Entenda a diferença entre eficácia, eficiência e efetividade das vacinas

É importante analisar um imunizante dentro desses três conceitos para se ter uma ideia melhor sobre como cada um funciona

Jéssica Otoboni, da CNN, em São Paulo
05 de fevereiro de 2021 às 05:00
Profissional de saúde prepara seringa com vacina contra Covid-19 de Oxford
Profissional de saúde prepara seringa com vacina contra Covid-19
Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Desde que os primeiros testes clínicos das vacina contra a Covid-19 começaram, muito se fala sobre a chamada taxa de eficácia de cada uma delas. No entanto, apesar de fundamental, ela não é o único dado importante a se levar em consideração quando as substâncias são comparadas, principalmente as que já estão em uso atualmente.

Para o epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) Paulo Andrade Lotufo, além da eficácia, deve-se levar em consideração também a efetividade e a eficiência.

Para explicar esses conceitos, ele faz um paralelo com os ensaios que são feitos quando um novo remédio é lançado.

“É preciso recrutar pessoas disponíveis para o estudo, com um nível de educação mínimo para responder às perguntas, acesso a telefone, que não estejam deprimidas, que não tenham deficiências físicas e doenças”, afirma. “Isso é resultado de eficácia em uma população ideal.”

Considerando que o medicamento é aprovado, ele é lançado no mercado e todas as pessoas que haviam ficado de fora dos testes passam a tomá-lo. “Cai no mundo da realidade. Pode ser que haja mudanças nos resultados nas pessoas que foram excluídas. Isso é efetividade”, explicou Lotufo. 

Ou seja:

  • Eficácia: é o mundo ideal, o desejado. Aqui a substância é analisada em um ambiente controlado. Ela é eficaz quando produz o efeito esperado.
  • Efetividade: é o mundo real, com todas as adversidades. Aqui a substância é colocada à prova com um conjunto diverso de pessoas, em suas mais adversas condições. Ela é efetiva quando observada da perspectiva realista.

E a eficiência?

A eficiência está atrelada à relação custo-efetividade. “Tem que pesar o quanto aquilo é efetivo e o quanto está custando”, disse Lotufo. 

O professor explica que uma vacina considerada mais barata, comparada a um imunizante que exige duas doses para funcionar, por exemplo, pode ficar menos em conta, já que exigirá o custo de duas aplicações.

Questionado se é possível dizer qual a substância atual mais eficaz, a mais efetiva e a mais eficiente, ele afirma que ainda não há como determinar. “Tem que tomar a vacina que existe, o que importa é isso. Não se pode desperdiçar a oportunidade.”

Vacinação precisa ser rápida

Lotufo destaca a necessidade de se vacinar a população rapidamente e avalia que a estratégia atual utilizada é “muito errada”. Para ele, o melhor seria ter poucos centros de vacinação em operação, mas que fossem grandes e pudessem receber um volume grande de pessoas, sem deixar os protocolos de segurança de lado.

“Marcar em poucos locais grandes, como o Anhembi, o Ginásio do Ibirapuera e estádios, é melhor pois são espaços com estacionamento [possibilitando a vacinação por drive-thru], amplos, com ventilação adequada e segurança para deixar os estoques guardados, já que há geradores de energia.”

O epidemiologista cita como exemplo o trabalho realizado no Hospital das Clínicas, no que ele descreve como “uma linha de montagem”. Ele conta que um colega cronometrou o tempo e conseguiu ser vacinado em nove minutos e meio – contando o tempo de entrada, vacinação e saída.

“Eu defendo, inclusive, que o drive-thru seja 24 horas por dia. Talvez isso seja exagero, mas que vá até umas 23h. O ideal é atender bastante gente por dia.”