Brasil deve vacinar 99% do público-alvo para alcançar imunização com Coronavac


Lorena Lara e Will Marinho, da CNN em São Paulo
14 de janeiro de 2021 às 10:56 | Atualizado 14 de janeiro de 2021 às 12:03
Embalagem oficial da Coronavac, vacina do Instituto Butantan
Embalagem oficial da Coronavac, vacina do Instituto Butantan
Foto: Divulgação/Instituto Butantan

O Brasil precisará vacinar quase a totalidade do público-alvo da Coronavac, vacina desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, para que a imunidade coletiva seja alcançada. A estimativa é do microbiologista Luiz Gustavo de Almeida, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Questão de Ciência.

Almeida explica que 99% da população de 18 anos ou mais precisa receber as duas doses do imunizante. O cálculo, diz o especialista, é semelhante ao realizado para determinar a cobertura vacinal contra a gripe, e aponta que cerca de 158,4 milhões de brasileiros precisam ser vacinados - o Brasil tem, hoje, 160 milhões de pessoas com 18 anos ou mais.

Para chegar ao resultado, o microbiologista levou em consideração dois fatores: a replicação-base do novo coronavírus e a eficácia da Coronavac, que é de 50,4%. "A taxa de replicação-base do vírus está entre 2 e 3, ou seja, uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para até duas pessoas."

Ele ressalta que a taxa de replicação base é diferente da taxa de replicação efetiva, que é vista no mundo real. Na prática, segundo Almeida, o número é dinâmico e variável. No entanto, para fazer o cálculo, foi utilizado uma taxa fixa. "A gente leva em conta que inclusive as pessoas que já tiveram a doença também serão vacinadas, e por isso eu utilizo esse 'R' base", explica.

A eficácia da Coronavac também influencia no resultado da cobertura vacinal necessária. "Quanto maior a eficácia da vacina, menos pessoas a gente precisa vacinar. Quando menor a eficácia da vacina, mais pessoas a gente precisa vacinar", afirma Almeida.

A conta, no entanto, não pode ser levada ao extremo: uma vacina com 100% de eficácia ainda teria que ser aplicada em boa parte da população. A velocidade de aplicação das doses também interfere no processo, como explica o infectologista e Helio Bacha, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). "O ideal seria ter toda a população do Brasil vacinada de uma vez só", afirma.

O especialista dá o exemplo de dois cenários hipotéticos para exemplificar como a velocidade de aplicação das doses influencia no resultado. "Se vacinar uma pessoa por dia, a eficácia será nula. Se conseguir vacinar toda a população, os 210 milhões no mesmo dia, a eficácia sobe."

Eficiência x eficácia

Bacha destaca que os resultados dos testes clínicos não serão necessariamente reproduzidos na prática. "Eficiência é uma condição feita sob experimentação. O que nós temos, até agora, é a eficiência", diz. "Eficácia é na vida real. Há muitos elementos que jogam contra ou a favor do bom resultado. E a eficácia vai ser maior ou menor quanto mais rápido e uniformemente a população for vacinada", diz.

A pediatra e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai, ecoa a fala de Bacha. “Uma coisa é resultado de pesquisa, outra coisa é resultado de vida real”, sublinha.

Outro fator a ser considerado no cálculo da cobertura vacinal contra a Covid-19 é que a Coronavac não será o único imunizante disponível no país. Duas iniciativas já fizeram o pedido de uso emergencial à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): a Coronavac e a vacina Oxford/AstraZeneca/Fiocruz.

Segundo o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o Brasil também irá comprar doses de vacinas da Janssen, Pfizer e Moderna, além de manter negociações com outros imunizantes, como a Sputnik, do laboratório russo Gamaleya.

O efeito dos 50,4%

A divulgação da eficácia global da Coronavac gerou discussões sobre a qualidade do imunizante. A vacina conseguiu evitar a infecção por Covid-19 em 50,4% de todos os casos. Em 78%, a aplicação das doses foi capaz de evitar sintomas leves pela doença. Para casos moderados a graves, que exigem hospitalização e internação em UTI, a Coronavac teve 100% de eficiência - nenhuma pessoa vacinada desenvolveu os estágios mais complexos da doença.

Ballalai dá o exemplo da vacina contra rotavírus para explicar como pode ser, na prática, a eficácia de 50,4% da Coronavac. “A diarreia por rotavírus atingia toda a população. Era uma doença comum a todos e tinha uma mortalidade alta no mundo inteiro, taxa de hospitalização alta. E a eficácia da vacina era de 40% para casos leves e moderados”, pontua.

“A eficácia para a doença grave, hospitalização e mortes por diarreia causada por rotavírus é de 80%. É bem parecida com a vacina do Butantan”, diz. “O que a gente conseguiu? Podemos afirmar isso a partir da prática: pouco tempo depois de a vacina entrar na rede pública, a gente parou de ver diarreia por rotavírus. Simplesmente não vemos mais. Isso é uma vacina na prática”, destaca Ballalai.

A médica ressalta que o objetivo da vacina contra a Covid-19 é a queda nas hospitalizações e mortes. “Entendo que o desejo de todos seja o fim  da circulação do vírus. Isso vai acontecer em algum momento. Mas o resultado que precisamos com urgência é parar as mortes, esvaziar as enfermarias e UTI’s e permitir que o sistema de saúde atue com menos pressão”

Ela destaca ainda que nenhuma vacina garantirá a volta imediata ao cotidiano de antes da pandemia. “Nenhuma das vacinas traz a garantia de que voltaremos à velha normalidade. Aliás, nosso grande temor é de que a população vacinada se sinta protegida e não queira mais continuar no distanciamento social”, aponta.

Errata: esse texto informava, erroneamente, o número de pessoas de 18 anos ou mais no Brasil. A informação foi corrigida.

Com colaboração de Leonardo Lopes, da CNN.