Como a pandemia da Covid-19 mudou nosso senso de mortalidade

Para muitos, a pandemia foi um rude despertar da consciência para a morte e tornou o inevitável rito de passagem em um “confronto”

Análise por Allison Hope, da CNN
28 de março de 2021 às 05:00
Vítimas da Covid-19 em Manaus
Vítimas da Covid-19 em Manaus
Foto: GettyImages

Já passava da meia-noite, mas eu não conseguia ver a hora porque um fluxo constante de lágrimas deixou a minha visão turva. Sentei como um zumbi, jogada diante do computador, exausta demais por meses em lockdown para ser produtiva, mas ansiosa demais para dormir.  

Passei noites como essas digitando ferozmente bilhetes de amor mal elaborados para meu filhinho, que, infelizmente, refleti que ele era muito pequeno para se lembrar de mim se eu acabasse sendo outra vítima desta praga que acontece uma vez a cada século.

Antes da pandemia, passou pela minha cabeça que eu poderia não estar por perto para ver meu filho crescer ou para publicar meu best-seller, mas isso foi uma angústia muda, no fundo da minha consciência, e que eu poderia facilmente repelir.

A maioria das pessoas vive depois dos 30 anos nos Estados Unidos, pensei. Eu não tinha motivos para acreditar que não ficaria velha e grisalha, implorando por um tempo de qualidade com meu filho adulto, que tinha coisas melhores para fazer do que ficar comigo.

Mas desde a Covid-19, tenho visto pessoas ao meu redor – amigos, familiares e estranhos da minha idade, cujas histórias são contadas em obituários – morrerem desse contágio. Uma aguda sensação de pavor existencial instalou-se em minha psique. Aquela vaga inevitabilidade que presumi que aconteceria em um futuro distante me acertou na cabeça como uma bigorna de um antigo desenho animado.

Eu poderia morrer facilmente mais cedo ou mais tarde. Minha mortalidade estava, pela primeira vez, em foco.

A Covid-19 trouxe a morte para o foco

Para muitos, a Covid-19 foi o rude despertar de que a morte não era um relacionamento de longa distância, mas sim um vizinho próximo.

“Estamos em um momento que, por mais trágico e horrível que seja, é um dos poucos momentos na história americana em que somos confrontados com mortes em massa e forçados a refletir sobre nossa própria mortalidade”, disse Gary Laderman, professor de história e culturas religiosas americanas na Emory University, que dá aulas sobre a morte e o morrer.

Laderman, que publicou recentemente o livro “Don't Think About Death: A Memoir on Mortality” (“Não Pense na Morte: Uma Memória Sobre a Mortalidade”, na tradução livre), viu um aumento tangível no interesse em suas aulas desde a pandemia, com mais de 300 alunos matriculados.

A Covid-19 também criou uma “geração mais jovem com consciência da mortalidade”, disse Laderman. “Isso é profundo e realmente comovente em um núcleo existencial que não é comum nessa idade”.

Muitas pessoas mais jovens e saudáveis que conheço não pensavam seriamente em nosso próprio senso de mortalidade – até a chegada da Covid-19. A pandemia trouxe à tona o fato de que uma vida plena e longa não é necessariamente uma coisa garantida.

Nem todo mundo entende sua própria mortalidade

No entanto, nem todo mundo aproveitou a pandemia para lidar com as realidades da morte e do morrer.

“Como uma doula para a morte, eu tinha esperança de que a Covid tornaria a morte um assunto mais acessível. Eu não diria que as coisas mudaram tanto quanto eu esperava. De certa forma, nós apenas corremos mais e mais longe, cada vez mais rápido disso”, disse Jane Whitlock, uma doula de Minneapolis, que trabalha com pessoas que estão morrendo e suas famílias.

Whitlock observou que mais pessoas estão preenchendo formulários médicos com diretrizes antecipadas, que explicam os desejos de uma pessoa sobre se os médicos devem tentar ressuscitar ou manter uma pessoa viva se ela estiver perto da morte.

Ainda assim, ela ficou consternada com a falta de evolução na discussão sobre mortalidade ou planejamento do fim da vida em todas as faixas etárias e a atitude que ela tem observado de pessoas que pensam que podem “prender a respiração e chegar ao fim disso e então minha vida estará normal de novo”, disse ela.

“Qualquer pessoa que já teve uma experiência com o luto sabe que não há como voltar atrás”, disse Whitlock. “Aquele normal se foi”.

Cemitério em Manaus (AM) durante a pandemia da Covid-19
Foto: Bruno Kelly/Reuters (31.dez.2020)

 Aceitando a morte como parte da vida

Laderman diz que a morte sempre esteve ao nosso redor, em referências culturais, filmes e nas músicas, mas que a Covid-19 tornou o inevitável rito de passagem em um “confronto”.

Como a pandemia afetará nossa compreensão a longo prazo da mortalidade? As novas gerações terão uma relação mais próxima com a morte?

“Mesmo com esses precedentes históricos, é difícil entender como isso vai nos impactar”, disse Laderman. “Estamos tão envolvidos que é difícil ver e imaginar”, disse ele.

Ainda assim, existem maneiras de praticar o convite à morte para sua consciência como uma parte mundana da vida. Você pode começar incorporando um “ritual de morte” em sua rotina diária, diz Whitlock.

Comece o dia com um mantra que reconheça sua própria mortalidade, disse ela, ou baixe um aplicativo como o We Croak, que soa um alarme várias vezes ao dia para lembrá-lo de que um dia você morrerá. Você pode coletar obituários de amigos e familiares ou de pessoas interessantes que você admira.

Outra atividade menos desesperadora pode ser, disse Whitlock, “fazer uma viagem pelo bairro e pensar em todas as pessoas que moravam lá há cem anos e perceber como você também não é um elemento permanente deste lugar”.

Outras culturas honram a morte de maneira diferente

O fato de compreender que outras culturas aceitam e honram a morte de maneiras diferentes também ajuda. O budismo, por exemplo, fala sobre a impermanência da vida e os ciclos de morte e renascimento como um de seus princípios.

“Não há dúvida de que a pandemia global impactou cada pessoa neste planeta de alguma forma. É uma tragédia que permanecerá em nossas mentes e corações pelas próximas gerações, e nossa maneira de nos relacionarmos será, de certa forma, alterada para sempre”, disse Iele Paloumpis do Brooklyn, Nova York, que trabalha como doula para aqueles que estão no fim de vida.

Para mudar nossa compreensão da morte e do morrer, podemos começar conversando com nossos entes queridos sobre seus desejos e planos para o fim da vida, disse Paloumpis. “Pode ser um presente realmente significativo entender claramente as necessidades e desejos mais íntimos em nossos dias e horas finais, então converse com seus entes queridos, preencha suas diretrizes antecipadas e exalte as coisas que são mais importantes para você”, disseram eles.

Jenna Lasky, estudante universitária de 20 anos que mora na Geórgia, diz que a Covid-19 impactou seu próprio senso de mortalidade, mas ela também mantém o arbítrio sobre como ela processa esses sentimentos.

“Com pandemia ou não, ainda vou ficar acordada todas as noites com os pensamentos persistentes e desagradáveis da minha morte certa, mas vou escolher não sufocar esse medo existencial ou ansiedade. Em vez disso, quero explorá-los, fazer amizade com eles. Aprendi que a única maneira de conquistar a escuridão é se aventurar por ela”, disse.

Independentemente do que o futuro traga ou de quanto tempo tenhamos o privilégio de respirar nesta Terra, se esse pavor existencial recém-descoberto me ensinou alguma coisa é que ter um forte senso de mortalidade e aceitar que um dia morrerei, talvez até mais cedo do que pensei, vai me ajudar a viver melhor hoje. Não deixe que as garras da morte estraguem um dia perfeito para aproveitar a vida plena que você tem agora.

Allison Hope é uma escritora nova-iorquina nativa que prefere o humor à tristeza, as viagens à televisão e o café ao sono.

Texto traduzido, leia original em inglês aqui