Francesca de “Quem Ama Cuida”: o que é real ou falso, segundo o espiritismo

Espírito da cozinheira circula pelo mundo dos vivos, sopra palavras no ouvido de pessoas, abre e fecha portas, mas será que tudo isso realmente existe no mundo espírita?

Felipe Carvalho, da CNN Brasil
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A personagem Francesca, interpretada por Nathalia Dill em "Quem Ama Cuida", não tinha planos de ser um espírito que circula no mundo dos vivos, mas o público da novela das 9 comprou essa ideia e ela tem aparecido cada vez mais na trama, e vários mistérios envolvem a vida antes e pós-morte dela.

Escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, a personagem foi a cozinheira da mansão de Arthur Brandão (Antonio Fagundes) enquanto estava viva e, até o momento, não há explicações sobre como foi a morte de Francesca. Tudo o que se sabe é que ela é o espírito da mãe de Joel (Ricardo Teodoro), que morreu no dia 4 de janeiro de 2006.

A CNN convidou Sula Gallão, estudiosa da doutrina espírita, para responder algumas dúvidas sobre o que é ficção e o que é realidade na história da personagem misteriosa da novela. As respostas são baseadas de acordo com o "Evangelho Segundo o Espiritismo" e "O Livro dos Médiuns", ambos de Allan Kardec.

O que é real ou falso, segundo o espiritismo?

Francesca se manifestou e Otoniel a tocou. Uma pessoa viva poderia tocar a “pele do espírito” e sentir que está gelada?

Não há possibilidade de "sentir o toque" de um espírito. Nós somos feitos de energia. Nosso corpo é composto por uma energia muito concentrada, resultando na matéria física, palpável. Quanto maior a concentração da energia, mais densa será a matéria. Já os espíritos são de matéria muito fluida, pois deixaram de habitar o corpo físico, que é matéria densa. Os corpos deles são mais sutis, fluidos como o gás, por exemplo. Por este motivo, nosso corpo físico não consegue "sentir uma pele gelada" de um outro corpo formado por essa matéria mais fluida [como Otoniel sentiu].

Qualquer pessoa que não tenha uma mediunidade trabalhada (em centros espíritas ou de outro modo) pode ver o espírito de alguém que já morreu?

Sim, pode. Estar em um centro espírita ou outro estudo espiritualista não é sinônimo de "passe livre" para ter contato com o mundo dos espíritos. A grosso modo, se a sensibilidade da pessoa encarnada (que tem um corpo físico) for bem aflorada, ela pode sentir com outro sentido (que não o físico). Por exemplo: quando alguém sente uma forte emoção repentina, vontade de chorar ou sensação de contato em alguma parte do corpo, isso pode ser a presença do desencarnado (sem o corpo físico).

Ainda não há informações sobre a morte de Francesca. Se ela foi assassinada, o espírito teria autorização para revelar aos vivos “quem a matou”?

Geralmente o espírito se encontra confuso com a situação vivida em seus últimos momentos de vida física. Não há permissão para esse esclarecimento, pois aqui, na nossa vida comum, isso causaria um impacto muito grande, principalmente se considerarmos a enorme chance de a informação ser um equívoco. Estamos lidando com vidas e há de se ter muita cautela, porque ela pertence às Leis Divinas.

Iuri disse que "escutou" alguém dizendo "Diná" quando buscava pelo anel na mansão dos Brandão. Qualquer pessoa pode ter essa experiência mediúnica de escutar?

Sim, isso é inerente ao espírito. Todos estamos sujeitos a essa percepção, uns mais, outros menos. Uns bem mais, outros bem menos.

Francesca quebrou uma xícara, fechou e abriu portas e criou um vento em local fechado. Isso é possível?

Sim! Na verdade, não é "o espírito" quem faz (por movimento dele próprio), mas sim utilizando uma energia que chamamos de ectoplasma. Essa energia é fornecida pelos encarnados e, por ser mais densa que a energia do desencarnado, o espírito a utiliza para mover objetos.

Como podemos saber quando um espírito veio nos visitar?

Nem sempre podemos; posso até dizer que raramente. Estamos constantemente recebendo "visitas espirituais" e é difícil percebê-las. Como disse antes, depende muito da sensibilidade de cada pessoa. Quem quiser perceber, é importante se atentar a sinais como: lembrança repentina de alguém que já partiu, pensamentos que não são nossos, tanto bons quanto ruins. Outro modo é sentir o perfume no ar ou cheiro diferente, uma alegria ou tristeza repentina. Veja que tudo está ligado ao nosso autoconhecimento para que se saiba o que vem de mim ou não.

Por que o espírito de Francesca, que morreu há 20 anos, estaria vagando pelo mundo?

Uma pessoa já falecida, que não tenha resolvido suas questões emocionais mais agravantes, pode ficar o tempo que for necessário nesse estágio da vida do espírito. Enquanto não tiver o entendimento de que precisa ser ajudada e seguir outro caminho, ficará vivendo uma vida de repetição de atitudes e com o mesmo sentimento. A ajuda que vem dos espíritos guias sempre estará disponível, mas é necessário que o desencarnado aceite e queira ser ajudado.

Joel tem sentido saudade da mãe. Ficar chorando ou chamando pelo nome do espírito o prende na Terra?

Essa é uma das piores atitudes que podemos e devemos ter quando alguém que amamos parte. Nosso lamento, choro ou revolta funciona como uma espécie de "âncora" para aquele que partiu. Sentir e viver o luto é necessário para nossa alma, mas desesperar e agir apenas com a emoção é um atraso para ambos. Procurar ajuda espiritual se faz necessário como uma ferramenta fundamental para lidarmos com nossa dor e libertar o ente querido para seu caminho rumo ao Pai.

É possível uma pessoa encarnada se apaixonar por um espírito desencarnado, como Otoniel se encantou por Francesca?

Essa questão é bem complexa, mas ouso dizer que sim, pode ocorrer. Processos que chamamos de transtornos obsessivos espirituais ocorrem quando há desequilíbrio físico/mental/espiritual. Para isso, busque ajuda profissional de terapias cognitivas, espirituais e energéticas. Quanto ao espírito, o processo obsessivo ocorre também de encarnado para desencarnado. Para compreender mais sobre o assunto, é preciso buscar esclarecimento na Doutrina Espírita.

Em uma possibilidade extrema, um espírito desencarnado pode tirar a vida de uma pessoa, como provocando um infarto de susto? Ou empurrando de uma sacada?

Veja que nas questões anteriores falamos sobre processos de obsessão espiritual, energia do encarnado que pode ser utilizada pelo espírito, então, podemos concluir que existe sim essa possibilidade, mas não com o "toque do espírito". Isso aconteceria por meio de sugestões mentais/emocionais e energéticas. Volto a ressaltar a importância do auxílio terapêutico nesses casos. Se alguém sente que tem pensamentos incomuns, não hesite em buscar auxílio. Sempre haverá alguém para ajudar, pode ter certeza. A espiritualidade ajuda quem quer ser ajudado. Deus sempre presente e nos ancorado, quando assim permitimos a Ele.

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