'A doença já deixou de fazer a curva, é uma reta ascendente', diz infectologista

Infectologista Jean Gorinchteyn destaca a ameaça da Covid-19 para as crianças e recomenda que os pais não demorem a levá-las ao médico

Da CNN, em São Paulo
17 de maio de 2020 às 20:29

O infectologista Jean Gorinchteyn conversou com a CNN sobre as mais de 16 mil pessoas que, até o último registro, morreram vítimas do novo coronavírus no Brasil. Jean afirma que ainda não atingimos o pico da doença e orienta que as saídas rápidas para farmácia ou mercado sejam sempre fora do horário em que há mais circulação de pessoas nas ruas. “A gente acaba percebendo que horários das 10 horas da manhã às 4 horas da tarde têm muito mais pessoas na rua”, diz, reafirmando a importância do uso adequado das máscaras e do álcool gel.

Gorinchteyn orienta que as máscaras sejam trocadas a cada uma hora e meia, porque a umidade diminui a capacidade de impedir a permeação do vírus. 

A respeito dos estudos internacionais sobre a administração da hidroxicloroquina e da cloroquina, especialmente em pacientes em estado grave, o médico diz que é importante o Brasil ter seus próprios dados, baseado na observação de pacientes brasileiros. “É claro que vários estudos internacionais têm mostrado que usar ou não a medicação não tem tido grande efeito e tanto impacto em termos de melhora clínica ou redução da mortalidade. Mesmo assim os protocolos continuam nas várias unidades e sabemos que outros países, como a Suécia, interrompeu todos os protocolos de estudo em decorrência do aparecimento de manifestações graves, seja de perda de visão ou manifestações cardiológicas”, contextualiza.

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O infectologistas comenta sobre o processo de favelização no Brasil e seu impacto para a circulação do vírus levando em consideração a falta de estrutura social que as impedem de realizar o isolamento social, seja porque precisam trabalhar ou porque moram em casas precárias, além da falta de saneamento básico e abastecimento de água. “No município de São Paulo temos mais de 1.600 favelas, quando a gente fala favela, nem todas são comunidades organizadas, mas existem 420 mil endereços, às vezes de um cômodo só com oito a dez pessoas. A circulação desse vírus acaba sendo muito maior”.

As taxas de isolamento social caíram também nas regiões mais ricas da capital paulista, onde as pessoas, em geral, teriam o respaldo financeiro de permanecer em casa e trabalhar em home office, por exemplo. Gorinchteyn afirma que as pessoas sabem das consequências, mas por estarem cansadas de ficarem em casa, em quarentena, acabam saindo mesmo que rapidamente. “Temos uma outra questão que é o inimigo invisível. Se eu tenho um tiroteio, eu estou ouvindo o barulho dos tiros, sirene e pessoas gritando, consigo me conscientizar que eu deva ficar em casa. A partir do momento em que isso [a ameaça] não é palpável, não é visível, isso torna-se mais distante”. O médico faz o paralelo e explica que muitas pessoas negligenciam por não ter ninguém próximo que foi contaminado, com isso, a doença parece se tornar ainda mais distante. 

Pico da doença

O infectologista Jean Gorinchteyn informa que o Brasil ainda não atingiu o pior momento da crise do coronavírus: “A curva ainda está acontecendo. Na verdade, ela já deixou de fazer uma curva, e é como uma reta ascendente, uma curva em ‘L’. (...) A velocidade desse impacto é que pode ser modificada. Diminuir ou não. E com isso, as vítimas acabam sendo maiores ou menores dependendo das atitudes que nós tomarmos hoje”.

De acordo com o especialista, as crianças acabam representando uma ameaça de contaminação aos idosos que estão por perto. Por isso ele recomenda que crianças fiquem em casa com os pais, e não sejam deslocadas para a casa dos avós e tios mais velhos. 

Além disso, ele comenta que enquanto o inverso se aproxima e as temperaturas caem, a circulação dos vírus respiratórios tende a ser maior e os sintomas de uma gripe comum são muito parecidos com os sintomas do novo coronavírus. Portanto, é importante que os pais observem com cuidado e atenção a reação dos seus filhos.

"Crianças que nunca tiveram chiado no peito, se começar a aparecer, tem que ficar de olho. Crianças que têm quadro de asma prévio e não melhoram com as medicações que estão sendo usadas, já é preciso pensar em outras infecções”, diz. E recomenda que ao perceber estes sintomas, é preciso levá-las diretamente ao médico. “A gente tem percebido que as pessoas têm postergado à ida [ao médico], principalmente com crianças, e acabam chegando já com manifestações muito mais graves. Nós aprendemos com nossa história, no Brasil, que coronavírus também compromete crianças, e nós não tínhamos essa informação da China e da Europa”.