Taiwan passou 200 dias sem casos de transmissão local de Covid-19; entenda como

A resposta de Taipei à pandemia do coronavírus foi uma das mais eficazes do mundo

Joshua Berlinger, da CNN
30 de outubro de 2020 às 15:38
Funcionário trabalha em pesquisa de potencial vacina da Covid-19 desenvolvida pela CureVac em Tuebingen, na Alemanha
Foto: Andreas Gebert/Reuters

Enquanto boa parte do mundo luta para conter novas ondas da pandemia de Covid-19, Taiwan acaba de completar 200 dias consecutivos sem um caso da doença transmitido localmente.

A resposta de Taipei (sede do governo de Taiwan) à pandemia do coronavírus foi uma das mais eficazes do mundo. A ilha de 23 milhões de habitantes relatou pela última vez um caso transmitido localmente em 12 de abril, domingo de Páscoa. Até quinta-feira (29), havia confirmado 553 casos e apenas 55 deles eram transmissões locais. Sete mortes foram registradas. 

A Páscoa foi um marco importante nos Estados Unidos porque o presidente Donald Trump disse um mês antes que queria que o país “se abrisse e estava ansioso” que isso acontecesse naquele feriado.

Naquela época, 1,7 milhão de pessoas estavam infectadas e 110 mil óbitos já haviam sido registrados globalmente. Na sexta-feira (30), esses números ultrapassaram 45 milhões de casos e mais de 1,1 milhão de mortes, de acordo com a Universidade Johns Hopkins. 

A conquista histórica de Taiwan ocorre em uma semana em que França e Alemanha estão decretando novos lockdowns e os Estados Unidos identificaram um recorde de mais de 88.000 casos em um dia. O estado da Flórida, que tem população semelhante a Taiwan, com aproximadamente 21 milhões de pessoas, identificou 4.188 casos somente na quarta-feira (28). 

Taiwan nunca teve que decretar bloqueios rígidos. Nem recorreu a restrições drásticas às liberdades civis, como na China continental. 

Em vez disso, a resposta de Taiwan focou na velocidade. Autoridades taiwanesas começaram a examinar passageiros em voos diretos de Wuhan (onde o vírus foi identificado pela primeira vez) em 31 de dezembro de 2019, quando o vírus era principalmente objeto de rumores e relatórios limitados. 

A ilha confirmou seu primeiro caso de coronavírus em 21 de janeiro e então proibiu os residentes de Wuhan de viajar para lá. Todos os passageiros provenientes da China continental, Hong Kong e Macau foram submetidos a rastreamento de contatos. 

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Tudo isso aconteceu antes que a própria região Wuhan entrasse em lockdown em 23 de janeiro. Em março, Taiwan proibiu a entrada de todos os estrangeiros na ilha, exceto diplomatas, residentes e pessoas com vistos especiais de entrada. 

Mas Taiwan tem vantagens que seus pares no Ocidente não têm. 

Uma é geográfica: trata-se é uma ilha, então é mais fácil para as autoridades controlarem a entrada e saída por suas fronteiras. 

Outra é histórica: Taiwan também tinha experiência a seu favor. Depois de sofrer o surto mortal de síndrome respiratória aguda grave (SARS) em 2003, a ilha trabalhou para aumentar sua capacidade de lidar com uma pandemia, segundo contou o ministro de Relações Exteriores de Taiwan, Joseph Wu, em uma entrevista no mês passado. 

“Quando soubemos que havia alguns casos secretos de pneumonia na China, onde os pacientes eram tratados isoladamente, sabíamos que era algo semelhante”, disse. 

As autoridades ativaram o Centro de Comando Central de Epidemias da ilha, que foi criado durante a crise da SARS, para coordenar os diferentes ministérios. O governo também aumentou a produção de máscaras faciais e equipamentos de proteção para garantir que haveria um fornecimento constante de EPI. Também investiu em testes em massa e rastreamento de contato rápido e eficaz.

O ex-vice-presidente taiwanês Chen Chien-jen, que é médico epidemiologista, disse que os lockdowns não são ideais. Chen também disse que os tipos de esquemas de testes em massa realizados na China continental, onde milhões de pessoas são rastreadas quando um punhado de casos é detectado, também são desnecessários. 

“Um rastreamento de contato muito cuidadoso e quarentenas muito rigorosas de contatos próximos são a melhor maneira de conter a Covid-19”, disse ele. 

Paula Hancocks, James Griffiths e Meenketan Jha, da CNN, também contribuíram para esta reportagem. 

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).