Nebulização de cloroquina não tem respaldo científico, ressaltam especialistas

CFM definiu que a administração da substância pelas vias aéreas só poderá ser feita como procedimento experimental, após aprovação de comitês de ética

Lucas Rocha, da CNN, em São Paulo
14 de maio de 2021 às 15:57 | Atualizado 14 de maio de 2021 às 17:01
Pílulas de hidroxicloroquina
Para SBP, prescrição de cloroquina e hidroxicloroquina para crianças e adolescentes é inadequada em razão da falta de evidências consistentes
Foto: George Frey - 27.mai.2020 / Reuters

O Conselho Federal de Medicina (CFM) estabeleceu, a partir de uma resolução publicada no Diário Oficial da União nesta quarta-feira (12), que a hidroxicloroquina e a cloroquina em apresentação inalatória só podem ser administradas como procedimento experimental.

De acordo com a definição, tratamentos médicos com essa abordagem só poderão ser realizados por meio de protocolos de pesquisa aprovados pelo sistema de Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs) e Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

A nebulização com cloroquina foi usada de forma clandestina no Brasil em pacientes com a Covid-19. Os comprimidos são diluídos em soro fisiológico, que é vaporizado e então inalado. Pelo menos oito pessoas morreram após passar pelo procedimento. 

Segundo a presidente da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), Irma de Godoy, não há comprovação científica dos benefícios para a saúde com a inalação da cloroquina. Ela afirma que os casos registrados são inaceitáveis, do ponto de vista ético.

“Experimento em humanos”

“Como é uma nova forma de administração de uma medicação, sobre a qual não se sabe exatamente todos os componentes, nem a quantidade, isso é um experimento em seres humanos”, afirmou Irma. 

O uso da cloroquina na forma inalatória nunca foi permitida. A medida estabelecida pelo CFM reforça a restrição. A partir de agora, para que a substância seja administrada na forma de nebulização, será necessária a elaboração de um projeto de pesquisa, que deve ser submetido à análise de comitês de ética em pesquisa (CEPs) e, em última instância, precisa ser aprovado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep).

A pesquisadora e pneumologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Margareth Dalcolmo, ressalta que não existe formulação da cloroquina que permita o uso inalatório. “Um fármaco para ser usado pela via inalatória precisa ter formulação própria para isso. Cloroquina é um medicamento que existe em comprimido, nós não sabemos sequer a alquimia feita para esse uso. Isso não faz o menor sentido do ponto de vista clínico”, afirmou.

A pneumologista considera difícil a aprovação de projetos de pesquisa com o uso da cloroquina na forma inalatória. “Como médica, pneumologista e pesquisadora que submete projetos o tempo todo para o sistema CEP/Conep acho muito difícil que um protocolo dessa natureza seja aprovado pela Conep”, pontuou Margareth. 

Segundo o CFM, a decisão é resultado de análises sobre a possibilidade de que a inalação desses remédios seja uma alternativa para reduzir o risco de eventos adversos e aumentar a eficácia no tratamento contra a Covid-19.

De acordo com a presidente da SBPT, o prazo para que um medicamento via inalação seja desenvolvido e aprovado pode levar até 15 anos. A especialista explica que o processo conta com diversas etapas, incluindo avaliação da segurança das substâncias utilizadas e da dosagem. 

Irma destaca que o pulmão é um órgão com um sistema amplo de vascularização e bastante sensível e que os riscos da inalação de qualquer substância que não seja previamente aprovada são altíssimos.

“Qualquer substância administrada dentro da via aérea precisa ser exaustivamente testada. A produção é feita de forma absolutamente controlada para que não tenham contaminações ou componentes que podem causar lesão nos pulmões. É um processo farmacêutico detalhado e extenso”, explicou Irma.