Água com sal, dez segundos sem ar: o que não se deve fazer contra o coronavírus


Alaa Elassar Da CNN
17 de março de 2020 às 09:28 | Atualizado 17 de março de 2020 às 14:28
Mulher usa máscara enquanto caminha por Londres de olho no celular

Mulher usa máscara enquanto caminha por Londres de olho no celular

Foto: Dylan Martinez - 17.mar.2020/ Reuters

Ao contrário do que muitos pensam, nem tudo o que está nas redes sociais é verdade. E acreditar em teorias sem uma base confiável pode ser muito perigoso. Nos últimos dias, por exemplo, têm circulado, na internet, “testes simples de auto-verificação” para detectar se você está ou não com o coronavírus. Especialistas alertam: as ideias são completamente equivocadas.

Escrita no que parece ser um aplicativo de anotações do iPhone, uma publicação - de três partes - alega falsamente, por exemplo, que uma pessoa pode descobrir se têm a COVID-19 simplesmente segurando a respiração por mais de 10 segundos. Se conseguir fazê-lo sem tossir, a indicação é que ela não tem o vírus.

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A dica, que começou a circular no Twitter, no Facebook e por e-mail na semana passada, foi falsamente creditada a um membro da “equipe médica do Hospital Stanford”. A porta-voz do Centro Médico de Stanford, Lisa Kim, disse à CNN que essa dica “perigosa” não está afiliada à instituição e “contém informação imprecisa”.

Para desmentir algumas teorias falsas, a CNN conversou com o Robert Legare Atmar, um especialista em doenças infecciosas da Escola de Medicina Baylor, no estado americano do Texas. Veja abaixo

Mito: Beber água protege contra o novo coronavírus. Alegação: “Se você não beber muita água regularmente, o vírus pode entrar na traqueia e nos pulmões.” Quem escreveu essa “dica” também disse que as pessoas devem beber água “a cada 15 minutos, pelo menos”, para limpar o vírus da garganta e do estômago, onde o ácido gástrico supostamente o mata.

Verdade: Atmar afirma que não há evidências que comprovem que isso funciona. “Mesmo que funcionasse, o que não acontece, as pessoas inspiram pelo nariz, não apenas pela boca”, disse. “Isso protegeria apenas a boca, e não o nariz.”

Mito: Fazer gargarejo com água e sal protege contra a CODIV-19. Alegação: “Uma simples solução de sal e água quente é o suficiente.” Além do gargarejo, a publicação também sugere que beber água quente pode matar o vírus.

Verdade: Com base em dados relacionados a outras viroses respiratórias, água salgada “não deve funcionar”, afirmou Atmar. Ao recomendar que se beba água quente, a publicação sugere que a temperatura da água inativa o vírus, o que Atmar garante que é inteiramente incorreto.

Mito: Se conseguir segurar a respiração por 10 segundos, você está bem. Alegação: “Respire fundo e segure a respiração por mais de 10 segundos. Se você conseguir fazê-lo sem tossir, sem desconforto, isso prova que não há fibrose nos pulmões, e basicamente indica que não há infecção.”

Realidade: Atmar ressalta que isso “não está correto”. “Quando alguém tem uma infecção viral, pode ser difícil respirar fundo e não tossir porque as vias respiratórias ficam irritadas. Isso é tudo que pode significar. Não tem nada a ver com fibrose, mesmo que as pessoas que tenham fibrose possam ter problemas ao fazer o tal teste. Conseguir segurar a respiração por 10 segundos também não significa que alguém não tem o novo coronavírus”.

Mito: Se o nariz está escorrendo, é apenas um resfriado. Alegação: “Se você está expectorando e com o nariz escorrendo, é um resfriado comum. A pneumonia do novo coronavírus é uma tosse seca sem nariz escorrendo.”

Verdade: Isso não é completamente verdade. Nariz escorrendo pode ser um sintoma de gripe, alergias ou outras doenças. E apesar de muitos pacientes com COVID-19 apresentarem tosse seca, os que têm pneumonia resultante da doença também podem apresentar uma tosse “molhada” que produz catarro, de acordo com Atmar.

Mito: Se você tem o novo coronavírus, contrairá pneumonia. Alegação: “O vírus gruda no fluido nasal que entra na traqueia e, depois, nos pulmões, causando pneumonia.” A publicação também diz que o vírus infecta primeiro a garganta, o que dá aos pacientes dor de garganta por três a quatro dias antes de grudar no fluido nasal.

Realidade: Isso também não é preciso. O tempo para os sintomas do novo coronavírus aparecerem varia de paciente para paciente, e nem todos apresentam dor de garganta, segundo Atmar. Além disso, nem todo mundo com dor de garganta tem o novo coronavírus, e nem todos os pacientes com COVID-19 irão desenvolver pneumonia.

Mito: Pacientes com o novo coronavírus têm uma sensação de afogamento. Alegação: “A congestão nasal não é do tipo comum. Você sente como se estivesse se afogando”.
Realidade: Não é verdade. “Isso não se parece com qualquer outro vírus respiratório que infecta pessoas, e muitos pacientes com o novo coronavírus não têm infecção nasal”, disse Atmar.

Mito: Quando uma pessoa com COVID-19 é hospitalizada, os pulmões já têm fibrose. Alegação: “Quando o paciente apresenta febre e/ou tosse e vai ao hospital, normalmente 50% do pulmão já está com fibrose e é tarde demais”.

Realidade: É totalmente incorreto. “Essa informação é extremamente alarmista”, afirmou Atmar. “A fibrose se desenvolve apenas na minoria dos pacientes, e 80% dos que têm o novo coronavírus apresentam somente os sintomas leves da doença.” A fibrose é uma cicatriz irreversível nos pulmões, o que pode levar a uma falha respiratória.

O período de incubação para a COVID-19, explicou Atmar, é de 2 a 14 dias. Os sintomas costumam aparecer entre 5 e 6 dias após a exposição ao vírus, com a primeira semana de tosse, dor de garganta, febre e dor nos músculos. Apenas a minoria dos pacientes tem uma segunda semana de sintomas respiratórios severos e corre risco de ter fibrose.

Enquanto o novo coronavírus é um problema que todo o mundo deveria levar a sério, a disseminação de informações falsas pode ser perigosa e mortal. Se você não tem certeza se o que está lendo sobre a doença é verdade, a melhor coisa a fazer é checar com o departamento de saúde local - e não nas redes sociais.