'Foi descuido por cansaço', diz técnica indiciada por não aplicar vacina

A profissional falou com exclusividade à CNN nesta quinta-feira (18) e classificou o caso como um descuido, por estar muito cansada

Iuri Corsini e Thayana Araújo, da CNN no Rio de Janeiro
18 de fevereiro de 2021 às 14:03
Pessoa vacinada
Foto: Reprodução/CNN

A técnica de enfermagem Rozemary Gomes Pita, de 42 anos, indiciada quarta-feira (17) pela Polícia Civil por simular a aplicação de vacina contra a Covid-19 em um idoso, em Niterói, afirmou à CNN não ter percebido que o imunizante não havia sido aplicado de forma correta.

A profissional falou com exclusividade à CNN nesta quinta-feira (18) e classificou o caso como um descuido, por estar muito cansada. No entanto, em depoimento ao delegado responsável pela investigação, Rozemary não soube o explicar o motivo da falha e não mencionou o cansaço.  

“Eu estava de plantão, cansada, 36 horas 'virada' sem descanso, sem dormir, sem nada. Não sei o motivo disso ter acontecido, mas não foi por maldade, foi um descuido devido ao cansaço físico e mental”, afirmou a técnica de enfermagem. 

Rozemary também contou ter ficado sabendo da não aplicação da dose da vacina quando foi informada pela sua coordenadora, que a chamou e mostrou o vídeo do flagrante, gravado por um parente do idoso.

A técnica de enfermagem disse ter certeza de que havia imunizante dentro da seringa e questiona o fato de a seringa apresentada a ela ter sido encontrada vazia no recipiente de descarte. Ela garante que não estava junto quando houve a conferência no recipiente.  

“Se eu não apliquei no paciente, (o imunizante) teria que estar no Descarpack (recipiente onde são colocados os materiais perfurantes após a aplicação de vacinas). Esse Descarpack foi aberto fora da minha presença, mas era para eu estar do lado. Eu tenho certeza de que estava lá dentro”, disse Rozemary.

Rozemary também refutou a hipótese de ter simulado a aplicação da dose para levar o imunizante e repassar para terceiros. Segundo ela, a vacina perderia sua eficácia, já que ela precisaria levar a dose em um recipiente refrigerado, o que seria prontamente flagrado por colegas e pelas câmeras do circuito interno de segurança do local. 

Delegado afirma que erro foi deliberado

O delegado Luiz Henrique Marques, da 76º DP de Niterói, responsável pela apuração do caso de falsa vacinação em Niterói, afirmou à CNN que as investigações foram concluídas e que não restam dúvidas sobre a participação deliberada de Rozemary, contradizendo o que foi dito por ela, de que a não aplicação teria ocorrido por um descuido.

Luiz Henrique informou que o inquérito está sendo encaminhado nesta quinta-feira (18) para o Ministério Público do Rio, que avaliará o caso e poderá ou não denunciar Rozemary à Justiça. 

O delegado também estuda a possibilidade de indicar a técnica de enfermagem por um terceiro crime: estelionato.

“Já concluímos a investigação, ouvimos todas as partes ontem (18) e já deu para concluir sobre a participação dela. Ela só pode ter retido (a vacina) para repassar para outra pessoa. Não há outra possibilidade. Se for comprovada essa intenção (de repassar para terceiro) ainda terá outro crime, o de estelionato, porque a vacina provavelmente não teria sequer eficácia por não ser armazenada em local adequado, o que enganaria esse terceiro receptor da vacina desviada”, afirmou o delegado à CNN.

Rozemary pode responder pelos crimes de Infração de Medida Sanitária: “Infringir determinação do poder público, destinada a impedir introdução ou propagação de doença contagiosa” e pode ter um agravo, segundo o parágrafo único:  “pena é aumentada de um terço, se o agente é funcionário da saúde pública ou exerce a profissão de médico, farmacêutico, dentista ou enfermeiro”.

Ela também pode ser processada por peculato culposo, que é o ato de “apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio” e culposo “se o funcionário concorre culposamente para o crime de outrem”. 

A técnica em enfermagem foi a primeira profissional de saúde no Brasil a ser indiciada criminalmente por não aplicar o imunizante.