Brasil pode se tornar o país com mais casos de Covid-19 no mundo, diz Mandetta


Da CNN, em São Paulo
13 de maio de 2020 às 17:39 | Atualizado 14 de maio de 2020 às 10:09

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta afirmou nesta quarta-feira (13), durante entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional, que o Brasil pode atingir o patamar de 1.000 mortes ao dia por Covid-19 e se tornar o país com maior número de casos da doença no mundo. Mandetta também criticou o presidente Jair Bolsonaro por defender a volta da população ao trabalho em meio à pandemia.

"Ele fez o que ele quis fazer, mas a história vai dizer quem estava errado e quem estava certo", disse Mandetta sobre Bolsonaro.

O ex-ministro disse que, em uma escala de zero a dez, está "preocupado no nível dez" com a evolução do novo coronavírus no Brasil. 

"Os números falam por si só. Nós temos subido e subido no número de mortos, e provavelmente nessa semana ou na próxima teremos mil mortes por dia", disse. 

Até a noite de terça-feira (12), o Ministério da Saúde tinha registrado 12.400 pessoas mortas por Covid-19 no Brasil e 177.589 casos confirmados da doença.

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Críticas a Bolsonaro

Mandetta foi questionado por Amanpour sobre a conduta do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) diante do enfrentamento da pandemia e disse que reclamou com seu antigo chefe "por mais de um mês".

"Uma das coisas que me manteve no cargo, mesmo que eu tenha reclamado com ele sobre seu comportamento por mais de um mês, foi que eu podia falar com a população. A população brasileira sabe o que está acontecendo e sabe o que tem que fazer", disse o ex-ministro.

Segundo Mandetta, a OMS (Organização Mundial da Saúde) "precisa falar diretamente com essa população, e não com os governantes."

"Os governantes só pensam na economia e em voltar ao trabalho. Isso está acontecendo no Brasil e nos EUA, a comunidade latina nos EUA também está sofrendo. As favelas no Rio são lotadas, temos problemas respiratórios como tuberculose. A mensagem da OMS é confusa com essa população, eles precisam falar direto com elas, e não com políticos", afirmou. 

Mandetta lembrou que o presidente americano, Donald Trump, "voltou atrás em sua mensagem quando viu que o vírus poderia ser muito mortal nos EUA".

"Infelizmente, ele [Bolsonaro] é um dos poucos líderes que continua mantendo esse discurso de que as pessoas devem voltar, e que as pessoas deveriam se preocupar com o trabalho, e que ficar em casa traz mais problemas do que sair, essa é a mensagem dele. Trump pelo menos voltou atrás em sua mensagem de dizer que era simplesmente uma gripe, e reconheceu o vírus”. 

Demissão

Mandetta afirmou que opiniões divergentes levaram à sua saída do Ministério da Saúde, em abril. Ele disse que, como ministro da área da saúde, considerou que deveria seguir a academia e os especialistas. 

“Houve razões que levaram a esse ponto (a demissão), opiniões diferentes sobre situações iguais, eu não conseguia lidar com ele dizendo para as pessoas voltarem a trabalhar e dizendo que era uma simples gripe. Eu era ministro da Saúde, eu sigo a academia e os especialistas. Então, obviamente estamos em lados diferentes. Ele fez o que ele quis fazer, mas a história vai dizer quem estava errado e quem estava certo. Eu acredito que o Brasil pode se tornar o país com mais casos de coronavírus no mundo”, afirmou Mandetta.