Mandetta e secretários adotam tom de despedida e falam em transição

Cotado para substituir o atual ministro, secretário-executivo João Gabbardo indica que não aceitaria o cargo

Guilherme Venaglia Da CNN, em São Paulo
15 de abril de 2020 às 20:04
O secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e o secretário-executivo João Gabbardo
Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

A entrevista coletiva feita diariamente pelo Ministério da Saúde ganhou nesta quarta-feira (15) tom de despedida. Diante da possibilidade de mudança no comando da pasta, o ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM) afirmou que orientou seus secretários a auxiliarem um sucessor em eventual transição.

"Eu já pedi essa conduta a todos os secretários. Se vier outra pessoa, se precisar, é para ajudar, é para permanecer", disse o ministro, que ponderou, no entanto, que a sua saída deve representar uma mudança na equipe que atua na pasta.

"Todos aqui exercem cargos de confiança e todos eles foram convidados por mim. É uma equipe técnica, mas é claro que todos eles coloquem os cargos à disposição. Eu não sou dono da vida e do futuro de absolutamente ninguém", disse.

O ministro Luiz Henrique Mandetta confirmou uma informação antecipada pela CNN, de que conversou com os ministros Walter Braga Netto (Casa Civil) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), próximos ao presidente Jair Bolsonaro, para dizer que não teria problemas em permanecer enquanto nomes são buscados. Disse que foi sondado por possíveis ocupantes do cargo, sem citar nomes.

O ministro da Saúde e o presidente da República manifestam visões diferentes a respeito das ações de combate à pandemia do novo coronavírus. Mandetta é defensor de medidas de isolamento social, criticadas por Bolsonaro, e cético a respeito do uso da hidroxicloroquina. Ele definiu as divergências como sendo um "descompasso". "Eu não estou contra ninguém, são visões diferentes", afirmou.

Equipe

Presentes à coletiva, o secretário-executivo João Gabbardo e o secretário de Vigilância em Saúde, Wanderson Oliveira, indicaram que sairiam. O ministro Luiz Henrique Mandetta disse que a sua equipe hoje "é praticamente uma família" e que recusou pressões para que integrantes dela, incluindo os próprios Gabbardo e Wanderson, fossem demitidos ao longo desses 16 meses.

"Eu conheci o ministro Mandetta em dezembro de 2018. Fui convidado com o ministro na transição, nunca tinha estado com o ministro Mandetta, fui convidado por ele, tenho compromisso. O dia que o ministro sair, eu saio com ele", disse Gabbardo, que tem o seu nome cotado para assumir o comando do Ministério da Saúde.

O número dois da pasta não disse diretamente o que faria caso fosse convidado a ficar no lugar do atual chefe, mas se colocou à disposição para participar de uma transição. 

"Se o presidente indicar uma nova equipe, eu não vou abandonar o barco. Eu vou ficar no Ministério da Saúde para fazer a transição, com toda a tranquilidade, porque eu tenho consciência que a população espera a continuidade do nosso trabalho. E nós não podemos interromper isso, nem que seja por duas semanas ou três semanas", afirmou.

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Distanciamento social

Responsável pela estratégia de combate à COVID-19, o secretário Wanderson Oliveira, que chegou a encaminhar uma mensagem aos seus auxiliares comunicando a sua saída do cargo, reiterou que ficará na posição "até o final", ao lado do ministro Luiz Henrique Mandetta.

Questionado se encaminharia diretrizes a serem adotadas em sua ausência, Oliveira afirmou ter confiança nos técnicos do deparamento. "Nenhum de nós é insubstituível. A equipe da Secretaria de Vigilância em Saúde é uma equipe extremamente qualificada. Muito forte, muito robusta. E o trabalho vai ser sempre continuado".

O secretário, no entanto, deixou claro que a sua política é favorável ao distanciamento social, que entende que as medidas de quarentena estão sendo importantes para reduzir o número de casos, mas que esse resultado precisa de mais tempo para se consolidar. "É mais difícil para a população entender, porque o êxito da medida não se dá no momento em que ela acontece", argumentou.

Hidroxicloroquina

O ministro Luiz Henrique Mandetta adotou um tom de mais confronto a respeito da hidroxicloroquina, medicamento tradicionalmente utilizado para o tratamento de malária e artrite reumatóide que está sendo estudado como possível substância para pacientes com a COVID-19.

O ministro Mandetta bateu novamente no ponto de que a hidroxicloroquina tem, entre seus efeitos colaterais, a incidência de arritmias cardíacas. Portanto, ele disse ser contra a utilização da substância fora do que já é recomendado, em casos de pacientes internados em hospitais.

"Por que em quem está hospitalizado? Porque você monitora. Por que monitora? Porque essa droga acelera o coração. Quais são os pacientes que se quer preservar? Pacientes de 60, de 70 ou de 80 anos, que podem desenvolver as formas mais graves da doença. Essas pessoas são as que mais podem morrer por arritmias e a cloroquina", disse o ministro, que ponderou que médicos podem receitar o medicamento em qualquer situação, desde que conscientizem os pacientes a respeito do risco.

"Agora, o Ministério da Saúde fazer um protocolo e ele, Ministério da Saúde, recomendar o uso geral da cloroquina para pessoas fora de ambiente hospitalar e acima de 60, 70 ou 80 anos... Por que isso vai solucionar o problema? É o que Hipócrates diz: demonstre", disse.

O ministro Mandetta ainda comentou a suspensão de parte de um estudo com a hidroxicloroquina em Manaus (AM), que deixou de utilizar uma dose mais alta da substância em seus pacientes após a morte de 11 pessoas e a incidência de casos de arritmias cardíacas.