Eficiência de vacinas e transmissão: preocupações sobre variante do coronavírus

O vírus mostrou que consegue se adaptar para se tornar mais transmissível, pode se tornar mais difícil de ser neutralizado e até capaz de superar a vacina

William Haseltine
25 de dezembro de 2020 às 14:12 | Atualizado 28 de dezembro de 2020 às 07:53


Nota do Editor:
William Haseltine, PhD, é presidente do think tank sobre saúde global ACCESS Health International. Ele é autor de diversos livros, incluindo sua recém-lançada autobiografia, My Lifelong Fight Against Disease: From Polio and AIDS to COVID-19. As opiniões expressas neste artigo são do autor. 

O governo do Reino Unido disparou o alarme sobre uma cepa variante do SARS-CoV-2 , o vírus que causa a Covid-19, que parece se espalhar mais facilmente do que as versões anteriores.

Embora muito ainda seja desconhecido, o que sabemos sobre essa nova variante nos mostra aspectos importantes do vírus: ele consegue se adaptar para se tornar mais facilmente transmissível, pode se tornar mais difícil de ser neutralizado e, possivelmente, capaz de superar a vacina até certo ponto.

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Até o momento, o SARS-CoV-2 sofreu mutações em um ritmo bastante estável, com apenas uma ou duas variações por mês. Algumas variações fizeram os cientistas pararem para pensar, pois às vezes sofreram mutações para se tornarem mais transmissíveis, e em outros momentos para se tornarem mais eficazes, evitando a detecção por nosso sistema imunológico.

Porém, com esta nova variante, chamada B.1.1.7, o vírus adquiriu, de uma só vez, 17 mutações que alteram as proteínas do vírus, de acordo com o Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos. Essas mutações afetam quatro proteínas virais diferentes: a proteína spike, a ORF1ab, a Orf8 e a proteína N, uma das principais estruturas do nucleocapsídeo.

Embora o número absoluto de mutações em uma variante seja preocupante, o pior talvez seja como as mutações, analisadas em conjunto, podem mudar o funcionamento do vírus. Uma das mutações, a N501Y, aumenta a força da ligação da proteína spike ao receptor ACE2 humano, o que pode facilitar a forma como o vírus cria raízes nas pessoas infectadas.

Essa mutação é provavelmente a razão pela qual essa nova variante, isolada pela primeira vez no Reino Unido no final de setembro, agora é responsável por mais de 60% das novas infecções na cidade de Londres e seus arredores.

Representação gráfica do novo coronavírus, causador da doença Covid-19
Representação gráfica do novo coronavírus, causador da doença Covid-19
Foto: Gerd Altmann/Pixabay

Uma segunda mutação na proteína spike, a 69-70del, exclui dois aminoácidos, cuja remoção pode permitir que o vírus se defenda de algumas respostas imunológicas e, juntamente com outra mutação, pode torná-lo mais transmissível.

A mutação 69-70del foi encontrada em outras cepas variantes, incluindo na cepa identificada em visons na Dinamarca, e parece ocorrer quando as pessoas carregam o vírus por vários meses sob uma pressão imunológica, não necessariamente causada pelo próprio sistema imune, mas por tratamentos como o plasma convalescente, que bombeia anticorpos no sistema do paciente.

Uma terceira mutação, a P681H, ocorre no que é chamado de local de clivagem da proteína spike, uma área conhecida por afetar a rapidez com que o vírus pode invadir e matar as células. Alterações nessa parte do vírus podem aumentar sua capacidade de causar doenças, bem como sua letalidade, embora ainda não haja nenhuma evidência de que essa nova variante seja mais perigosa para os seres humanos. A mutação por si só já é preocupante. O fato de se combinar nessa cepa variante com outra mutação na proteína Orf8, que também pode aumentar a patogenicidade, é motivo de alarme.

Suspeita-se também que as mutações que afetam as duas outras proteínas, a ORF1ab e a proteína N, também podem permitir que o vírus se replique mais rapidamente e se defenda do sistema imunológico, embora mais pesquisas sejam necessárias para entender como cada uma dessas 17 mutações afeta o funcionamento do vírus. Ainda assim, sabemos o suficiente para fazer algumas suposições.

Em primeiro lugar, o SARS-CoV-2 sabe como se adaptar e o faz rapidamente, de maneira muito semelhante ao vírus da gripe. Devemos, portanto, estar preparados para a possibilidade de que o vírus fique conosco por muito tempo.

Como uma vacina contra a gripe, uma vacina contra a Covid-19 pode não ser uma vacina definitiva. Já sabemos, com base em um estudo recente publicado no New England Journal of Medicine, que a meia-vida dos anticorpos neutralizantes de pelo menos uma das vacinas, a da Moderna, diminui com relativa rapidez em um período de três meses nas pessoas que respondem mais vigorosamente, e mais devagar naquelas que apresentam uma resposta menos vigorosa.

Embora o estudo tenha sido pequeno, ele questiona se uma vacina tomada hoje permaneceria eficaz por 12, 18 meses ou mais no futuro. A variante B.1.1.7 nos diz algo novo: não apenas a imunidade pode enfraquecer, mas a potência da própria vacina pode ser afetada se o vírus sofrer uma mutação. Isso não quer dizer que a medicina moderna não consiga acompanhar a evolução do vírus da Covid-19, como acontece com a gripe. Mas pode não ser tão simples ou fácil como muitos esperavam.

Em segundo lugar, com a mutação 69-70del, podemos estar enfrentando um paradoxo médico. Em um esforço para salvar a vida dos imunocomprometidos que foram infectados com o vírus, os profissionais de saúde por vezes administravam várias rodadas de tratamentos com anticorpos a seus pacientes.

Em alguns casos, os pacientes se recuperavam após uma rodada de tratamento, mas acabavam adoecendo novamente e precisando de outra dose. Mesmo em um único paciente, a supressão imunológica por um período de semanas e às vezes meses dá ao vírus uma infinidade de oportunidades para aprender sobre nossas defesas e sofrer uma mutação, para se tornar mais eficaz em se defender de nosso sistema imunológico.

Embora a administração de tratamentos com anticorpos possa salvar uma vida humana, um estudo do Reino Unido levantou a hipótese de que também poderia facilitar a criação de novas cepas do vírus.

Por fim, a variante sugere que devemos começar imediatamente a planejar a próxima geração de vacinas contra a Covid, para responder com mais eficácia a um vírus em mutação. Existe uma certa esperança, uma vez que as vacinas autorizadas já estão sendo testadas contra a nova variante. As empresas expressaram confiança de que suas vacinas poderiam proteger contra a variante, e a BioNTech observou que sua vacina poderia ser alterada para combater a nova variante.

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Ainda assim, vale a pena aprofundar os estudos sobre os alvos alternativos das vacinas, que poderiam se provar mais eficazes na proteção da população contra variantes do vírus. No momento, a maioria das vacinas em desenvolvimento tem como alvo a proteína spike. Isso inclui as vacinas da Moderna, Novovax e Johnson & Johnson, bem como vacinas baseadas em adenovírus, como a da AstraZeneca.

Essas vacinas podem funcionar contra a versão atual do vírus, mas se quisermos ficar à frente da propagação da doença, precisamos expandir os alvos das vacinas para incluir outras proteínas, como a ORF1ab, a Orf8 e a proteína N, ou ainda a proteína ORF3b, que outros pesquisaram. Alguns países desenvolveram vacinas com métodos mais tradicionais, usando vírus inteiros inativados. Esse tipo de vacina, ou outras vacinas que têm como alvo várias proteínas ao mesmo tempo, pode ser a melhor abordagem no futuro.

Costumo comparar os vírus com máquinas de decifrar códigos, que continuamente testam números até encontrar uma nova maneira de explorar o nicho ecológico em que habitam, ou seja, trilhões de cópias de um único vírus, cada uma mudando e se adaptando a cada novo desafio. Às vezes, nos deparamos com um vírus que aprende a derrubar nossas defesas mais rápido do que podemos reconstruí-las. Temo que o SARS-CoV-2 possa ser um deles.