SUS é capaz de atender demanda por vacina, diz ex-ministro da Saúde


Lorena Lara, da CNN em São Paulo
07 de janeiro de 2021 às 05:00
Pessoas em laboratório produzindo vacinas
Laboratório de produção de vacinas da Bio-manguinhos
Foto: Peter Ilicciev/Fiocruz

O Sistema Único de Saúde (SUS) tem capacidade para realizar a vacinação em massa contra a Covid-19, diz o médico e ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão. Para ele, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) é capaz de atender a demanda diante da pandemia do novo coronavírus.

"Não tenho a menor dúvida de que o PNI tem todas as condições técnicas, logísticas, de pessoal e experiência para poder colocar essa campanha de vacinação em prática. Não tenho nenhum receio em relação a isso", avalia à CNN.

O problema, segundo Temporão, é a disponibilidade de doses e de insumos. "Nós deveríamos ter começado a negociar com as empresas produtoras muito antes. Nós já poderíamos estar vacinando no Brasil e não começamos. Erramos na logística de aquisição de seringas e agulhas", destaca.

"Em 2010, nós vacinamos 80 milhões de pessoas contra o H1N1 em três meses. Em um único dia, o PNI consegue vacinar 10 milhões de crianças contra a poliomielite. É o único país do mundo que tem essa capacidade", explica o ex-ministro, que esteve à frente da pasta entre 2007 e 2011, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Segundo o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19, o objetivo da primeira fase da campanha é aplicar a primeira dose da vacina em 14.846.712 brasileiros ao longo de 21 dias. Para cumprir essa meta, o país precisaria imunizar cerca de 707 mil pessoas por dia. 

Para o ex-ministro, a meta é “totalmente viável”. “Não vejo nenhuma dificuldade. Você vai ter que ter um plano de comunicação eficiente, orientar a população com transparência, exatamente tudo o que está faltando”, diz. "O grande desafio brasileiro no momento não é o PNI. O PNI tem todas as condições de fazer, com brilhantismo, o papel que lhe cabe. [O desafio] É a alienação, o negacionismo e a irresponsabilidade criminosa do presidente e do governo federal", acrescenta.

A vacinação contra a Covid-19 no Brasil ainda é incerta: enquanto ao menos 48 países, incluindo nações em desenvolvimento como Kuwait, Costa Rica e Omã já iniciaram a imunização de suas populações, o Brasil ainda não tem data de quando as primeiras doses serão aplicadas. Os últimos a entrar na lista da vacinação foram Holanda, República de Palau, Islândia, Singapura, Irlanda e Belarus.

O governo passou a avaliar a possibilidade de realizar um “dia D” de vacinação contra a Covid-19 em todo o país em 23 de janeiro. Segundo relatos feitos à analista Thais Arbex, esse cenário otimista leva em conta a possibilidade de 2 milhões de doses do imunizante desenvolvido pela farmacêutica britânica AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford chegarem à Fiocruz entre os dias 15 e 20 deste mês. Este primeiro lote viria do Serum Institute, da Índia, responsável pela fabricação do produto.

Leia e assista também:

Sem teste no Brasil, vacina indiana não pode usar submissão contínua, diz Anvisa

Coreia do Sul quer aprovar uso emergencial de vacina britânica em até 40 dias

Iniciativa privada

A negociação da Associação Brasileira de Clínicas de Vacinas (ABCVac) para compra 5 milhões de doses da vacina Covaxin, do laboratório indiano Bharat Biotech, com o objetivo de vacinar parte da população que não está nos grupos prioritários gerou questionamentos sobre qual deve ser o papel da iniciativa privada na campanha de vacinação contra a Covid-19 no Brasil.

A vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai, recebeu o anúncio com cautela. "É importante. Quanto mais vacinas a gente tiver, mais pessoas serão vacinadas", diz. "Mas a grande questão é o número de doses disponíveis e a prioridade tem que ser do setor público, não tenho a menor dúvida”, pondera. 

Geraldo Barbosa, presidente da Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVAC), afirmou que a intenção é ajudar o governo federal. “A gente não quer nenhuma concorrência com as vacinas que serão fornecidas pelo sistema público. Tem que ser doses adicionais do que está sendo contratado pelo governo federal para não haver concorrência”, afirmou à CNN.

A ABCVac afirma que a possibilidade de compra de doses pelo mercado privado se deve ao excedente de doses fabricadas pela Bharat Biotech. O objetivo das clínicas é vender as vacinas diretamente ao público, e não ao SUS. 

Segundo o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19, apresentado pelo governo federal, o Brasil tem cerca de 38 mil salas de vacinação. Levando em conta apenas a quantidade de clínicas associadas à ABCVac, seria possível ampliar o número de locais de vacinação em ao menos 10%.

"Essas clínicas estão concentradas nas grandes capitais e regiões metropolitanas que já têm estrutura", afirma Temporão. "Nosso problema é levar vacina para a região amazônica, para populações ribeirinhas", observa Temporão.

Possibilidade de parceria

O infectologista e diretor do Grupo Fleury de laboratórios, Celso Granato, afirma que a empresa vê a aplicação de vacinas pela rede privada como uma possibilidade distante, já que o número de doses disponíveis ao redor do mundo ainda é limitado. O infectologista revela que tais discussões aconteceram apenas como medida de precaução. 

“Uma coisa que já passou pelas nossas conversas é a possibilidade de o governo requisitar enfermeiros. É possível, e aí a gente colaboraria", sinaliza Granato. "E a gente tem freezers. Dependendo das conversas, parte deles poderia ser usada para guardar vacinas também."

O diretor-médico da Dasa, Gustavo Campana, cita a possibilidade de ampliar o número de pontos de vacinação. "A gente pode realmente contribuir também nessa cobertura vacinal", afirma. "Se nós formos procurados e houver interesse de realização de parceria público-privada, isso pode ser estudado. Mas ainda não tivemos qualquer demanda", acrescenta.

Para Ballalai, as autoridades de saúde deveriam considerar a realização de parceria com entidades privadas. “É um desafio maior do que a gente teve em outras campanhas, com grande número de pessoas e prazo curto para vacinar”, diz. Ela acredita que o Ministério da Saúde deveria recorrer a parceiros. “É um grande caminho. E esse é o momento para público e privado se juntarem. Não só no sentido de a clínica vender, mas colaborar, de forma que essa campanha possa ser mais ágil, estruturada.”

Ressalvas

Granato, entretanto, observa que a disponibilização de doses de uma vacina contra a Covid-19 pela rede particular é capaz de criar desigualdades entre brasileiros de maior e menor poder econômico. "Uma pessoa que tem posses vai vacinar seu filho de 15 anos, um garoto com risco muito pequeno de ter uma forma grave da doença. E aí um senhor de 70 anos pode deixar de ser vacinado porque não pode pagar", exemplifica. "É uma situação muito séria do ponto de vista médico."

A possibilidade de a vacina ser disponibilizada na rede particular também não é bem vista pelo ex-ministro Temporão. "É uma postura que coloca em risco a saúde pública e a coesão da política de vacinação do Brasil neste momento", diz. Para ele, o momento é de predominância do "viés coletivo". "É inadmissível criar uma situação em que pessoas que têm dinheiro possam furar a fila e ter acesso a uma vacina, enquanto a grande massa da população tenha que esperar", reforça.

O que diz o Ministério da Saúde

Em contato com a CNN, a pasta reforçou a intenção de que todo processo de vacinação será público. "O Ministério da Saúde esclarece que o início do processo de vacinação contra a Covid-19 no país deverá ser realizado no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), de acordo com o Plano de Operacionalização da Vacinação já apresentado”.

Ainda que seja tratada como uma “eventualidade”, a pasta também explica que a inclusão de clínicas particulares no Plano Nacional deveria obedecer alguns requisitos. “É preciso observar que o registro da aplicação do imunizante precisaria ser feito junto à Rede Nacional de Dados de Saúde e à caderneta digital de vacinação. Esta rastreabilidade possibilita identificar quem tomou a vacina e em qual data, além de precisar o laboratório e o lote do imunizante, possibilitando a aplicação de uma segunda dose no prazo correto”, diz a pasta — acrescetnando que esse registro permite identificar eventuais efeitos adversos de diferentes vacinas. 

“Os grupos prioritários, propostos pelo Ministério da Saúde em parceria com Conass e Conasems, devem, a princípio, ser obedecidos mesmo que haja integração de clínicas particulares de vacinação ao processo de imunização”, conclui.