Veganos podem ter maior risco de fraturas ósseas, conclui estudo

Estudos mostraram que vegetarianos têm densidade mineral óssea mais baixa do que pessoas que consomem carne frequentemente

Kristen Rogers, da CNN
23 de novembro de 2020 às 14:36
Muitos são adeptos ao estilo de vida vegano, mas é necessário pensar no equilíbrio nutricional
Foto: Pixabay

Na lista cada vez maior de prós e contras das dietas à base de plantas, o maior risco de fraturas ósseas foi colocado na coluna das possíveis desvantagens. 

Veganos e vegetarianos podem estar em maior risco de fraturas ósseas do que pessoas que consomem carne, de acordo com um grande estudo longitudinal publicado domingo (22) na revista “BMC Medicine”. 

Fraturas na idade adulta e em idades mais avançadas são comuns, mas estudos anteriores mostraram que vegetarianos têm densidade mineral óssea mais baixa do que os não vegetarianos. A densidade óssea é “uma medida da quantidade de minerais (principalmente cálcio e fósforo) contidos em um determinado volume de osso”, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer dos EUA

Uma ingestão substancialmente mais baixa de cálcio e proteína na dieta também foi relatada entre os que não comem proteína animal. Segundo o estudo, apesar desta pesquisa anterior, as associações entre dietas vegetarianas e riscos de fratura não eram claras até agora. 

“Este é o primeiro estudo abrangente e o maior até o momento a olhar para os riscos de fraturas totais (fraturas ocorrendo em qualquer parte do corpo) e fraturas em diferentes locais em pessoas com diferentes hábitos alimentares habituais”, detalhou a principal autora do estudo, Tammy Tong, epidemiologista nutricional do Departamento de Saúde da População de Nuffield na Universidade de Oxford. 

Houve mais 4,1 casos em vegetarianos e 19,4 mais casos em veganos para cada 1.000 pessoas ao longo de um período de 10 anos. 

Dieta e força óssea

Ossos podem sofrer com uma dieta sem equilíbrio
Foto: Freepik

Quase 55 mil adultos relativamente saudáveis do Reino Unido responderam a um questionário sobre dieta, características sociodemográficas, estilo de vida e histórico médico entre 1993 e 2001. Os pesquisadores os categorizaram por dieta na época e no acompanhamento em 2010: comedores de carne, comedores de peixe (pescetarianos), vegetarianos (sem carne ou peixe, mas com laticínios e/ou ovos) e veganos (nada derivado de animais). 

Os autores encontraram 3.941 fraturas no total em 2016. Em comparação com os comedores de carne, os veganos com menor ingestão de cálcio e proteína em média tiveram um risco 43% maior de fraturas em qualquer lugar e nos quadris, pernas e vértebras. Os vegetarianos e pescetarianos tiveram um risco maior de fraturas de quadril do que os comedores de carne, mas o risco foi parcialmente reduzido quando os pesquisadores consideraram o índice de massa corporal e o consumo suficiente de cálcio e proteína. No entanto, o risco era ainda maior para os veganos com esses fatores levados em consideração. 

"Os resultados do estudo apoiam um crescente corpo de pesquisas sobre a saúde óssea com ingestão de proteínas e cálcio, bem como IMC (índice de massa corporal)”, disse Lauri Wright, nutricionista e chefe do departamento de nutrição e dietética da Universidade de North Florida, que não estava envolvida no estudo. “Proteína e cálcio são os dois principais componentes dos ossos”. 

As limitações do estudo incluíram que a maioria dos participantes eram brancos europeus e mulheres. “Os resultados disso, dados os participantes limitados, não podem ser generalizados para outras populações e mais estudos são necessários”, opinou Katherine Tucker, professora de epidemiologia nutricional da Universidade de Massachusetts, Lowell, que não estava envolvida em o estudo. 

Os autores também não tinham dados sobre qualquer suplementação de cálcio ou sobre as causas das fraturas, e a ingestão de nutrientes foi autorrelatada em vez de medida objetivamente. 

Além disso, segundo os autores, o IMC poderia explicar parcialmente os resultados. Veganos e vegetarianos tendem a ter IMC mais baixo, como foi o caso deste estudo. O baixo IMC foi associado a fraturas em algumas áreas, potencialmente devido a fatores como menos amortecimento contra a força quando uma pessoa cai.

Riscos nutricionais de dietas à base de plantas

Como as diferenças de risco em veganos permaneceram após a fatoração do IMC e da ingestão suficiente de cálcio e proteína (por miligrama), outros fatores que não foram investigados podem ser importantes, como as diferenças entre proteína e cálcio de animais e de plantas. 

“A maioria dessas coisas é mais bem absorvida pelos alimentos de origem animal”, disse Tucker. “Alguns vegetarianos dizem que, se observarem as tabelas nutricionais, consomem cálcio suficiente. Mas o cálcio em grãos inteiros é ligado por fitatos e em vegetais de folhas verdes e é ligado por oxalatos”. 

Os fitatos e oxalatos são compostos que ligam minerais como cálcio, zinco e ferro, portanto, os minerais não são liberados e absorvidos tão facilmente no intestino. Isso significa que, embora o espinafre e outras folhas verdes sejam ricos em cálcio, os oxalatos neles contidos impedem que o corpo absorva esse cálcio tanto quanto poderia dos laticínios.

Como equilibrar a dieta

Adeptos ao veganismo não ingerem nenhum alimento de origem animal
Foto: Pixabay

Os autores não tinham dados sobre a qualidade da dieta, mas as pessoas que comem alimentos integrais, dietas baseadas em vegetais, densas em nutrientes, tendem a se sair melhor do que aquelas que comem principalmente alimentos processados. 

“Embora os comedores de carne normalmente consumam maiores quantidades de proteína, cálcio e vitamina D e os nutrientes sejam mais biodisponíveis (capazes de serem usados pelo corpo), uma pessoa ainda pode ser deficiente se suas escolhas alimentares forem ruins”, afirmou Wright, que é também porta-voz da Academia de Nutrição e Dietética. 

“A deficiência tem o mesmo impacto na saúde óssea, seja você comedor de carne ou comedor de plantas”. 

“A principal questão para os vegetarianos e, em particular, os veganos, é que eles precisam ser muito cuidadosos ao obter os nutrientes que estão faltando, caso não incluam produtos ricos neles”. 

O consenso anterior sobre a proteína era que o excesso aumentaria a carga de ácido, retirando cálcio de nossos ossos e causando ossos quebradiços. No entanto, estudos recentes descobriram que “quanto maior a proteína (dentro dos limites normais de ingestão), melhor para os ossos”, disse Tucker. 

A proteína é crítica para a resistência óssea, e vegetarianos e veganos do Reino Unido têm menor massa magra e menor força de preensão do que as pessoas que comem carne, o que pode influenciar os músculos e a força de preensão. Isso pode afetar o risco de queda e, portanto, a probabilidade de fraturas. 

Segundo Tucker, obter nutrientes essenciais como proteína, cálcio, vitamina B12 e vitamina D (crucial para a absorção de cálcio) das plantas requer quantidades maiores do que as recomendadas pelo governo britânico, uma vez que os nutrientes das plantas são menos facilmente absorvidos.

Ter uma dieta sem proteína animal com a ajuda estratégica de um nutricionista pode ser a melhor aposta para quem faz essa opção. “Há muita desinformação na internet, então é preciso ter muito cuidado”, disse Tucker, da Universidade de Massachussetts, Lowell. 

“Com certeza é preciso consultar especialistas para se certificar que você não está apenas atendendo às necessidades com base nas tabelas alimentares, mas sim considerando a absorção desses nutrientes e das proteínas complementares”. 

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Nozes e sementes são ricas nos nutrientes de apoio magnésio e potássio. Também são boas opções, segundo Tucker, produtos de soja integral fortificados com cálcio, como tempeh e leite de soja; tortilhas de milho; vegetais com folhas verdes; leguminosas; iogurte lácteo ou não lácteo; leite de vaca; e queijos de alta qualidade. 

Certifique-se de obter aminoácidos suficientes, os blocos de construção das proteínas, de alimentos como tofu, tempeh, arroz e feijão. 

Suplementos de cálcio podem beneficiar pessoas com deficiências, ela acrescentou, mas suplementos de ingrediente único podem interferir na absorção geral de nutrientes se a dosagem for muito alta. É bom falar com um médico ou nutricionista antes de tomar qualquer suplemento.

Além disso, “dado que o baixo IMC é um fator de risco para fraturas de quadril, todas as pessoas devem ter como objetivo manter um IMC saudável (nem abaixo nem acima do peso)”, disse Tong. 

“O resultado final é que as pessoas querem respostas, vegetarianas ou não vegetarianas, essa comida ou aquela”, disse Tucker. "Não se trata de um único alimento ou de um único padrão alimentar. É tudo uma questão de qualidade”. 

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).