Vacina de Oxford pode fazer mais pelo mundo do que as outras; entenda a razão

Apesar de eficácia menor do que as vacinas das concorrentes Moderna e Pfizer, imunizante da AstraZeneca em parceria com universidade traz fator social chave

Emma Reynolds, da CNN
28 de novembro de 2020 às 11:32 | Atualizado 29 de novembro de 2020 às 07:05
Laboratório da AstraZeneca em Sydney, na Austrália
Foto: Dan Himbrechts - 19.ago.2020 / AAP Image via Reuters

Desde que a Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca revelaram os resultados dos ensaios da Fase 3 da vacina contra a Covid-19, uma série de questionamentos começaram a surgir. A eficácia média de 70% declarada foi significativamente menor do que 94,5% a 95% relatada pelos outros dois candidatos principais, da Moderna e da Pfizer, por exemplo.

Ainda assim, a vacina ainda pode ser mais valiosa para o mundo do que as outras duas nos próximos meses. Se as perguntas sobre seus resultados forem respondidas e ela receber aprovação, ela pode abrir caminho no fornecimento de cobertura de vacina em países mais pobres, onde é urgentemente necessária.

O governo do Reino Unido deu o primeiro passo no processo de aprovação na sexta-feira (27), anunciando que havia encaminhado formalmente a candidata ao regulador de medicamentos do Reino Unido para avaliação.

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“A vacina da Pfizer está comprometida com suas doses iniciais indo para a UE e os EUA. Já o fornecimento da Moderna estará vinculado aos EUA pelo menos provavelmente na primeira metade de 2021. Portanto, à luz disso, a vacina da Oxford/Astrazeneca é de fato uma boa notícia para o resto do mundo”, afirmou Andrea Taylor, diretora assistente de programas no Duke Global Health Innovation Center, à CNN.

A AstraZeneca prometeu fornecer centenas de milhões de doses para países de baixa e média renda e entregar a vacina sem fins lucrativos a essas nações de forma perpétua. O imunizante desenvolvido na Universidade de Oxford, na Inglaterra, é significativamente mais barato do que os outros e, o que é crucial, muito mais fácil de transportar e distribuir em países em desenvolvimento do que suas rivais, uma vez que não precisa ser armazenada em temperaturas baixíssimas.

“Acho que é a única vacina que pode ser usada nesses locais no momento”, opinou Azra Ghani, chefe de epidemiologia de doenças infecciosas do Imperial College London, à CNN.

Tecnologia

A vacina da Oxford/AstraZeneca pode ser mantida em temperaturas de refrigerador, ou seja, 2 a 8 graus Celsius, por pelo menos seis meses. A vacina da Moderna precisa ser armazenado a - 20ºC (ou em temperaturas de geladeira por até 30 dias) e a vacina da Pfizer/BioNTech deve ser armazenado a - 75ºC e usada dentro de cinco dias, uma vez refrigerado a temperaturas mais altas.

“A Pfizer e a Moderna requerem armazenamento em freezer, e isso simplesmente não existe em muitos ambientes”, disse a doutora Ghani.

A refrigeração de “cadeia de frio” é o armazenamento padrão usado globalmente para entregar vacinas de locais centrais às clínicas de saúde locais. A vacina da AstraZeneca é até agora “a única que pode ser de fato aplicada a esses sistemas”, acrescentou Ghani.

As vacinas são baseadas em tecnologias diferentes. A da AstraZeneca (assim como a vacina da Johnson & Johnson e o Sputnik V da Rússia) usa um adenovírus para transportar fragmentos genéticos do coronavírus para o corpo.

As vacinas da Moderna e da Pfizer usam pedaços de material genético chamados RNA mensageiro (mRNA) para levar o corpo a fazer pedaços sintéticos do coronavírus e estimular uma resposta imunológica. “É uma tecnologia relativamente nova e pouco se sabe sobre a estabilidade do mRNA ao longo do tempo”, explicou Penny Ward, presidente do Comitê de Educação e Padrões da Faculdade de Medicina Farmacêutica do Reino Unido, à CNN.

Segundo ela, como a Moderna e a Pfizer acumularam informações e capacidade de fabricação, elas podem encontrar métodos de armazenamento em temperaturas mais altas, mas a vacina Oxford “tem o potencial de ser enviada mais rapidamente ao redor do mundo” usando as cadeias de suprimentos existentes.

No entanto, isso só valerá se os níveis de eficácia da vacina forem mantidos enquanto ela é distribuída nos países em desenvolvimento.

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A AstraZeneca disse esta semana que os testes mostraram que um regime de dosagem produziu 62% de eficácia, enquanto o outro alcançou 90%, dando uma média de 70%. Este é um bom resultado, comparável à vacina da gripe, mas não tão alto quanto 95% da Pfizer e 94,5% da Moderna. A taxa de 90% é baseada em uma amostra de 2.741 participantes, que é um número relativamente pequeno.

Moncef Slaoui, conselheiro-chefe da Operação Warp Speed, criada pelo governo dos EUA para acelerar soluções para a pandemia, disse esta semana que havia “uma série de variáveis que precisamos entender” em torno da dosagem e das diferenças de idade nos resultados de Oxford/AstraZeneca, depois que o estudo em andamento nos EUA precisou ser modificado.

Na quinta-feira (26), um porta-voz da AstraZeneca disse à CNN que eles estavam atualmente em discussões com a FDA (a agência reguladora de medicamentos e alimentos nos EUA) sobre a inclusão do regime de meia dose em seus testes no país, que atualmente tem cerca de 10 mil participantes.

Ayfer Ali, professora associada de negócios internacionais da Warwick Business School, disse que a “simplicidade de distribuição” da vacina AstraZeneca poderia “possivelmente compensar a eficácia potencial mais baixa”.

“A eficácia real das vacinas de mRNA, que são mais frágeis para transportar e guardar, pode ser menor em condições do mundo real, já que o armazenamento correto de cada dose pode ser difícil de verificar”, acrescentou.

A BioNTech disse na semana passada que estava trabalhando com a Pfizer para chegar a uma formulação que permitiria o armazenamento de sua vacina em temperaturas padrão até o segundo semestre de 2021.

A Moderna estendeu neste mês sua estimativa de quanto tempo sua vacina poderia permanecer estável na temperatura da geladeira de cerca de sete para 30 dias. De acordo com o Diretor de Operações Técnicas e Qualidade da Moderna, Juan Andres, isso “permitiria uma distribuição mais simples e mais flexibilidade para facilitar a vacinação em larga escala nos Estados Unidos e em outras partes do mundo”.

Promessa de ajuda

A AstraZeneca prometeu 300 milhões de doses de sua vacina para a COVAX, uma parceria entre GAVI, a aliança de vacinas; a Organização Mundial da Saúde (OMS); e a Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI) para garantir uma distribuição equitativa a 92 países em desenvolvimento. O único outro desenvolvedor de vacina conhecido que fez uma promessa em escala semelhante é a Sanofi, com 200 milhões de doses.

Um representante da GAVI disse à CNN que o Serum Institute of India (SII) e a Fundação Bill and Melinda Gates também forneceriam até 200 milhões de doses das vacinas candidatas AstraZeneca e/ou Novavax para países de baixa renda. A Moderna e a Pfizer não prometeram nenhuma dose para a COVAX.

Isso pode significar que a AstraZeneca tem mais capacidade de fabricação do que outros produtos farmacêuticos, graças às suas ligações com gigantes da indústria, como o SII, através da CEPI.

“[A AstraZeneca] tem trabalhado com especialistas em fabricação dessa coalizão para ajudar a encontrar uma variedade de locais de fabricação diferentes e, claro, a operação não envolve apenas a vacina em si, mas também os frascos de vidro em que ela é guardada, as tampas que vão em cima os frascos, seringas e agulhas”, disse Ward.

A AstraZeneca diz que espera ter capacidade para produzir até 3 bilhões de doses da vacina em 2021 em uma base contínua. A Pfizer/BioNTech afirma que pode fabricar até 50 milhões de doses em 2020 e 1,3 bilhão em 2021, enquanto a Moderna afirma que espera ser capaz de fornecer aproximadamente 500 milhões de doses por ano e possivelmente até 1 bilhão de doses por ano a partir de 2021.

Após pedidos de transparência de grupos como Médicos Sem Fronteiras e Global Justice Now, AstraZeneca e Oxford confirmaram que a parceria entregaria a vacina sem fins lucrativos até pelo menos julho de 2021 em todo o mundo, e em perpetuidade para países de baixa e média renda.

A vacina de Oxford é mais barata que as outras, custando aproximadamente US$ 3 a US$ 4 por dose, em contraste com cerca de US$ 20 para a vacina da Pfizer e US$ 32-37 para a vacina da Moderna.

“Nossa vacina pode ser implantada rapidamente em ambientes de saúde existentes, o que ajudará a impedir a propagação desta doença enquanto aprendemos mais e mais sobre como preveni-la e tratá-la”, disse um porta-voz da Universidade de Oxford à CNN. Ele acrescentou que uma variedade de vacinas seria necessária e algumas poderiam ser mais eficazes para diferentes idades e populações.

“A chave de qualquer vacina é o potencial de impacto na saúde pública, incluindo a rapidez com que pode ser distribuída. As nossas podem ser distribuídas de forma rápida e fácil em todo o mundo, usando a logística existente, e serem facilmente armazenadas em uma geladeira”, disse ele.

Implicações globais

A iniciativa COVAX será fundamental para levar a vacina para países de baixa e média renda, segundo um modelo feito pela Universidade Duke. A iniciativa visa fornecer 2 bilhões de doses até o final de 2021 para proteger grupos de alto risco em todo o mundo e, eventualmente, doses suficientes para cobrir 20% das populações desses países.

No entanto, a doutora Ghani, do Imperial College London, alertou que 20% estava “longe do ideal (que é de cerca de 70%) que gostaríamos de ver para conseguir imunidade de rebanho, então alguns países ainda ficarão aquém”.

Ela disse que é vital para todos que a população global seja vacinada, para permitir viagens e movimentos através das fronteiras. Aplicar a vacina em todo mundo poderia demorar até 2023, de acordo com os modelos atuais – isso sem falar a necessidade potencial de doses de reforço.

“O acesso a vacinas para a Covid-19 seguras e eficazes para os grupos mais vulneráveis em todo o mundo é a única maneira de controlar o estágio agudo desta pandemia”, contou o doutor Seth Berkley, CEO da GAVI, ao dar as boas-vindas às notícias sobre a vacina Oxford em uma declaração nesta semana.

A modelagem da Universidade Duke mostra que, embora os países mais ricos tenham comprado bilhões de doses com antecedência para aumentar suas chances de cobrir sua população, o mundo em desenvolvimento dependerá inteiramente da COVAX.

Bill Gates disse que a solução “não é envergonhar os países ricos que estão fazendo a coisa natural de querer proteger seu povo”, mas sim aumentar enormemente a capacidade de fabricação.

Stephen Evans, professor de farmacoepidemiologia da London School of Hygiene & Tropical Medicine, alertou que o monitoramento de questões de eficácia e segurança seria um desafio contínuo no mundo em desenvolvimento.

“Pode haver alguns efeitos adversos que seriam aparentes apenas nos países de baixa e média renda; eles têm dietas diferentes, diferentes níveis de nutrição em geral e características diferentes”, enumerou.

Embora a vacina de Oxford possa ter uma promessa particular neste estágio para ajudar os países de baixa renda, ainda existem muitas advertências sobre os dados que devem ser resolvidos antes que possa ser implementada.

Em última análise, será vital ter o maior número possível de vacinas, para garantir uma recuperação mais rápida e limitar mais danos ao mundo.

Harry Clarke-Ezzidio, Jen Christensen, Maggie Fox e Kara Fox da CNN contribuíram com a reportagem.

*Texto atualizado às 7h de domingo (29 de novembro) para correção na informação das temperaturas das vacinas

[Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês].