”.

    Ainda de acordo com Wajngarten, o trabalho da pasta durante o período da pandemia foi técnica e objetiva, “como desde o primeiro momento [no governo]”.

    Contas do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais

    Sobre o controle das contas do presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais, Wajngarten afirmou que nem ele, nem qualquer outra pessoa de sua pasta tinha qualquer tipo de interferência sobre o conteúdo.

    “Todos os perfis pessoais do presidente pertencem a ele, sem nenhuma interferência da Secom”, disse Wajngarten. O ex-secretário esclareceu também que o mesmo raciocínio de não interferência da Secom é válido para a conta do Ministério da Saúde na rede de microblog.

    Wajngarten disse ainda que, durante sua gestão, foi criado o perfil @SecomVC nas redes sociais, que alcançou bastante alcance e engajamento. “A área de digital da Secom cria os conteúdos desse perfil institucional da Secretaria de comunicação.”

    Impacto das declarações de Bolsonaro na população

    Questionado sobre a influência e o impacto das declarações do presidente Bolsonaro colocando em xeque o uso de vacinas, Wajngarten disse que elas impactam a população brasileira, mas que não são a única fonte de decisão das pessoas.

    “Tem muita gente que não ouve o presidente[…] Para cada pessoa que recebe a informação tem um impacto diferente. O que ele fala tem, sim, impacto, mas para cada pessoa tem um impacto diferente”, afirmou.

    O ex-secretário afirmou, porém, que os atos do presidente caberiam apenas a ele próprio e que não poderia especular ou imaginar o que se passa pela cabeça do presidente quando ele faz tais declarações.

    “Eu convivi com o presidente muito tempo muito próximo. Imagino que quando ele fala que não vai tomar vacina, ele vai aguardar porque quer tomar vacina junto com o último brasileiro. Eu, na posição dele, eventualmente faria a mesma coisa. Por isso lutei mito e continuo lutando, sou totalmente a favor das vacinas.”

    Bate-boca

    Por volta das 17h05, Calheiros e o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente da República, discutiram durante sessão. Flávio chamou o relator da comissão de “vagabundo”, o que gerou um encerramento da primeira etapa da oitiva com ânimos exaltados.

    “Imagina a situação. Um cidadão honesto ser preso por um vagabundo como Renan Calheiros”, afirmou Flávio. “Vagabundo é você que roubou dinheiro do pessoal do seu gabinete”, rebateu Calheiros. 

    O senador Flávio Bolsonaro reagiu após a pressão de senadores por medidas contra Fabio Wajngarten, acusado de mentir à CPI da Pandemia.

    A intervenção do filho do presidente aconteceu após o senador Humberto Costa (PT-PE) propor que a CPI enviasse ao Ministério Público a íntegra do depoimento do ex-secretário para uma investigação.

    Em entrevista coletiva após a discussão, Flávio Bolsonaro afirmou que, caso a CPI envie o depoimento de Wajngarten, vai pedir que os demais depoimentos já dados à comissão também sejam submetidos à Procuradoria.

    Requerimentos para convocar outras testemunhas

    Os trabalhos da CPI foram abertos nesta quarta-feira com uma questão de ordem do senador Marcos Rogério (DEM-RO) questionando quando serão votados os requerimentos de convocação para testemunhas relacionadas a possível fraudes com dinheiro público em estados e municípios.

    Aziz afirmou que esses requerimentos serão apreciados pela CPI a partir de junho, depois que forem ouvidas que as pessoas que já foram convocadas.

    “Estou aguardando que os pedidos de informação feito aos estados cheguem. No início de junho, depois de ouvidas as pessoas que já estão convocadas, será chamado o secretário de saúde do AM e, a posteriormente, serão encaminhados todos os requerimentos”.

    Mudança no depoimento da Pfizer

    O presidente da CPI da Pandemia confirmou à CNN que apenas Carlos Murillo, ex-CEO da Pfizer Brasil e atual CEO da empresa na América Latina, será ouvido na sessão de quinta-feira (13). 

    Inicialmente, estava previsto também a participação de Marta Díez, atual diretora-presidente da Pfizer no país. “A Marta, que é a atual CEO Brasil não participou das negociações e nem está no Brasil ainda. Por isso, teremos apenas a participação do Carlos Murillo”, disse Aziz.

    A agenda da CPI no site do Senado já foi atualizada apenas com o nome de Murillo na oitiva de quinta-feira.