Covid-19: Cepa de Manaus tem ao menos dobro da carga viral, diz Fiocruz Amazônia

Resultado da análise pode apontar o motivo de a linhagem P1 ser mais contagiosa

Stéfano Salles, da CNN no Rio de Janeiro
26 de fevereiro de 2021 às 15:53 | Atualizado 26 de fevereiro de 2021 às 21:49

Uma análise feita com 500 amostras coletadas pelo novo teste de RT-PCR em tempo real para verificar variantes do coronavírus detectou que a linhagem P1, descoberta no Amazonas, tem pelo menos o dobro de carga viral encontrada nas demais.

De acordo com o pesquisador Felipe Naveca, do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), responsável pelo estudo, essa é uma possível explicação para que ela seja mais contagiosa que as demais variações do vírus. 

Profissional aplica teste do tipo RT-PCR para detecção do novo coronavírus
Foto: Callaghan O'Hare/Reuters (23.jun.2020)

Análise foi feita com amostras de linhagens variadas, todas do estado do Amazonas, e o resultado dos testes positivos para a P1 foi comparado com os apresentados pelas demais variantes, em exames feitos entre dezembro de 2020 e o fim de janeiro de 2021. 

“Depois de utilizar esse teste de RT-PCR em tempo real, conseguimos mostrar que a carga viral detectável na secreção de nasofaringe de pacientes com a P1 é estatisticamente maior do que a dos pacientes não P1. Talvez essa seja a explicação relacionada à maior transmissão. Pelo menos nos nossos dados, suporte estatístico para isso”, afirma Naveca. 

Segundo o pesquisador, em todos os recortes feitos pela pesquisa, seja por sexo ou por faixa etária, foi encontrada o padrão sempre se repetiu. “Se eu tenho maior presença do vírus no trato respiratório superior, provavelmente eu tenho maior chance de transmiti-lo para outras pessoas”, conclui o pesquisador. 

Com base na frequência com que o vírus é encontrado na região e nas mutações, os especialistas da Fiocruz Amazônia já concordavam que a variante P1 era mais transmissível que as demais. Ela foi encontrada pela primeira vez em uma amostra de 4 de dezembro do ano passado. No entanto, os pesquisadores ainda não estão certos de que essa tenha sido a primeira aparição da linhagem. 

Para encontrar uma data mais fidedigna, a Fiocruz Amazônia tem pedido o envio das amostras dos laboratórios do interior do estado, antes que elas sejam descartadas, para tentar identificar o primeiro caso. O volume de material coletado a cada exame permite a realização de mais testes que o necessário para uma análise. 

Sequenciamento otimizado

O ganho de velocidade na realização dos exames com a implementação do novo RT-PCR depende do tamanho dos laboratórios que as utilizem. Com a implementação dele no ILMD/Fiocruz Amazônia, o aumento foi de 26 vezes. Passou de 96 análises semanais, feitas por sequenciamento, para 500 por dia, realizadas pelo novo exame. Ao todo, são 2,5 mil, de segunda a sexta. Desta forma, o laboratório fica livre para otimizar a escolha das amostras a serem sequenciadas. 

“Outras variantes vão continuar aparecendo e o RT-PCR não vai identificá-las, mas o sequenciamento vai. Esse teste surgiu para sabermos se é a variante brasileira, da África do Sul ou do Reino Unido, porque as três têm uma mutação em comum e são apontadas como variantes de preocupação. A ideia não é eliminar o sequenciamento, ele permite mais análises, mas não é uma metodologia rápida, e demanda uma carga viral mais forte para ser efetivo”, conclui o pesquisador. 

Geralmente, o sequenciamento genético é trabalhoso: o material demora precisa ser preparado por entre dois ou três dias até entrar no sequenciador, onde permanece por pelo menos 36 horas. E, como o processo é custoso, é necessário juntar muitas amostras, o que barateia o custo unitário, mas faz com que se leve mais tempo para reuni-las.  Enquanto isto, o RT-PCR leva de três a quatro horas para ter um resultado.