'Este é o pior ano em termos de investimento em pesquisa', diz infectologista

À CNN, o infectologista Julio Croda diz que se o Brasil quiser ser independente em termos de vacina nas próximas pandemias é preciso prover maior incentivo hoje

Produzido por Juliana Alves, da CNN São Paulo
11 de julho de 2021 às 10:31

 

Apesar das consequências nefastas da pandemia do novo coronavírus para o Brasil, os casos da doença não incentivaram mais investimentos em pesquisa e tecnologia no país. Em entrevista à CNN, Julio Croda, pesquisador da Fiocruz, infectologista e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), disse que "infelizmente" isso não gerou mais incentivos para estudos científicos localmente.

“Este é o pior ano em termos de investimento em pesquisa quando a gente olha o orçamento do ministério da Ciência e Tecnologia. Lógico que existe investimento específico para a Covid-19, mas muito aquém do investimento que está sendo feito por outros países, inclusive, com o mesmo porte econômico do Brasil.”

O infectologista ressaltou que novas pandemias vão atingir o mundo e, se o nosso país quiser ser mais autônomo em relação à produção de imunizantes nacionais, é preciso um olhar mais atento para a pesquisa agora. "Se a gente quer ser independente na produção de vacina, no sequenciamento [genético] e na preparação para próximas novas pandemias, é necessário um maior investimento em pesquisa.”

“Nossas escolhas de hoje vão ser fundamentais para daqui a dez, vinte anos, como a gente vai responder às próximas pandemias", complementou.

Vacina contra a Covid-19

Croda vê com otimismo a aceleração da vacinação neste segundo semestre de 2021. "A gente está tentando recuperar aquele tempo perdido da compra de doses que não ocorreu no ano passado", pontua. No entanto, ele descarta a ideia de que somente a alta cobertura vacinal irá controlar a pandemia de Covid-19 no Brasil. "A gente vai mitigar, vai evitar casos graves.”

Por isso, a discussão em torno do que será o fim do ano e o começo do ano que vem ainda é precoce, já que, segundo o médico e pesquisador, "pode haver aumento do número de casos" e ainda "é muito imprevisível o que pode acontecer nos próximos meses".

A realização de eventos de grandes proporções como festas de Réveillon e Carnaval, na visão de Croda, depende do comportamento da pandemia.“Para ter o controle da doença e liberar esse tipo de atividade, a gente tem que ter menos de 10 casos por 100 mil habitantes."

“Não é a cobertura vacinal que vai determinar a realização ou não do evento, e sim como está a transmissão do vírus naquele momento", explica.

Variantes

Julio Croda diz que o Brasil vai experimentar uma disputa de novas variantes da Covid-19 para ver qual se tornará predominante entre os casos. A variante Gama, até o momento, é a de maior incidência, no entanto, a alta transmissibilidade da Delta preocupa os especialistas.

“É um cenário de competição entre as variantes, e este cenário a gente não viu em nenhum lugar do mundo. O Brasil vai experimentar esse tipo de competição para ver qual se tornará predominante em nosso país. Vamos ver se a gente consegue conter adequadamente a Delta até a gente vacinar o maior número de pessoas.”

Nesse sentido, o infectologista apoia a estratégia de antecipar a aplicação da segunda dose das vacinas. 

"Eu considero acertada a decisão de antecipar a segunda dose para o grupo acima de 50 anos para dar mais efetividade à vacina na população de maior risco. E pode-se manter o intervalo de 12 semanas para pessoas mais jovens, com menor risco", afirma. "A gente sabe que abaixo de 40 anos o risco de hospitalização e óbito é bem baixo."

O infectologista explica que a maior taxa de contaminação da Delta está associada ao fato da variante apresentar uma maior carga viral. "As pessoas que adoecem por esta variante possuem mais vírus no trato respiratório e, por isso, se transmitem mais", conclui.

Partícula do novo coronavírus
Foto: Geralt/Pixabay