Covid-19: Brasil indígena tem mais mortes que Coreia do Sul, Sérvia ou Noruega

Boletim da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil contabiliza 287 indígenas mortos, 5.484 infectados e 103 povos atingidos pelo novo coronavírus

Cecília do Lago, José Brito e Luiz Fernando Toledo, da CNN, em São Paulo
16 de junho de 2020 às 19:01
Funcionário do Ministério da Saúde realiza exames na população indígena para detectar a Covid-19
Foto: Vanessa Aquino / ASCOM MS

Atualmente, a população indígena brasileira, se fosse um país, já teria mais mortos de Covid-19 do que a Coreia do Sul. Na tarde desta terça-feira (16), o boletim feito pela APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), uma associação nacional de entidades que representam os povos indígenas brasileiros, contabiliza 287 indígenas mortos, 5.484 infectados e 103 povos atingidos pelo novo coronavírus. Os estados brasileiros com mais casos de vítimas da doença são: Amazonas (139), Pará (56) e Roraima (36).

A Coreia do Sul registrou até agora 276 mortes pelo novo coronavírus, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) tabulados pela universidade Johns Hopkins, no Estados Unidos. Sérvia e Noruega possuem 256 e 242 vítimas, respectivamente, de acordo com o centro de pesquisa norte-americano. Embora com um número de mortos equivalente a população indígena brasileira, o país asiático tem 62 vezes mais habitantes. Os sul-coreanos têm sido um exemplo mundial em proteger 51,2 milhões de pessoas da nova doença, que não tem cura, tratamento ou vacina.

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O Brasil indígena também teria a décima maior prevalência mundial, 670 casos confirmados por 100 mil habitantes, à frente dos Estados Unidos, da Espanha e Reino Unido, países muito afetados. A média brasileira é de 417 casos para cada 100 mil. Esse Brasil de apenas 817.963 mil habitantes, segundo o último Censo demográfico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já tem hoje mais infectados em números absolutos do que a que a Costa do Marfim, país africano de mais de 26 milhões de habitantes.

Os dados da APIB mostram quase três vezes mais vítimas da Covid-19 do que o dado oficial informado pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) até o momento. O Governo Federal, que considera somente aqueles que moram em aldeias, ou seja, aqueles que estão dentro de regiões atendidas pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs), do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS), que repassam as informações para a Sesai, do Ministério da Saúde, registram 101 indígenas mortos e 3.013 infectados.

Segundo a coordenadora-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Nara Baré, essas mortes e infecções pelo novo coronavírus são uma consequência do descaso do Governo Federal por não terem apresentado medidas eficazes para os povos como prioridade. “Eles estão demorando a agir. Está nos matando. Está nas terras indígenas. Estamos perdendo famílias, amigos, conhecidos. É uma dor muito grande”, diz.

A líder indígena do povo Baré no Amazonas teve Covid-19, há cerca de um mês, e revela que a atenção do poder público precisa ir além de distribuir cestas básicas. “Precisamos de um atendimento de baixa e média complexidade nos territórios indígenas, porque os casos mais graves, que precisam de UTI, são mandados para as capitais como Manaus e Belém e não resolve o problema. Eles morrem lá e são enterrados longe de suas famílias. Não são só números. São vidas que nós estamos perdendo”, explica.

Catástrofe brasileira

Para o doutor em antropologia social e professor na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), José Miguel Nieto Olivar, esses números são uma representação gráfica da catástrofe em processo. “Uma catástrofe brasileira e amazônica, não apenas no Brasil, que coloca em especial situação de perigo e vulnerabilidade determinados grupos e territórios, como os indígenas. Esses números mostram um pouco da cara brasileira da pandemia de Covid-19. Isto é, do que o Brasil está fazendo com o vírus: é o encontro de diversas realidades e linhas históricas que produzem extremas formas de desigualdade”, disse.

Segundo Olivar, é urgente que se destine uma quantidade de recursos muito maior, especialmente desde o nível Federal, para fortalecer todo o subsistema de saúde indígena, de pesquisa científica em diversas áreas até o melhoramento das condições técnicas e materiais dos Agentes Indígenas de Saúde e dos pólos base. “Alguns DSEIs estão já no limite da sua capacidade de resposta, os pólos base têm sido fundamentais em algumas regiões, mas insuficientes. Os Agentes Indígenas de Saúde são um dos investimentos públicos mais importantes desse país em termos de saúde, mas têm sido abandonados e depreciados. É uma imagem estranha: há bastante, porque houve muito, mas falta tudo.”, explica o professor.

Dados obtidos pela CNN por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que a Secretaria de Saúde Indígena, vinculada ao Ministério da Saúde, executou R$ 5,6 milhões até o dia 2 de junho para enfrentamento à Covid-19, sendo que o valor individual mais alto de uma contratação foi para locação de meios de transporte, que custou R$ 1,6 milhão. Também foram adquiridas máscaras descartáveis e N95, equipamentos de proteção individual, álcool em gel, kit de teste rápido, entre outros itens.