Uerj cria ambulatório com equipamento inédito para tratar sequelas da Covid-19

Equipe de especialistas usa equipamento inédito na América Latina para diagnóstico e acompanhamento dos casos; entenda a técnica

Isabelle Resende, da CNN, no Rio de Janeiro
27 de maio de 2021 às 19:00 | Atualizado 27 de maio de 2021 às 19:08
Equipamento usado na clínica é inédito na América Latina
Equipamento usado na clínica é inédito na América Latina
Foto: Divulgação

A policlínica Piquet Carneiro, ligada à Uerj, trabalha com um equipamento inédito no Brasil e na América Latina para tratar pacientes com sequela pós-Covid. O oscilômetro é fundamental para verificar a capacidade respiratória do paciente através da avaliação evolutiva, buscando alterações pulmonares e pleurais. A iniciativa é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

Mais de 400 pessoas já foram atendidas no ambulatório da policlínica. Criado há sete meses, o setor é voltado exclusivamente ao tratamento de pacientes que ainda apresentam sequelas da doença mesmo após o fim da infecção. 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada 10 sobreviventes da Covid-19 relatam sintomas persistentes da doença.

Os atendimentos tiveram início durante a campanha de testagens de pacientes sintomáticos na Policlínica. Os casos positivos foram cadastrados e rastreados pela equipe responsável pela pesquisa, liderada pelo professor da Uerj Agnaldo Lopes. 

Números considerados positivos

Os pacientes que apresentam sequelas como dificuldade respiratória são selecionados para acompanhamento médico durante nove meses. A cada 90 dias de tratamento, os doentes passam por nova avaliação clínica a fim de constatar se o protocolo adotado é o mais adequado. 

De acordo com os pesquisadores, a abordagem, que é personalizada conforme a necessidade de cada paciente, tem apresentado bons resultados. Ao todo, mais de 42% dos 400 avaliados já recebeu alta da clínica, um índice considerado ótimo para os pesquisadores. 

A média Laura Monnerat ressalta a evolução clínica do paciente logo após a primeira consulta. A intervenção tem se mostrado benéfica. Há doentes que estavam com bastante falta de fôlego na primeira consulta e que, na seguinte, já foi possível ver uma melhora após início da terapia, aponta a integrante do time de pesquisadores.

Oscilometria

A técnica (oscilometria) mede a resistência das vias aéreas através das ondas respiratórias, evitando uma expiração forçada, como é exigido na espirometria, também conhecida como teste de sopro. 

Com o aparelho, mais silencioso, o médico tem a dimensão mais exata do movimento respiratório dos bronquíolos. O procedimento é mais confortável e rápido para o paciente, pois evita as repetições realizadas no exame tradicional. 

Um dos pesquisadores envolvidos, o professor da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ Thiago Mafort, cita que a ultrassonografia também pode fazer a diferença na análise dos casos. Como é um exame menos invasivo, que não emite radiação, pode ser feito no momento da consulta com o paciente, relatou o especialista. 

Com o uso do ultrassom no diagnóstico de sequelas em pessoas que tiveram a Covid-19, a equipe pode fazer um comparativo clínico com uma tomografia computadorizada, exame indicado para detecção dos sintomas da doença. 

O estudo, publicado ainda em 2020, mostrou a evolução em diferentes estágios da infecção, além de apontar que 24,4% dos avaliados precisavam do uso do oxigênio.

Inicialmente, a pesquisa tinha como meta a realização de 500 atendimentos. Porém, com a alta da taxa de infectados pela Covid-19 em 2021, a equipe considerou que seria necessário dobrar este quantitativo, ampliando a oferta de vagas para o Sistema de Regulação do SUS (SISREG). 

O time multidisciplinar, que conta com médicos, fisioterapeutas e residentes, espera que o ambulatório seja incorporado após a conclusão da pesquisa da Faperj. “Esperamos que nossas experiências sirvam de modelos para outras unidades de saúde”, afirmou o professor Agnaldo Lopes. 

Tratamento da Covid em duas frentes

Enquanto a pesquisa da Pneumologia no pós-Covid foca na recuperação do trato respiratório, a Divisão de Fisioterapia da Policlínica Piquet Carneiro reabilita pacientes com comprometimentos neuromusculares e cardiovasculares. 

O programa é oferecido em dois formatos: um no presencial, voltado para o usuário com sequelas mais graves, e outro no teleatendimento. Por este meio, o paciente de caso mais leve recebe as orientações de exercícios durante as sessões online. 

Segundo a coordenadora da reabilitação Flávia Gomes, a maioria dos pacientes se queixa da perda de força e da incapacidade de andar sem auxílio. 

“Priorizamos a capacidade neuromuscular, no equilíbrio, na coordenação e no retorno do indivíduo às suas atividades pregressas. Não focamos somente nas alterações respiratórias, e sim no paciente como um todo”, disse a fisioterapeuta. 

Referência no diagnóstico da Covid-19 no Rio de Janeiro, a Clínica Piquet Carneiro já atendeu mais de 50 mil pessoas, tornando-se centro de referência nas testagens no estado.