Novos treinamentos de IAs geram destruição em massa de livros; entenda
Grandes empresas começaram a comprar milhões de exemplares, cortar lombadas, descartá-los nos últimos meses
Livros antigos, incluindo edições raras e exemplares de difícil acesso, estão sendo destruídos em larga escala para alimentar o treinamento de ferramentas de inteligência artificial ao redor do mundo.
O processo, que já vem acontecendo há algum tempo, envolve a compra de milhões de obras por grandes empresas do setor de tecnologia, que são utilizadas como parte essencial da programação de respostas "mais humanas" das plataformas.
Os livros adquiridos são enviados a empresas especializadas, onde passam por um procedimento industrial no qual a lombada é cortada por uma máquina, as páginas são escaneadas em alta velocidade e, em seguida, o material físico é direcionado para reciclagem.
Segundo os defensores da técnica, esse método é adotado por ser muito mais eficiente do que escanear as páginas uma a uma manualmente.
As empresas buscam preferencialmente exemplares publicados antes de 2022, ano em que as principais ferramentas de inteligência artificial chegaram ao mercado.
A razão é lógica: utilizar conteúdos produzidos após essa data apresentaria um alto risco de treinar os sistemas com material já gerado pelas próprias IAs, o que poderia provocar um colapso no funcionamento dessas ferramentas.
O fenômeno começou a chamar atenção quando livreiros de países como Suíça, Alemanha e Holanda passaram a relatar encomendas incomuns. Em um dos casos, uma empresa de Singapura solicitou a compra de três mil livros de uma só vez, o que gerou estranhamento no dono.
A prática também gerou disputas judiciais nos Estados Unidos, em que, em primeira instância, um juiz entendeu que o uso de obras adquiridas legalmente poderia ser enquadrado como "fair use".
No entanto, também foram identificadas ocasiões de uso de obras pirateadas, consideradas ilegais. Uma das companhias envolvidas chegou a pagar um bilhão e meio de dólares em acordo por esses usos irregulares.
Destruição de acervo e concentração de conhecimento
O problema vai além da destruição física dos livros. Ao serem processados, os textos não ficam disponíveis para consulta pública; eles se tornam "uma interpretação matemática de aprendizado". Fazendo com que o conteúdo intelectual dessas obras passe a ser detido exclusivamente por empresas privadas, sem que autores, leitores ou a sociedade tenham acesso às fontes originais.
O tema ganhou ainda mais visibilidade após o empresário Elon Musk publicar nas redes sociais uma declaração em que ele afirma ter pedido à equipe da SpaceX que preservasse livros raros em uma biblioteca e os digitalizasse "do jeito difícil", sem cortar as lombadas.
Na web, internautas teceram diversas críticas à prática e destacaram o quão prejudicial ela pode se tornar no futuro. Alguns especialistas chegaram ainda a destacar que as filmagens podem incitar mais destruição e a normalização do processo prejudicial à indústria literária.


