Hospitais filantrópicos de SP dizem que têm 'kit intubação' por uma semana

A falta dos medicamentos que compõem o kit pode aumentar consideravelmente o número de mortes dos pacientes intubados com Covid-19

Roberta Jansen, do Estadão Conteúdo
20 de março de 2021 às 17:23 | Atualizado 26 de março de 2021 às 00:28

Hospitais filantrópicos de São Paulo têm estoques de medicamentos indispensáveis no tratamento da Covid-19 suficientes para apenas mais uma semana, alerta nota divulgada neste sábado, 20, pela Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes do Estado (Fehosp).

A exemplo do que também vem sendo registrado na rede privada, os produtos em escassez são os sedativos e bloqueadores neuromusculares que compõem o chamado "kit intubação", essencial para intubar e manter intubados pacientes em estado crítico.

Sem os remédios, o número de mortes pela doença pode aumentar consideravelmente.

O aumento pela demanda dos remédios, a escassez de matéria-prima para produção e custos significativamente mais elevados são alguns dos fatores que levam à redução dos estoques.

Estão em falta os bloqueadores neuromusculares Atracúrio, Cisatracúrio, o relaxante muscular Rocurônio, usado para facilitar a intubação, o anticoagulante henoxaparina e o sedativo fentanil, entre outros.

"Na primeira onda a intubação ocorria em 50% a 60% dos casos", explicou o diretor-presidente da Fehosp, Edson Rogatti.

"Hoje, o que nós observamos é que 100% dos pacientes que precisam de UTI estão intubados; logo, aumentou de forma considerável o uso desses medicamentos." Além disso, explicou Rogatti, os hospitais continuaram atendendo outros pacientes.

"Não deixamos de atender as outras demandas hospitalares, como traumas, oncologia, cardiologia e outras doenças que também demandam intubações", disse.

Leitos de UTI no Hospital Ronaldo Gazzola, na zona norte do Rio de Janeiro, durante pandemia da Covid-19
Foto: Wilton Júnior/Estadão Conteúdo (10.mar.2021)

 

"Agora, com o aumento dos casos de covid-19, principalmente dos que requerem UTI, estamos usando os bloqueadores neuromusculares e os sedativos em larga escala, o que está levando à escassez. E a escassez é um passo antes do desabastecimento."

Para agravar ainda mais a situação, houve um aumento substancial dos preços dos medicamentos. O rocurônio, por exemplo, que em dezembro de 2020 custava R$ 16 a unidade, está custando agora R$ 298 - um aumento de 1.762%.

Equipe médica cuida de pacientes em área de emergência de hospital
Foto: Diego Vara/Reuters

O preço do atracúrio passou de R$ 14 para R$ 69. O propofol, por sua vez, passou de R$ 13 para R$ 33 e o fentanil de R$ 5 para R$ 10.

Segundo os laboratórios farmacêuticos, o aumento da demanda teria provocado um aumento no custo das matérias primas, que são importadas.

"Em dezembro, já estávamos trabalhando com uma inflação que vinha desde o começo da pandemia", afirmou Rogatti.

"Já vivenciamos isso no passado e, agora, estamos vivenciando de forma mais intensa por conta do aumento abrupto do número de casos. Com a escassez, alguns distribuidores que estocaram estão ofertando a preços absurdos em um momento tão crítico do enfrentamento. Se o hospital comprar a esse preço, não conseguirá manter sua sustentabilidade e irá sucumbir", disse.