Transplantes de órgãos caem no Brasil durante a pandemia de Covid-19

Entre abril e junho deste ano, foram realizados 2500 transplantes, 64% menos do que no mesmo período de 2019

Débora Freitas e André Rosa, da CNN, em São Paulo
27 de setembro de 2020 às 10:28 | Atualizado 27 de setembro de 2020 às 15:19

Entre os meses de abril e junho deste ano, auge da pandemia no Brasil, foram realizados cerca de 2500 transplantes de órgãos, tecidos e medula. O que significa 64% menos que no mesmo período do ano passado. O número de doadores também caiu 22,5%.

Os pacientes que precisavam de um pulmão foram os mais afetados: o transplante desse órgão teve redução de mais de 70%. De acordo com a médica hepatologista Carolina Pimentel, no início da pandemia era muito difícil identificar os doadores que tinham ou não sido infectados pelo novo coronavírus. “Além disso, não se tinha bem protocolado as condutas em relação aos doadores, o que interrompeu as doações por uma questão de segurança. E por último, a questão do próprio receptor, aquele que vai receber o transplante. Aqueles pacientes que porventura não tinham uma urgência, uma extrema necessidade para realizar o transplante, tiveram essa cirurgia postergada, para evitar riscos”, explica ela.

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O diagnóstico de leucemia da autônoma Rosilene de Jesus veio em novembro do ano passado “A gente fica impactada, chorei também, o que é normal”, conta ela. Depois de duas quimioterapias, a Rosilene recebeu a notícia de que precisaria de um transplante de medula óssea e, felizmente, um dos sete dos irmãos era compatível. O procedimento chegou a ser adiado por causa da pandemia, mas ela não podia esperar muito. A Rosilene e o irmão passaram por testes de Covid-19 e depois dos resultados negativos, o transplante foi feito no dia 6 de maio.

A hematologista Roselene Augusto Passos cuidou da Rosilene e explica por que no caso dela o transplante não pode ser adiado. “Ela é portadora de uma doença chamada leucemia mieloide aguda, que é um câncer da medula que impede a formação das células normais do sangue. Por esse motivo, ela precisava receber quimioterapia e precisaria de um transplante halogênico de medula óssea, ou seja, quando a gente tenta substituir a medula doente por uma normal proveniente de um doador. Então, se nós postergássemos o transplante, ela corria o risco de ter a leucemia recidivada e poderia vir a falecer da doença”.

O porteiro Aguinaldo Gabriel Júnior é portador da síndrome de Budd Chiari, doença que afeta o fígado, e há um ano e meio está na fila do transplante. A medicação diária melhorou o inchaço e a falta de ar, mas o Aguinaldo ainda tem muitas limitações. “Ficar muito tempo em pé, não consigo. Não consigo andar por muito tempo. Por exemplo, ir até o mercado, fazer coisas que eu fazia normalmente, dar uma volta na praia, fazer exercício físico, nada que estimule meu sangue a correr muito rápido”, diz ele.

No Brasil, 96% dos transplantes são feitos pelo SUS. Mais de 46 mil pessoas estão na fila aguardando um órgão, tecido ou medula. A lista única é coordenada pelo governo federal e o tempo de espera depende do órgão e da gravidade do problema do paciente.

Só entre abril e junho deste ano, 835 pessoas morreram antes de conseguir um doador. Para mudar esse cenário, não tem segredo, basta a família autorizar a doação. Segundo a doutora Carolina, um único doador pode salvar até 17 vidas. “A população tem muito a ideia da doação do coração, pulmão, fígado rim. Mas existem outros órgãos que podem ser doados: córnea, pele, osso, válvula cardíaca, a própria medula óssea quando em vivo. Então, é uma gama de formas de perpetuar a vida mesmo após morte encefálica”.