Tupac falava sobre morrer jovem e seu assassinato ainda assombra os EUA

Promotores usam declarações públicas e livro de Keffe D como prova chave para provar que ele organizou a emboscada

Lisa Respers France, da CNN
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A morte de Tupac Shakur voltou à mente de muitas pessoas nos últimos dias, enquanto um homem é julgado pelo assassinato do rapper e ator, quase três décadas depois de ele ter sido morto a tiros.

A atenção renovada também é um lembrete de que Shakur pensava frequentemente sobre a própria mortalidade — e dizia isso em voz alta, repetidas vezes.

Em uma famosa entrevista à revista Vibe, concedida no ano anterior à sua morte, aos 25 anos, Shakur disse ao jornalista Kevin Powell: “Eu não tenho medo da morte.”

“Meu único medo é voltar reencarnado”, disse ele na época. “Não estou tentando fazer as pessoas pensarem que estou aqui fingindo, mas minha vida inteira vai ser sobre salvar alguém. Eu tenho que representar a vida.”

No fim, ninguém conseguiu salvar Shakur, que morreu dias depois de uma rajada de tiros atingir o carro que ele e Marion “Suge” Knight, cofundador da Death Row Records, dirigiam perto da Las Vegas Strip, em 7 de setembro de 1996, após uma luta de Mike Tyson no MGM Grand.

Um julgamento que levou décadas para acontecer

Duane “Keffe D” Davis, 63, é agora julgado por supostamente ter planejado o assassinato. Os promotores não afirmam que ele tenha disparado os tiros — eles alegam que Davis organizou a emboscada de dentro de um Cadillac branco que emparelhou com a BMW de Shakur, em retaliação a uma agressão anterior contra seu sobrinho, Orlando Anderson, no MGM Grand, após a luta.

O caso depende em grande parte das próprias palavras de Davis.

Ele falou abertamente — em entrevistas, no podcast VladTV e em uma autobiografia que escreveu em parceria, “Compton Street Legend: Notorious Keffe D’s Street-Level Accounts of Tupac and Biggie Murders, Death Row Origins, Suge Knight, Puffy Combs, and Crooked Cops” — sobre seu suposto envolvimento no crime.

A autobiografia de Davis, publicada em 2019, posteriormente se tornou uma importante peça de evidência no processo de assassinato contra ele, com os promotores recorrendo fortemente ao próprio relato publicado por ele sobre o tiroteio e a outras declarações públicas. Davis se declarou inocente e agora nega qualquer envolvimento, afirmando inclusive que não estava em Las Vegas naquela noite, em uma recente entrevista concedida da prisão à KLAS.

A estratégia da defesa parece semelhante à de rappers que exibem bravata em suas letras: o que ele disse no passado pode ser atribuído a exageros feitos para divulgar o livro.

Durante as declarações iniciais, o advogado de defesa de Davis disse aos jurados que não acreditassem nas declarações de seu cliente.

“Keffe D era conhecido por fazer isso”, disse ele, enquanto a palavra “merda” aparecia impressa em uma tela grande diante do júri.

Um cronista prolífico da própria morte

O poder das palavras está no centro do julgamento atual, mas também foi uma característica marcante da vida de Shakur.

Um letrista prolífico, ele usava constantemente sua música para elaborar seus pensamentos sobre a vida e a morte. Em “Smile”, rimou sobre querer transformar seu próprio funeral em uma festa e, em “Thugz Mansion”, lançada após sua morte, imaginou-se dizendo à mãe para não chorar porque estava bem no céu.

O fato de ainda haver músicas para serem lançadas depois de sua morte diz muito sobre a maneira como Shakur trabalhava.

Ele passava longos períodos no estúdio gravando, motivado, segundo seu meio-irmão Mopreme Shakur, pela sensação de que seu tempo era limitado.

Mopreme Shakur disse que, se você prestar atenção ao catálogo de Shakur, existe um fio constante percorrendo suas músicas — um “canto da morte”, como ele chamou, sempre voltando à mortalidade.

Segundo seu meio-irmão, Shakur estava longe de ser o único a pensar dessa forma: para muitos jovens negros de sua geração, a violência e a morte precoce não eram medos abstratos, mas uma possibilidade real e constante.

O tiroteio que mudou tudo

Shakur já havia sobrevivido a um episódio em que esteve perto da morte.

Em novembro de 1994, ele foi baleado várias vezes durante um assalto no saguão do Quad Recording Studios, em Manhattan. O ataque ajudou a alimentar a rivalidade do rap entre a Costa Leste e a Costa Oeste, que muitos acreditam ter contribuído posteriormente para seu assassinato.

Segundo um trecho do livro de Ben Westhoff, “Original Gangstas”, publicado pela Vice em 2016, Shakur passou a acreditar que um grupo que encontrou no estúdio naquela noite — incluindo o produtor Sean “Puffy” Combs e seu amigo próximo e também rapper Christopher Wallace, conhecido como Notorious B.I.G. — tinha participação na emboscada.

Shakur posteriormente descreveu o grupo como culpado e assustado quando subiu de elevador, ferido, e os encontrou ali, segundo o trecho do livro. Combs e Wallace negaram qualquer ligação, e Combs insistiu que haviam demonstrado apenas preocupação com Shakur.

As consequências se agravaram rapidamente.

Pouco depois do tiroteio, Shakur foi condenado por abuso sexual em um caso envolvendo uma jovem, Ayanna Jackson, que afirmou ter sido atacada na suíte de hotel dele em Nova York depois de os dois terem se conhecido anteriormente.

Condenado a um ano e meio de prisão enquanto aguardava recurso, com fiança estabelecida em US$ 3 milhões, Shakur procurou Knight em busca de ajuda.

Knight pagou a fiança de Shakur e o contratou para a Death Row Records, em Los Angeles, absorvendo a crescente animosidade de seu artista contra Combs, Wallace e o grupo ligado à Bad Boy Records, em Nova York.

A aliança transformou a rivalidade entre Costa Leste e Costa Oeste em algo muito mais perigoso — um conflito que mais tarde foi apontado, ao menos em parte, como responsável tanto pelo assassinato de Shakur quanto, menos de um ano depois, pelo assassinato ainda não solucionado de Wallace em Los Angeles, aos 24 anos.

Hora de pensar

A prisão deu a Shakur um tempo que ele não havia pedido.

“Eu sinto que esse período na prisão foi como um coma, só que eu pude pensar”, disse ele à CNN em 24 de outubro de 1995.

Ele descreveu observar o mundo se mover ao seu redor sem fazer parte dele.

Era uma descrição adequada para uma vida marcada por essa mesma tensão — a de um artista cujas letras duras sobre sobreviver nas ruas refletiam uma realidade da qual ele não conseguia escapar.

Criado na pobreza pela mãe, Afeni Shakur, ex-ativista dos Panteras Negras, ele entrou e saiu de problemas com a Justiça durante toda a sua curta vida adulta, incluindo um caso de 1993 em que atirou em dois policiais fora de serviço em Atlanta. As acusações foram posteriormente retiradas depois que surgiram evidências que enfraqueciam a versão dos policiais sobre o ocorrido.

Trinta anos depois, ainda sem conclusão

Quase 30 anos depois, o caso continua sem solução em seu sentido mais amplo.

Uma condenação, caso aconteça, responderia quem supostamente organizou o assassinato, mas possivelmente não quem disparou os tiros fatais. Muitas das pessoas que se acredita terem participado do assassinato de Shakur morreram desde então.

Para a família de Shakur, acompanhar o processo tem sido desgastante.

Seu meio-irmão falou sobre como tudo isso tem sido difícil para a família e disse à CNN que eles continuam “cautelosamente otimistas” em relação ao julgamento.

Mopreme Shakur e Sekyiwa Shakur, irmã de Tupac, estiveram na galeria do tribunal durante o início do julgamento. Eles decidiram sair antes que os promotores exibissem fotos gráficas da autópsia de Shakur no tribunal, na semana passada.

A amiga da família Tuere Burns inicialmente permaneceu no local, mas cobriu os olhos com a mão quando as primeiras fotos foram exibidas e depois deixou a sala do tribunal, visivelmente abalada.

Qualquer que seja o veredicto do julgamento, é provável que ele não encerre o fascínio duradouro por Shakur, que escreveu e cantou sobre a morte com tanta frequência e de maneira tão específica que, em retrospecto, suas obras podem parecer quase uma profecia.

Mas o fio mais verdadeiro que atravessa sua música estava tanto relacionado à urgência quanto à morte. Ele tratava cada verso como se pudesse ser o último, porque, em algum nível, suspeitava que seria.

Três décadas depois, seus ouvintes ficaram com seus pensamentos sobre como ele acreditava que tudo terminaria.

“Acredito que Deus abençoa a gente. Acredito que Deus abençoa aqueles que batalham, aqueles que usam a mente e aqueles que, no geral, são justos”, disse ele em uma entrevista amplamente compartilhada nas redes sociais. “Acredito que seu carma, tudo de ruim que você faz, volta para você. Então, qualquer coisa ruim que eu esteja fazendo, vou ter que sofrer por isso, mas, no meu coração, acho que o que estou fazendo é certo, entende? Então sinto que vou para o céu.”

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