Projeto do governo de testar em massa para Covid-19 vem tarde, dizem cientistas

Especialistas afirmam que investimento deveria ser direcionado à pesquisa já existente, ao reforço da vacinação e à testagem com exames de RT-PCR

Camila Neumam, da CNN, em São Paulo
18 de maio de 2021 às 17:46 | Atualizado 18 de maio de 2021 às 20:04
Profissional aplica teste do tipo RT-PCR para detecção do novo coronavírus
Profissional aplica teste do tipo RT-PCR para detecção do novo coronavírus
Foto: Callaghan O'Hare/Reuters (23.jun.2020)

 

“Uma iniciativa tardia” e “que não fará diferença agora”. É assim que os especialistas ouvidos pela CNN avaliam a PrevCOV, pesquisa anunciada pelo Ministério da Saúde para mapear a prevalência da Covid-19 no Brasil de junho a setembro deste ano. 

Serão realizados testes sorológicos de sangue na população para identificar anticorpos do tipo IgG para a doença (que indicam se a pessoa foi contaminada com o novo coronavírus anteriormente e se desenvolveu imunidade). 

Para o epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), faria mais sentido se o Ministério da Saúde tivesse dado continuidade ao EPICOVID-19, primeiro inquérito sorológico sobre o coronavírus realizado no país, do qual foi coordenador. A pasta financiou a pesquisa nos três primeiros meses, de abril a julho de 2020; nos nove meses restantes ela foi financiada por governos estaduais e fundos privados.

O EPICOVID-19 teve dez fases de testes realizadas no Rio Grande do Sul, entre os meses de abril de 2020 e abril de 2021, e cinco fases realizadas nacionalmente com o nome EPICOVID-19-BR, que testou 245 mil brasileiros, em 133 municípios. 

O estudo liderado por Hallal fez testes em massa da classe IgG do tipo ELISA (do inglês enzyme-linked immunosorbent assay) capaz de identificar a presença de anticorpos contra o SARS-CoV-2 com uma precisão superior a 99%. O exame é o mesmo que será usado no PrevCoV. 

Uma das grandes descobertas do inquérito, cujos resultados foram publicados na revista científica Nature Medicine, foi prever a incidência do coronavírus na região Norte do país – que depois estourou na crise em Manaus -, a prevalência de grupos mais vulneráveis ao novo coronavírus, como os indígenas, e a incidência de mais casos em algumas regiões, explica o epidemiologista.

Os demais pesquisadores que participaram do EPICOVID-19 declararam em nota terem sido surpreendidos com o anúncio da nova pesquisa do Ministério da Saúde pelo fato de não terem sido notificados e nem citados como o estudo pioneiro. 

Hallal afirma que os maiores estudos sorológicos já realizados, como o EPICOVID e outro na Espanha, foram feitos no começo da pandemia como forma de ajudar na implementação de políticas públicas para o combate à Covid-19. “Parece ingênuo mostrar isso como novidade. Já há mais de 500 estudos do tipo no mundo”, refuta.

Foco na vacinação

Para o infectologista Julival Ribeiro, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), a pesquisa sorológica não somente “chegou tarde” como não fará diferença agora, quando, segundo ele, o país deveria estar mais preocupado em focar na campanha de vacinação contra o novo coronavírus. 

Ribeiro afirma que o Brasil deveria seguir o exemplo dos Estados Unidos e dos países europeus que começaram a fazer inquéritos sorológicos no começo da pandemia e no atual momento focam seus esforços e recursos financeiros na compra de vacinas e em campanhas massivas de vacinação. 

“Esse inquérito era para ter sido feito no início da pandemia, para identificar a distribuição da Covid-19 na população. Isso não tem mais importância neste momento. O foco agora deve ser promover a vacinação em massa”, afirma. 

Ribeiro defende ainda que faria mais sentido neste momento apostar na testagem em massa com exames de RT-PCR, o teste considerado mais eficaz para a detecção do novo coronavírus. Com este tipo de exame é possível descobrir o número de infectados quando estão doentes, informação importante para conseguir isolar os contaminados e evitar a disseminação da Covid-19. 

O teste sorológico do tipo IgG, que será utilizado no PrevCOV, mostra apenas se a pessoa já contraiu o Sars-coV-2. Segundo o infectologista, faltam evidências importantes sobre sua efetividade em relação ao quão protegidas as pessoas que já contraíram o coronavírus estão de uma reinfecção. 

“Mesmo sabendo o percentual de pessoas que tiveram Covid-19, o que vai mudar se não sabemos quanto tempo essas pessoas estão protegidas contra o coronavírus? Quanto tempo duram estes anticorpos?”, questiona.

O infectologista diz ainda que não é recomendado fazer testagem de anticorpos após contrair o novo coronavírus, porque a própria ciência ainda não conseguiu descobrir por quanto tempo a imunidade se mantém após a contaminação e após a vacinação. 

Prazo e investimento

Hallal chama a atenção ainda para outros fatores que considera preocupantes sobre o PrevCOV: a duração e o custo.

O epidemiologista diz que quatro meses é um tempo considerado muito longo. “Não é recomendado que um estudo sorológico demore tanto na coleta de dados, porque pode identificar padrões muito diferentes de acordo com a fase da pandemia”, afirma o epidemiologista. 

No EPICOVID-19, por exemplo, a coleta de dados tinha que durar de uma a duas semanas, no máximo. E para isso ser possível, duas mil pessoas fizeram os testes no mesmo dia, em 126 cidades, explica o especialista.

Outro ponto questionado por Hallal é o valor do financiamento – R$ 200 milhões, segundo o Ministério da Saúde –, considerado muito alto, se comparado ao do EPICOVID-19 que, segundo ele, fez testes sorológicos em pessoas de 126 cidades a um custo total de R$ 45 milhões.  

O que diz o Ministério da Saúde?

O Ministério da Saúde afirmou à CNN, por e-mail, que a PrevCov é uma das maiores iniciativas no campo das pesquisas de soroprevalência da infecção por Covid-19 do mundo.

“A Pesquisa prevê a participação de mais de 211 mil pessoas em 274 municípios. Os resultados dos exames dos participantes servirão como uma amostragem para a pesquisa, indicando qual é o cenário epidemiológico em todas as regiões do país, fornecendo subsídios para que o Ministério da Saúde possa traçar as melhores estratégias no enfrentamento da pandemia”.

A pasta diz também que financiou o EPICOVID até a sua conclusão e que realizou e financiou outras pesquisas em 2020 para identificar o comportamento da Covid-19 na população brasileira, citando a Pesquisa Vigitel Covid-19.

Em relação à duração da PrevCOV, o Ministério afirmou que o prazo é necessário pelas várias fases do projeto e ressaltou que "a fase de coleta de amostras laboratoriais ocorre no período de apenas 30 dias (mês de junho) de forma concomitante em todos os estados brasileiros".

Quanto ao valor da pesquisa, o texto diz que o orçamento inclui diversas estratégias. Entre elas: contratação de empresa de Call Center, responsável pelo contato com os participantes para confirmação dos dados coletados pelo IBGE, realização de perguntas de pesquisa e agendamento das coletas biológicas; e do Laboratório que fará a coleta, o processamento e o envio de amostras de sangue para as Unidades de Apoio ao Diagnóstico de Covid-19 da Fiocruz (UNAIDGs).

Sobre o modelo de testagem escolhido, o Ministério diz que a vigilância epidemiológica e laboratorial para a identificação de casos agudos de Covid-19, para tratamento e isolamento, já ocorre desde o início da pandemia, por meio da realização de testes do tipo RT-PCR nos Laboratórios de Saúde de Pública (LACENs) de todos os estados.

A pasta afirma ainda que os inquéritos soroepidemiológicos permitem conhecer casos não contabilizados pela testagem e que tanto a PreVCoV, como a testagem por RT-PCR são estratégias importantes. “Cabe ainda destacar que são metodologias distintas, e os resultados da pesquisa além de permitir entender a dinâmica da doença no território em determinado momento, permitirá a avaliação da imunização".